Para qualquer fã do Superman com mais de 30 anos

Recentemente Paulo Ramos escreveu uma carta aberta ao Superman, que você pode ler aqui.

Mesmo não sendo endereçada a mim a curiosidade falou mais alto e eu li, pois a carta era, também, pública. Nela o autor explicava para o Super os motivos pelos quais deixaria de acompanhar suas histórias.

O porquê de seu autor tornar público um problema pessoal com o Super eu não sei. Mas uma vez que tornou, gostaria de fazer alguns comentários sobre a carta, mote para falar da relação entre os fãs e seus personagens favoritos.

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A palavra fã deriva da palavra fanático. Portanto a relação do fã com seu objeto de fanatismo, no caso o Superman, sempre é passional. Mas o autor da carta queria justificar o abandono de seu personagem favorito de maneira racional e o fez do único modo possível: de maneira nostálgica e ressentida.

Na carta, o autor diz se lembrar de boas histórias e que agora as aventuras do Super são más, como se isso não fosse algo subjetivo. Histórias não são boas ou ruins em sua essência, mas adquirem essas qualidades somente em relação a seus leitores. Posso não gostar da Saga Crepúsculo, posso dizer que elas são ruins (e de fato são), mas o são para mim!

Paulo Ramos prossegue, dizendo que a DC retirou a essência do personagem, que o que vemos hoje não é a atualização do mito, mas a sua destruição. E qual a causa disso? A causa é o que o autor chamou de “kryptonita midiática”. De acordo com ele, o cinema está sobrepujando e ditando os rumos das hq’s, o que estaria provocando a queda da qualidade das histórias.

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O que Paulo Ramos fez foi o que muitos fãs antigos fazem, criar um passado nostálgico em que tudo na minha época era melhor. A maioria dos leitores começou a acompanhar seu personagem favorito no final da infância e início da pré-adolescência, arriscaria a dizer algo entre 8 e 12 anos. É óbvio que tudo naquela época era melhor, porque era novo! As histórias em quadrinhos são um mercado lucrativo, a DC Comics é uma empresa! Havia tanta influência do mercado há 20, 30 ou mesmo 60 anos como há agora. O que aconteceu então?

Simples. Nós crescemos. Conseguimos enxergar a influência do mercado, da pressão editorial alterando a qualidade das histórias. Isso não as torna essencialmente más histórias – o que, como falei, não existe. As histórias estão tão boas – ou tão ruins dependendo de quem lê – quanto sempre foram. O que houve? Simples. Elementar meu caro amigo, de fã para fã: você envelheceu.

Criamos um passado mítico no qual as histórias que lemos na nossa época eram melhores. Quando abrimos as páginas dos quadrinhos de hoje não reconhecemos mais o Superman de nossa época, porque ele mudou. Ele tem que mudar para ser relevante para as novas gerações. Negar isso é querer negar a historicidade do personagem, condená-lo ao museu, como já comentei aqui. Muitos personagens de sucesso foram esquecidos. E por quê? Porque não mudaram, não acompanharam as novas gerações. Em suma, envelheceram.

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Nós, mortais, devemos envelhecer, não podemos escapar disso. E envelhecer é, também, criar esse passado mítico e nostálgico. Mas nem por isso devemos olhar o que é novo com ressentimento ou ranço, isso é opcional. O Superman não pode se dar ao luxo de envelhecer, e para isso deve mudar para ser significativo para as novas gerações.

Se estiver lendo isso, Super… só te digo uma coisa: suas histórias estão tão boas quanto sempre foram! Há muitos jovens que sonham em ser você, assim como um dia eu sonhei – e ainda sonho. Para o alto e avante!

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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25 respostas para Para qualquer fã do Superman com mais de 30 anos

  1. Alphs disse:

    Muito bem colocado, Nerdbully. Concordo plenamente com o ponto defendido aqui, e penso que muitas vezes o ranço criado pelo saudosismo cria um verdadeiro efeito bola-de-neve de negativismo e ceticismo nos espaços de discussão sobre quadrinhos (ou filmes ou música ou qualquer arte que seja) na Internet. Quantas vezes procuro entrar numa conversa sobre algo que li que me agradou muito, com o qual eu realmente me diverti, e me deparo com os mesmos comentários já gastos e repetidos à exaustão ligados ao mau saudosismo.

