Superman: o monstro de Jerry Siegel e Joe Shuster

A História de Joe Shuster 1O quadrinho da Editora Aleph que conta A História de Joe Shuster (de Julian Voloj e Thomas Campi) nos transporta para o momento do nascimento da indústria dos comics e toda sua posterior decadência e glória.

É uma história sobre valores. Os valores do personagem criado por dois amigos judeus que sonhavam com a fama. Os valores de uma indústria nascente que criou riqueza para alguns poucos explorando o trabalho e roubando as ideias de muitos. Os valores de um país que saia de uma das maiores crises econômicas da história. Mas essencialmente é a história de um monstro, um Golem, criado do barro para salvar os judeus (ou pelo menos salvar os jovens Jerry e Joe), e que, depois de ganhar vida, ficou sem controle.

Na versão mais famosa da lenda judaica do Golem, o rabino Loew Ben Betzalel  (no século XIII) cria um ser de barro (assim como Deus criou Adão, que seria então o primeiro Golem), e escreve na sua testa a palavra EMET (verdade em hebraico), que o faz ganhar vida. O contexto de perseguição e acusações falsas aos judeus é o que motiva o rabino a fabricar um campeão que pudesse defendê-los. Depois de cumprir sua missão, o gigante ajuda os judeus em suas atividades domésticas, mas vai ficando cada vez mais instável até que, num rompante de fúria, começa a matar e destruir tudo. Por fim o rabino consegue apagar a palavra da testa do monstro e tudo volta ao normal.

No quadrinho, o ilustrador italiano Thomas Campi nos mostras a sequência que conta a noite de insônia que lapidou o personagem (que já tinha o nome Superman). Jerry Siegel reescreve sua origem, ambientando as aventuras no tempo presente (o que era diferente das histórias de ficção científica em geral), definindo uma identidade secreta sem que fosse preciso usar uma máscara. É a única página da história que tem nove quadros (todas as outras páginas tem seis quadros ou variações dessa divisão). A página com muitos quadrinhos é um recurso para dar ritmo para histórias de ação frenética com muitas cenas em espaços confinados (interior de prédios, corredores, ruas estreitas), que Joe Shuster usava bastante nas histórias do Superman. Joe coloca o “S” no peito do homem feito de lápis e papel e ele ganha vida.

shuster campi

Depois disso vemos a luta dos dois amigos para controlar sua criação. O sucesso de público, com tiras publicadas em vários jornais e revista mensal,  sobrecarrega o roteirista que também escrevia as histórias de personagens como Slam Bradeley, Federal, Spy, Radio Squad e o Espectro, e agrava os problemas de visão do desenhista. O contrato assinado por ambos tirava deles o controle formal sobre sua criação e a carga excessiva de trabalho foi tirando o controle efetivo.

O contexto do pós Segunda Guerra, a perseguição aos comunistas (e aos judeus) pelos políticos norte americanos, a cruzada do psiquiatra Frederic Wertham contra os quadrinhos, vão alimentando a avalanche que leva Joe e Jerry cada vez mais para baixo. Aos quase 60 anos de idade, Joe Shuster entra no escritório da National Comics (ele era um mero entregador naquele momento!), é reconhecido e levado para falar com seu antigo chefe Jack Liebowitz. Por pena e constrangimento Liebowitz dá 100 dólares a Shuster e pede para ele nunca mais aparecer lá (o curta This is Joe reconstituiu essa triste cena).

Só a insistência obstinada de Siegel e o apelo aos fãs, evocando os valores que o personagem representa, foram capazes de impedir um final amargo. O apelo de Jerry Siegel à Verdade e à Justiça deram uma alma para o Golem que, diferente da lenda judaica, deixou de ser uma ideia e se transformou em um ser de carne o osso (o filme icônico do Superman com o Christopher Reeve é um símbolo muito forte dessa transformação final do Golem em Homem). O reconhecimento, os créditos e a compensação financeira coroaram a longa caminhada. Uma história emocionante, revoltante, redentora, que dá ao criadores do Superman a mesma aura mítica de sua criação.

A História de Joe Shuster

 

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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Uma resposta para Superman: o monstro de Jerry Siegel e Joe Shuster

  1. Mario Latino disse:

    Tive esse quadrinho em mãos em Buenos Aires… acabei não comprando porque já tinha gasto tudo em quadrinhos argentinos!

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