Um retrato de Alan Moore quando jovem

alan-mooreUma mensagem especial para você que acha que o futuro  é uma eterna segunda-feira.

Sobre os anos antes de fazer quadrinhos:

“Eu criei família, trabalhei… Foi trabalho para sustentar uma família. (risos) Minha ocupação depois que saí da escola foi numa série de trabalhos completamente miseráveis em que eu não estava nada interessado. Eram os únicos trabalhos que eu conseguia pegar, tendo saído da escola sem quaisquer grandes qualificações. Eu não tinha qualquer outra ambição além de uma vaga vontade de fazer do meu ganha pão aquilo que eu escrevesse ou desenhasse; ou então aquilo que eu gostasse de fazer. Uma vez que trabalhos assim não estavam disponíveis, eu não tinha uma ideia muito clara de como conseguir um, nem se eu era bom o suficiente para conseguir um. Eu perambulava na direção de qualquer trabalho disponível que pagasse o aluguel […]”

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“Eu tendo a lembrar disso como uma longa descida progressiva que termina como escritor de quadrinhos. [Depois de “escalpelador” de ovelhas e faxineiro de banheiro de hotel] as coisas ficaram um pouco mais confortáveis, mesmo que menos interessantes, uma vez que eu passei a trabalhar debaixo de um teto e comecei a trabalhar em escritórios como oficial de cobranças – trabalho muito, muito enfadonho do qual eu não tinha o menor interesse. Foi assim até meados dos anos 70… […]”

Sobre o começo de carreira como artista:

“Existe uma certa inércia quando você está começando uma carreira, uma certa falta de fibra em algum nível. Você não consegue enxergar na hora, mas existe um sentimento de que até você mandar o seu primeiro manuscrito e for rejeitado, você pode manter todas as suas ilusões sobre você mesmo e quão genial artista você acha que é. Portanto existe um certo terror em mandar um primeiro manuscrito. […]”

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Sobre o próximo projeto:

“[Projetos alternativos, fora do mainstream]. Isso é o que eu realmente quero. Eu também quero ganhar muito dinheiro assim e me aposentar rico e feliz – mas se fosse apenas isso, então eu certamente poderia me aposentar rico e feliz escrevendo um quadrinho sobre super-equipes de super-heróis adolescentes. O que eu quero fazer é algum material que seja extremo e radical em seu próprios termos e ver se ele vende e ver se ele tem algum efeito para mudar o mainstream dos quadrinhos. Esta é a intenção. […]”

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As palavras de Alan Moore, em entrevista cedida a Gary Groth (The Comics Journal n. 138 out/1990, pp.56-95), são um alento. Um reconforto bem-vindo para quem acha que o futuro é uma eterna 2ª feira.

Sem ressaltar a imagem que ele construiu de si mesmo (de guru taciturno e oráculo de feitiçarias pós-modernas) a entrevista para o The Comics Journal revela o autor de quadrinhos em um momento de pura humanidade.

Na ocasião ele estava às vésperas de lançar seu novo projeto, a série Big Numbers, em parceria com Bill Sienkiewicz. Big Numbers, que teve apenas 2 de seus 12 números previstos lançados, marcava a mudança de atitude de Alan Moore diante da indústria dos quadrinhos.  Após o sucesso estrondoso de Watchmen, ele estava assumindo uma “postura meio Greta Garbo”, como ele mesmo chamou, de distanciamento da indústria para “endireitar a cabeça”.

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O distanciamento tinha duas razões: por um lado, ele achava bizarro o frenesi dos fãs, que o assediavam de forma assustadora, como uma espécie de cobrança em troca pelo sucesso alcançado. Por outro era uma reação à DC Comics. Como exemplo da conduta ignóbil das grandes editoras, lembrou como a editora condicionou a exclusividade de autoria dos personagens de Watchmen à permanência dele e de Dave Gibbons na editora. Este antagonismo de Moore com as editoras ao longo dos anos se tornou célebre, mas em 1990 estava apenas começando.

Reler entrevistas mais antigas como esta de Alan Moore têm um aspecto historicamente valioso. Elas mostram que sob a superfície da celebridade houve um processo prosaico, um caminho bem mundano – e ao mesmo tempo excepcional – para a construção de um artista que influenciou toda uma indústria.

Fazendo uma alusão ao primeiro romance de James Joyce, trata-se de um “retrato do artista quando jovem”, cujo vocabulário de ideias e conceitos, que já vimos de forma sumamente mais elaborada em outros trabalhos como From Hell ou Promethea, ali se insinuavam de forma mais simples, direta e despretensiosa.

Destacados na entrevista, o ambiente familiar de Alan Moore não era particularmente favorável a rompantes intelectuais. A escola, tanto menos, fomentou algo nada maior do que um fiscal de contas. Um casamento logo cedo e uma filha para nascer testaram as convicções criativas e o orgulho artístico de alguém que não se sentia suficientemente preparado para um ofício que ele nem mesmo sabia se existia, mas que, ao lado de outros nomes de autores britânicos, ele mesmo ajudou a pavimentar e fortalecer.

Com uma

Com uma “ajudinha”

Ufa, Alan Moore se fudia tanto quanto eu!”, convenhamos, você, assim como eu, também pensou. No entanto, a despeito da tonalidade reconfortante, vale sempre lembrar a nossa incapacidade estatística de avaliar fatos e probabilidade. Em outras palavras, traço evolutivo até saudável, somos bem tapados para entender que raios não caem várias vezes no mesmo lugar. Ou então, que nós nunca vamos ganhar na loteria.

As visões otimistas de sucesso são uma projeção de causa/consequência ligada ao fracasso anterior. Se fracassamos como artistas/escritores um certo número “X” de vezes, nosso cérebro nem tão evoluído assim vai pensar: “então a próxima vez vai dar certo”. Doce ilusão. Ao nos assustarmos com um raio, nos arrancamos pra longe da tempestade. Ao nos animarmos com uma premiação da loteria, todos jogamos na próxima acumulada.

Infalível

Infalível

Alan Moore, antes de revolucionar as histórias em quadrinhos – e, estimamos, ficar razoavelmente rico –  limpava banheiros e batia ponto na firma todos os dias. Mas entre as duas coisas, ele teve que lidar com uma questão crucial: e se eu não for nada além de um medíocre? E se eu não for bom o necessário para “a indústria”? E se eu for menos do que aquilo que acho que sou?

Eu também não sei responder. Mas em algum lugar no mundo tem alguém que vive muito bem vendendo pára-raios e bilhetes de loteria.

Outros estão com um romance/tese/roteiro guardado na gaveta esperando ver a luz do dia.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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