    Cultivar o bom saudosismo, apreciar o que é novo com mente aberta e, caso não agrade nem assim, fazer como fez o autor da carta aberta e PARTIR PARA OUTRA!! Se os fãs em geral assim procedessem, tenho certeza que os fóruns e espaços de discussão seriam muito mais agradáveis e serviriam finalmente ao propósito de entreter!

    • Nerdbully disse:

      Pois é, tem gente que tem um prazer mórbido em ler coisas que não gostam só para poder falar mal. Nesse ponto o Paulo Ramos foi mais honesto: disse “tchau” pro Super.

  2. Paulo Ramos disse:

    Li este post com base no texto que escrevi. Legal saber que a carta esteja repercutindo e gerando este debate tão interessante nesta e e outras páginas relacionadas a quadrinhos. Acompanhei atentamente suas pontuações e queria fazer apenas um pequeno adendo de um ponto que achei estar claro na carta, mas, vejo agora, não estava. Não sou contra reformulações. Passei por várias delas, da pré-adolescência até pouquíssimos anos atrás. Algumas me agradaram, outras não, faz parte do jogo. Meu ponto específico sobre esta última mudança foi que ela descaracterizou a essência do personagem e, principal, não rendeu boas histórias. Poderia ser apenas uma análise subjetiva minha, mas ela se ancora em argumentos que exponho na carta aberta e que foram corroborados pela esmagadora maioria dos leitores que se manifestaram no blog e no Facebook. Não tenho nada contra histórias de super-heróis, nem das naturais mudanças feitas a eles de tempos em tempos. Desde, claro, que gerem boas histórias. Entendo não ser o caso do exemplo que expus na carta. Abraços, Paulo.

    • Nerdbully disse:

      Obrigado pelo comentário, Paulo. Entendo seu raciocínio básico: o mercado cinematográfico está acabando com a essência do personagem. Mas meu ponto é: sempre houve mercado. O Superman “proletário” do começo não é o Superman “patriota” dos anos 40 nem o “yuppie” dos anos 80. Um leitor que cresceu com o primeiro também poderia reclamar que o segundo ou o terceiro destruíram a essência do personagem, assim como você reclama e esse é meu raciocínio básico: sempre houve mercado interferindo nas histórias e, se as histórias estão ruins, isso só pode ser subjetivo. Abraços.

  3. Alexandro disse:

    Leio Superman desde 1994, mas parei entre 2003 e 2010. Voltei e concordo que as histórias estão ruins. Talvez sejam boas para quem tem 14 anos. Para mim que tenho 30 não dá mais. Estou lendo Homem Aranha e X-Men (que nunca li) e tentando novos ares.

  4. Felipe Maretta disse:

    Desculpe Nerdbulli mas eu não concordo com você…tanto que pra mim os arcos feitos nos anos 80 realmente me parecem mais bem trabalhados do que esses amadores dos anos 90 e 2000. desculpe é uma opinião minha…o cara que fez a carta tem razão em vários pontos, e acho q vc desconsiderou isso…eu gostaria muito que os heróis ocidentais fossem como as séries orientais onde vc acompanha uma história e sabe que ela terá inicio meio e fim…diferente dos cem anos de cronologia dos personagens de comics…essa sempre foi minha bronca com esses putos…depois que conheci os mangás me senti mais respeitado do que essas campanhas pra me fazer comprar mais gibis do que o necessário…O Superman pode sim se dar o luxo de ficar arquivado pq pode ter muitas histórias boas arcos fechados e não se dar ao ridículo de uns cem numero de encarnações pra satisfazer o público oscilante…isso tira dos autores a chance de criarem novos personagens e franquias que poderiam revisitar certos conceitos explorados porcamente nessas séries de heróis famosos

    • Nerdbully disse:

      E a chance dos autores darem uma nova abordagem a um personagem antigo?

      • Felipe Maretta disse:

        Não sei se vc conhece mas vc acha q alguém estaria gabaritado pra reescrever yuyuhakusho…ou faria de Saint Seiya melhor do que seus autores originais?…não acho ruim as adaptações mas que não fossem canones saca, que cada arco não interferisse tanto na obra original…quem quisesse revisitar o super por exemplo, ia lá nos originais republicados como fazem com os essencials isso daria mais margem para novas idéias em novos personagens!

