Superman e a tabela periódica: os usos da linguagem

Quando linguagem, humor e sabedoria brincam juntos.

Sabe, comunicar é um ato de solidariedade.

Não, não no sentido humanitário ou religioso. Expressar uma ideia é buscar equilíbrio. Uma mão que puxa outra, um pé ante pé, até que dois alcancem igual degrau. No entanto, uma vez no alto, a visão não é igual, embora o cenário seja o mesmo.

O mais comum é o uso pouco ousado da linguagem. Inevitável. Ninguém tem lá paciência com autor medíocre ou repentista limitado. Coisa distinta é o bom artista, capaz de despertar setores da imaginação que só mera letra escrita se esquiva de expressar.

Vai, post meio delirante, mas confia em mim.

Favorito olvidado naqueles arquivos abandonados do Internet Explorer, em 19/06/2008, foi publicada a dúvida de um leitor em Comic Urban Legends Revealed, coluna bacana de Brian Conin, do Comic Book Resources.

Rezava a lenda: “Jerry Siegel inventou a identidade secreta do Superman baseada nos elementos diretamente acima do Criptônio [Krypton] na tabela periódica.”

“Oi??” – pergunta você, aí.

É.

Repare só. Os elementos Cloro (Cl, 17, família 17A), Argônio (Ar, 18, família 18A) e Potássio (K, 19, família 1A) estão imediatamente acima do elemento Criptônio (Kr, 36, família 18A), homônimo do planeta natal do Superman. Confuso? Pra quem ainda não pegou, juntando as siglas fica Cl-Ar-K.

Se comunicação só se faz mediante o terreno comum entre autor e leitor, não é difícil imaginar uma intenção oculta e espertucha de Jerry Siegel. Teria o autor, gênio da química enrustido, tirado o nome terrestre de Kal-El da tabela periódica, piada visível apenas para outros portentos do intelecto como ele só?

“Tenho… que unir… neurônios!!! Uuughh!!”

Talvez. Meu supersenso-comum, porém, diz que seria improvável uma molecada especialista em tabela periódica na época em que Superman foi publicado pela primeira vez, em 1938.

Para tirar a dúvida Brian Conin procurou Julius Schwartz, lendário editor da DC na década de 60, que explicou tudo. Siegel, na verdade, tirou o nome “Clark” de Clark Gable, ídolo do cinema na época, obviamente um nome com muito mais apelo popular do que Cloro, Argônio e Potássio.

Senhoras.

Já “Kent” veio de Kent Taylor, outro ator da década de 40, que, não por acaso, ou talvez sim, também era cunhado de Jerry Siegel.

Senhoras.

Mas, de volta ao começo, ponto é que a comunicação feita na forma de linguagem artística induz à participação do leitor, mesmo que ele não se dê conta disso. Não só, diferentes tempos históricos (portanto diferentes “presentes”) concedem distintos significados também.

Ao “consumir” uma história em quadrinhos ou assistir um filme, o espectador está povoando seu universo referencial, abastecendo-se de identidades e significados onde antes havia um vácuo de repertório. Antes ele não sabia nada, agora faz uma ideia.

Mais ainda, quando o autor é bom no que faz, além de matiz conceitual pra narrativa, induz uma ligação entre real e imaginário, objetivo e abstrato. Inesperadas ligações posteriores, conceitos impensados habitam as lacunas entre um e outro.

A sequência Cloro/Argônio/Potássio, talvez desconhecida de Siegel, é referência clara para um fã tanto de química quanto do último filho de Krypton. Nem pedante, nem austera, a sabedoria se faz em ver o óbvio usando vários nomes.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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