A Ascensão Skywalker: um quinhão de incertezas

O segredo do sucesso da Disney.

 

 

 

 

 

O ano de 2019 se encerra com o triunfo da Disney na última década. A cereja do bolo é o episódio IX de Star Wars, a Ascensão Skywalker.

A essa altura, tolice pensar que o filme, que estreia esta semana, vai agradar todos os fãs. Afinal, após 42 anos, 11 filmes, dezenas de episódios de séries e outros derivados de mídia, não há senso comum que concilie as expectativas desta fauna tão diversificada nascida pela adoração à Star Wars.

MAS, se existe um fator comum é a fé de que J.J. Abrams foi a escolha certa para atender aos anseios de todos. E por que? Uma resposta pode ser esta: como diretor, JJ Abrams não dá respostas; ele só oferece mais perguntas. É a essência da ideia da caixa de mistério.

O Episódio VII – O Despertar da Força (dir. JJ Abrams, 2015) não garante mais do que um esboço geral da história que sucede o Episódio VI – O Retorno de Jedi (dir. Richard Marquand, 1983). O filme não revela exatamente a situação da Nova República, de onde veio a Primeira Ordem, quem é esse tal de Snoke, e muito menos o que aconteceu com Luke Skywalker. Coube aos fãs inferir as respostas e preencher as lacunas até que o próximo capítulo dissesse o contrário. Assim, o episódio VII foi uma promessa, um juramento, uma dívida acordada entre o diretor e o público.

Coube ao Episódio VIII – Os Últimos Jedi (dir. Rian Johnson, 2017) pagar essa conta, na verdade feita em 1983 e prorrogada por mais dois anos desde 2015. E rachou o mundo nerd com tantos juros.

O filme de Rian Johnson não se furtou de nenhuma resposta às questões levantadas por Abrams. A Primeira Ordem está prestes a suceder o Império, Snoke é irrelevante e Luke Skywalker recusou o manto de “salvador da galáxia”, um mito que ele descobriu ser impossível alcançar.

A rigor, os arcos individuais dos personagens apresentados no filme de Abrams foram encerrados em Os Últimos Jedi. Usando três dos personagens principais da nova trilogia como vértices da reflexão, pense bem:

No caso de Rey:

(Ep. VII) A personagem quer que alguém diga quem ela é e qual é o lugar dela no mundo.

(Ep. VII) A personagem precisa ir em frente, sair de Jakku, e definir ou descobrir respostas sozinha, algo que ela reluta em fazer.

(Ep. VIII) A personagem conquista serenidade para não ser arrastada pelas próprias dúvidas.

No caso de Kylo Ren

(Ep. VII) O personagem quer ser forte, tanto quanto o avô, Darth Vader

(Ep. VII) O personagem precisa rejeitar seu legado, no caso, matando o próprio pai, Han Solo, algo que ele reluta em fazer.

(Ep. VIII) O personagem conquista o lugar de Líder Supremo da Primeira Ordem após assassinar Snoke.

No caso de Finn

(Ep. VII) O personagem quer fugir, escapar da Primeira Ordem e “fazer a coisa certa”.

(Ep. VII) O personagem precisa enfrentar o que tem mais medo, a Primeira Ordem, algo que ele reluta em fazer.

(Ep. VIII) O personagem conquista o próprio medo, enfrenta a Capitã Phasma e se reconhece como rebelde.

O filme é quase um metatexto sobre o universo dos fãs e sobre a franquia Star Wars. Acreditar que alguém é capaz de atender a todos os desejos do universo só pode ser um erro, aprendeu Luke.

Após uma bela sacolejada do Mestre Yoda

E ainda assim, Rian Johnson deu um dos passos mais arrojados dentro da narrativa criada por George Lucas. Fez a história avançar em direções inesperadas e tão crípticas quanto a vida real.

E agora, o que deve acontecer em Episódio IX? É incerto. E talvez isso seja exatamente o que Abrams foi contratado pela Disney para garantir: mais incertezas, mais lacunas, mais pontas soltas e promessas. Trata-se, afinal, do segredo do sucesso da Marvel no cinema, aquele outro trunfo que levou a Disney ao monopólio do entretenimento nerd.

Se existe algo de certo é que a saga de Star Wars está longe de terminar. E isso é absolutamente intencional.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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