  5. Nuno Amado disse:

    Concordo perfeitamente com o teu texto. O saudosismo é o resultado da mudança inexorável e inapelável do nosso envelhecimento. Eu seguia os Avengers, e muitos outros títulos da Marvel, e de repente acabei com tudo porque deixei de gostar da “massa com arroz” em que aquela editora ficou quando se formou o “Bendisverso”. Virei-me para a DC. Para compreender melhor o DCU e as suas raízes comecei a comprar os livros que foram importantes para este universo desde “Crisis on Infinite Earths”. Comprei de tudo para poder usufruir nos anos 2000 das séries que me interessavam.
    Posso dizer que me danei porque descobri que o potencial da DC era muito superior à Marvel, a Marvel apenas tem heróis mais apelativos, essa é sua força.
    Assisti a inúmeras mudanças enquanto lia todos estes livros, umas melhores, outras absurdas! Adorei as mudanças que fizeram nos New 52 nalguns títulos, noutros nem por isso… mas reforço a positiva. Aquaman, Wonder Woman, Animal Man, Swamp Thing, Batwoman foram para mim excelentes mudanças. Continuei a seguir os títulos que eram os meus preferidos anteriormente ao reboot (Green Lantern e Batman) com boas histórias, nunca fui muito fã do Superman, mas gostei das mudanças que fizeram com ele. Alguns arcos não eram grande coisa, mas convenhamos… super-heróis são uma gigantesca e interminável telenovela, e como em qualquer telenovela existem altos e baixos no seu desenrolar. Depois é tudo uma questão de gosto e de identificação com as personagens.
    Eu tenho 49 anos e comecei a ler quadrinhos aos 6 anos. E não me limito aos comics (antes pelo contrário), compro quadrinhos europeus e Manga!

    Abraço

    • Nerdbully disse:

      Fico muito contente que um leitor de longa data também pense da mesma forma. Afinal, 43 anos lendo quadrinhos é algo no mínimo respeitável. Acompanhe sempre nosso blog. Abraços.

  6. Alex D'ates disse:

    É algo complicado no mundo contemporâneo exercer a crítica embasada ou o gosto puro e simples. As vezes todos querem simplesmente relativizar tudo ao ponto de simplesmente dizer “eu não gosto!” ser algo ignorável ou condenável.

    Esquecendo estas problemáticas e, mesmo não frequentando o Hall dedicado aos maiores fãs do Azulão, afirmo: Não existe mais Superman. A franquia cinematográfica e a ampla maioria das hqs pós N52 dizem respeito a um outro personagem. O fato do nome dele ser Clark Kent, ter vindo de Kripton e usar um uniforme azul é mero Marketing, pra tentar abraçar um público que já existe.

    No final das contas, acho que toda essa reformulação da DC simplesmente torna sintomático e notório a incapacidade deles, enquanto linha editorial, em trabalhar e desenvolver os personagens mais sólidos e reconhecíveis do Mundo.

    Jim Lee apenas está fazendo a mesma fórmula que vem executando desde os anos 90: com a Image (criar novos personagens com apelo visual e… só), Heroes Reborn (ele ainda pegou leve na Marvel) e agora com os N52 (onde tenta criar novos personagens com nomes antigos).

    • Nerdbully disse:

      O Superman já passou por diversas reformulações. Um leitor do anos 40 dificilmente reconheceria o Superman dos anos 80 e também reclamaria da destruição da essência de seu personagem favorito. Assim como os leitores dos anos 80 estão reclamando agora. Reformulações de personagens para ganhar público são inerentes ao mercado editorial de quadrinhos.

      • Lucas disse:

        Mas se começarem a fazer com Watchmen? Será que a obra perderia o seu valor de crítica à “prostituição dos super-herois”? (desculpe-me pela metáfora, mas é como vejo os personagens da DC e Marvel nesse mercado editorial. E é claro que Whatchmen não critica só isso…).

  7. Pingback: Há como fazer alguém amar quadrinhos? | Quadrinheiros

  8. Sandrix disse:

    Li tanto a carta do Paulo, como o texto acima e os dois me fizeram concordar e discordar em certos pontos.
    Mas antes um pequeno (grande) parenteses para dizer como comecei com HQs:
    Me lembro quando comecei a deixar de ler na infância (por volta de 1984) os quadrinhos da Turma da Mônica e Disney para começar a ler as HQs do Fantasma, aquilo era um mundo novo para mim e me apaixonei por aquilo e não conseguia parar de ler. Queria sempre mais. As histórias eram fantásticas. Pois bem, veio em seguida as revistas da Marvel, eu detestava o quarteto fantástico, mas lia porque vinha junto com outras histórias.
    Ai me apeguei aos azares na vida do Peter Park, depois a melancolia do Batman e claro na altivez do Homem de Aço e muitas outras.

