Plágio, colagem, citação, homenagem, caos e ordem

Pra quem gosta de Cultura Pop (seja lá o que isso signifique…), perceber o uso de alguma referência, seja num filme que cite outro filme, ou numa música que use um sampler de outra música, é sempre prazeroso, ainda mais quando a referência não é tão óbvia assim e é preciso ter um pouco mais de informação e raciocínio associativo para percebê-la.

Nos quadrinhos mainstream o uso de referências existe em vários níveis. Desde o uso de contextos geopolíticos iguais ou similares aos do mundo real nos roteiros, que dão aquela sensação de acuidade histórica ou realismo, até o uso de fotografias como base para desenhos e enquadramentos. Nesse nível temos artistas como Alex Ross que faz uso de fotografias para criar suas obras de arte, e o extremo oposto como Rob Liefield que faz uso do seu pouco talento para fazer o inverso disso e estragar até a anatomia básica (ops!)…

Ross

Alex Ross avança num outro nível de referência quando coloca o rosto de editores e escritores (e até de seu próprio pai) nos personagens secundários de seus painéis  ou quando busca inspiração em detalhes de desenhos da Era de Ouro do quadrinhos, memorabília e desenhos animados. Outros artistas que merecem a citação são Eddie Campbell que em Do Inferno (de Alan Moore) recriou o desenho urbano labiríntico da Londres do início do século XX, a Will Eisner e sua Nova York, e Eloar Guazzelli  (ilustrador brasileiro) que tem trabalhos incríveis como São Paulo em Guerra 1924 (arquitetura urbana da cidade tomada pelos militares).

Eddie Campbell, Will Eisner e Eloar Guazzelli

Eddie Campbell, Will Eisner e Eloar Guazzelli

Mas até aí, usar fotos como base para desenhos ou até mesmo emular o estilo de determinado artista é só técnica, inspiração ou homenagem. Quando as mesmas práticas são feitas no roteiro a coisa pode ficar feia. Plágio, cópia e violação de propriedade intelectual, é assim que se adjetiva o uso de material de outro autor, mesmo que o resultado seja melhor que o original.

O norte americano Kirby Ferguson fez uma série de 4 videos sobre esse tema chamado Everything is a Remix (no final do post tem os links para os vídeos legendados). A tese que ele defende é a de que a inovação acontece quando se desenvolve a criatividade através da cópia, da transformação e da mistura de elementos já existentes (e portanto previamente criados por outras pessoas). O último dos 4 vídeos mostra claramente a insanidade que é a legislação que defende a propriedade intelectual e as consequências negativas disso.

Voltando aos quadrinhos, exemplos não faltam. Desde a disputa de direitos autorais entre a DC Comics e os criadores do Superman, Joe Shuster e Jerry Siegel, até a mais recente inclusão da personagem Angela no universo Marvel após ela ter sido passada para as mãos de seu criador Neil Gaiman (deixando um buraco no universo do Spawn de Todd MacFarlane). As disputas e os ressentimentos dentro das grandes editoras é muito grande, mas também há casos interessantes.

Angela

Alan Moore (sempre ele) não pôde ver sua Liga Extraordinária publicada em alguns países porque ele usa personagens, cenários e contextos da literatura inglesa como base para seus roteiros, e as leis de direitos autorais não são iguais em todos os lugares. Uma pena para os fans que tiveram que esperar mais tempo pelas histórias (até algumas obras caírem em domínio público), porque Moore leva essa coisa de referência a níveis quase inimagináveis.

League

Alguns sites como o enjolrasworld.com (que é colaborativo) se dedicam a escavar as referências mais obscuras de cada frase e cada detalhe gráfico das obras de Moore (e de outros autores). A quantidade de informação é surreal, mas a leitura de qualquer edição de Promethea ou Watchmen aprofundada pelas informações do site amplia exponencialmente a visão do leitor e abrem caminho para novas leituras. Ideias não podem ser limitadas como propriedade e ao criarmos leis que defendam barreiras para uso e a circulação de ideias perdemos um oceano de possibilidades.

Pra mais material interessante sobre influências, homenagens, cópias e colagens no cinema, dêem uma olhada nesses dois videos produzidos pelo mesmo Kirby Ferguson como material adicional da série que está ai acima:

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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16 respostas para Plágio, colagem, citação, homenagem, caos e ordem

  1. Eu acho tremendamente interessante! Quando um autor, por exemplo no cinema, como o Tarantino, faz o KILL BILL e veste a personagem principal com a roupa de Bruce Lee, afora as referencias marciais é de uma sacada muito legal…. Ainda com o Bruce Lee, tem o lance de todos os bandidos daquela casa de shows se vestirem como o Kato e por relação utilizar o hit do Besouro Verde. Eu acho que este formato traz várias leituras para quem assiste…É como sentir um cheiro de um bolo, de uma tinta e voltar no passado… Este formato passa ao espectador, dependendo de seu universo de informações, despertar várias lembranças… Para mim é uma sacada que vai além de se pensar simplesmente que tudo é plágio… Creio que este tipo de avaliação tolhe o ilimitável… Não vejo como plágio.

  2. Koppe disse:

    Recomendo a leitura da obra “Cultura Livre”, de Lawrence Lessig, que fala sobre esse problema das leis de direitos autorais serem restritivas demais. Um trecho:

    Disney (ou sua empresa) extraiu algo da cultura ao seu redor, combinou com seu talento extraordinário e depois gravou o resultado na alma da sua cultura. Extraia, recombine,
    grave. Esse é um tipo de criatividade. Criatividade que devemos lembrar e celebrar. (…) Poderíamos chamá-la de “criatividade Disney”, mas isso poderia gerar mal-entendidos. É, mais precisamente, “criatividade Walt Disney” – uma forma de expressão e gênio que cria a partir da cultura à nossa volta e faz dela algo diferente.
    Disney adicionou ao trabalho de outros antes deles, criando algo novo de algo que nem era velho ainda. (…)pegou essas histórias e criou versões que as puseram em uma nova era. Ele deu vida às histórias.
    A chave para o sucesso era o brilhantismo das diferenças.

    Não tem como esse problema não afetar também os quadrinhos, porque agora fica cada vez mais fácil a informação circular e as pessoas se darem conta e saírem espalhando que determinada idéia parece copiada, e também porque os quadrinhos são uma arte que sempre trabalhou com um nível alto de reciclagem e reinvenção de idéias, então muitos autores tendem a achar normal fazer algo parecido com o que já foi feito em outras HQs. Mas se o artista for bom, vai ser como no caso Disney no trecho citado, o resultado final vai ter diferenças que fazem a obra de qualidade, e as idéias ‘copiadas’ devem servir apenas como base, o material pro artista usar.

    http://www.4shared.com/office/1yPBG7HH/Cultura_Livre_-_Lawrence_Lessi.htm

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  11. saulo disse:

    Puta merda, eu fiquei louco quando vi o video do Kill Bill! Se antes era fã, agora eu nem sei o que sou mais! O cara referenciou tudo que eu gosto no filme: Western Spaghetti, Filmes de artes marciais, filmes de samurais, thrillers dos anos 60 e 70… Porra, eu fiquei apaixonado por este filme!

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