    Agora minha opinião sobre quadrinhos:
    Na década de 90 dei um tempo com os quadrinhos porque, na minha opinião, tinham ficado com histórias extremamente ruins. Depois voltei a ler novamente e descobri que perdi muita coisa legal.
    Oras, quadrinhos são assim, as vezes você está numa fase que não tá afim de ler esse tipo de história, mas depois percebe que aquilo é só diversão.
    Hoje leio compulsivamente e procuro comprar os encadernados das fases que perdi. Por que? Porque eu descobri que os quadrinhos me fazem esquecer de tudo que está em volta. Independente da história que estão contando. Não precisa ser uma história profunda, basta que me desligue do mundo real e me faça viajar para outra dimensão.
    Veja que tanto as histórias do Alan Moore sobre o super homem como as do Sérgio Aragones vão de um extremo ao outro e me fazem “viajar” do mesmo jeito.
    E os desenhos, ahhh, que coisa linda, estão cada vez melhores. Adora o John Buscema, o Garcia Lopez, mas agora temos o Ivan Reis, o Jim Lee ( que melhorou demais), o Brian Hitch, o Deodato (esse melhorou mesmo…rs)

    Resumindo, o Paulo tem razão em escrever a carta para o super, porque ele não está mais numa fase que curta as histórias e o Nerdbully ta certo quando diz que as mudanças precisam acontecer e que as histórias não ficaram ruins por causa disso.
    Tudo é a maneira de olhar e interpretar o momento.
    E olha que legal, eu adora assistir o Ultra Seven, e até um tempo atrás achava que aquilo era a melhor coisa que os Japoneses tinham feito. Então assisti Akira (PQP, agora sim os Japoneses se superaram), então comprei um DVD do Ultra novamente e assisti. Alguém ai acha que me decepcionei??? Claro que sim, que troço horroroso…rsrsrs
    E se eu pegar uma revista do Fantasma novamente? o que aconteceria? Não me arrisco, pois talvez isso desconstrua meus pilares de infância.

  9. Pingback: Pensando quadrinhos: cinema e hq’s | Quadrinheiros

  10. Longe de poder julgar quais foram as melhores HQ’s do Super e apenas para gerar dados a esse tema falo um pouco da minha relação com o personagem !
    Sempre achei o Super o herói mais “bobão” dos quadrinhos por 2 motivos:
    – se ele é o homem mais poderoso do planeta devido a intervenções extraterrestres fica praticamente impossível que existam vilões que possam causar grandes conflitos e mesmo assim foram feitos diversos, e todos parecem exagerar no bom senso criativo.
    – ele é infalível e seu povo de origem tem o melhor modelo de civilização e cultura certo ? Diante disso qualquer justificativa para planeta Kripton ter sido destruído parecem ser irreais ! E pq raios ele teria dificuldade em implantar esse modelo no planeta terra ? Enfim, tudo parece irreal…

    Ou seja, só gostei mesmo das histórias aonde uma fraqueza fica exposta como uma ferida, essa última que ele diagnostica um câncer fulminante ( talvez a melhor de todas ) , aquela que a nave no Super vai na antiga união soviética ( minha preferida ) ou no HQ do Batman Cavaleiro das trevas , aonde o Super é exposto de uma forma inédita.

    Minha conclusão diante disso é que o personagem do Super só pode ser chamado de arte quando inserido nos padrões humanos e/ou sociais , enquanto ele for apenas o homem mais poderoso do mundo suas histórias não vão passar de coisa pra criança ou um mero passa-tempo.

    Valeu e abs

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  13. não sou um fã de mais de 30 anos, acompanho algumas hqs ditas “modernas” como Batgirl e Spider-Gwen e posso dizer que a maioria das atuais historias do Superman sao bem ruins sim. Inegavel a questao de que os herois precisam sim se modernizar, assim como o Batman e a Mulher-Maravilha fizeram no novos 52 ( com sucesso) mas esse novo Superman e uma sombra de tudo que o antigo Clark ja foi um dia.

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