Superman e Batman, a luz e a sombra

Superman BatmanDia e noite, luz e sombra, Sol e Lua, masculino e feminino, não existe um sem o outro…

Desde os primeiros grupos nômades, antes ainda do homo sapiens, aqueles seres olhavam para o céu e criavam histórias para explicar o significado da mudança de  posição das estrelas, do recorrente nascer do Sol, das diferentes fases da Lua, da passagem de um eventual cometa ou de uma chuva de meteoros.

CeuEssas histórias tentavam explicar a criação do céu e da terra, davam sentido para catástrofes naturais, como enchentes, incêndios e terremotos. São a base de todas as religiões, de toda a moral, das culturas, moldaram nossa linguagem, nossa capacidade de refletir sobre nossa própria existência. É sobre essa atribuição de significados que desenvolvemos a astrologia e a astronomia, a magia e a ciência, a arte, a filosofia, e tudo que é humano.

Para Jung essas narrativas foram se consolidando em arquétipos – modelos que sintetizam características psicológicas e comportamentais que funcionam como lentes para olharmos para o mundo. E a maior parte dessas lentes que todos nós usamos são inconscientes.

Joseph Campbell, autor do livro O Herói de Mil Faces, estudou diferentes culturas e comparou suas narrativas. Sua conclusão é a Jornada do Herói, um desenho esquemático da trajetória pela qual passa o protagonista de qualquer narrativa, dos tempos do nomadismo até hoje. E ainda que existam críticas possíveis ao reducionismo da Jornada do Herói, em parte fruto de uma leitura rasa sobre as pesquisas de Campbell, aquilo que é a base desse modelo esquemático é bastante esclarecedor.

Jornada astral

A Jornada do Herói esquemática e um mapa astrológico.

A divisão entre Dia e Noite, por exemplo é especialmente importante. Na Jornada do Herói (assim como num mapa astrológico) a linha horizontal que divide o círculo ao meio separa a luz (parte de cima) e a sombra (parte de baixo). A Jornada começa na zona de conforto, no Sol a pino do mundo comum (o meio do céu na astrologia), e quando o protagonista cruza a  linha horizontal ele entra num mundo desconhecido.

O ponto mais escuro é onde ele conhece/encontra o seu maior inimigo (fundo do céu). Depois do confronto com seu maior medo, o herói sai da escuridão, cruzando novamente a linha horizontal onde o Sol nasce (lugar que determina o signo ascendente na astrologia). E por fim, volta pra casa transformado completando a jornada.

Assim como qualquer outro produto da nossa cultura, os super-heróis são reflexos desses arquétipos. É evidente para os leitores contemporâneos, por exemplo, que o Batman é um ser da noite e o Superman tem sua existência marcada pela luz do Sol. Mas essa associação entre esses personagens e os arquétipos vai muito mais fundo. A história de como eles foram criados e mesmo a vida de seus criadores é marcada pelos símbolos que eles personificam.

Deuses

Representações de Apólo e Moises envoltos em um manto vermelho são recorrentes!

O Superman nasceu em 1938 das mãos de dois adolescentes judeus filhos de imigrantes (Jerry Siegel e Joe Shuster). O personagem veio de outro planeta quando era ainda um bebê. Seus pais se sacrificaram para salvar a sua vida mandando ele para uma terra estrangeira onde ele foi acolhido amorosamente. Suas características peculiares foram respeitadas por seus pais adotivos e por causa desse ambiente positivo ele abraçou os valores de seu novo lar (de seus pais e também de sua pátria).

Aqui temos um paralelo com a história de Moisés, o libertador do povo judeu, que ainda bebê foi adotado pela esposa do Faraó. Também é possível fazer um paralelo com Apolo, filho de Zeus e de uma mulher humana (um lado kryptoniano e um lado humano). Daí deriva uma comparação com Jesus, filho do Espírito Santo e de Maria, que veio à Terra para salvar a humanidade. Todos esses personagens tem características solares, de ação e força.

Bat moon

A deusa grega Selene e o deus egípsio da Lua Iah carregam a representação da Lua na cabeça!

O Batman foi criado em 1939 por um veterano da indústria (Bob Kane) com o propósito de rivalizar com o Superman pela atenção do público que consumia histórias em quadrinhos, e exatamente por isso ele foi pensado para ser em tudo o oposto ao último filho de Krypton. Seus pais são assassinados na sua frente e é esse trauma que move Bruce Wayne. Sua ferida emocional nunca poderá ser curada já que ela mantém o personagem combatendo o crime, impondo o medo vestido de morcego.

Nos 80 anos de histórias, a perda de pessoas próximas é um tema recorrente. A associação do Batman com figuras como Selene, Iah e outros deuses ligados à Lua, não é tão evidente como as imagens associadas ao Superman, não porque esses paralelos não existam, mas porque esses antigos mitos ligados à sombra são historicamente invisibilizados. As narrativas, históricas ou mitológicas, tradicionalmente exaltam a luz e escondem as sombras, mas o Batman subverte essa lógica por ser uma produção do século XX, um tempo em que a investigação sobre o inconsciente humano ganhou muita força.

Livros

Duas recentes biografias em quadrinhos sobre os criadores dos personagens.

Siegel e Shuster venderam sua criação e continuaram escrevendo e desenhando as histórias do Superman por alguns anos. Mas, como numa boa Jornada do Herói, eles quase chegaram ao fundo do poço para depois serem reconhecidos ainda em vida (por pressão dos fãs e de seus pares da industria) como os criadores do Superman. Foram recompensados financeiramente e seus nomes apareceram para o mundo todo no lançamento do filme Superman de 1978, que mostrava a origem do filho de Krypton e é até hoje uma referência para o cinema desse gênero. Nada mais solar do que esse desfecho!

Bob Kane passou a vida toda se gabando da criação do Batman (e faturando em cima dela), até que na década de 1960 alguns profissionais da indústria trouxeram a publico a participação de Bill Finger na criação do personagem e de vários elementos e personagens coadjuvantes que compõem o universo do Morcego. Bill Finger morreu sem ter seu nome associado ao personagem, o filho dele morreu vítima da epidemia de AIDS e, décadas depois, o escritor Marc Tyler Nobleman descobriu a neta do artista, a herdeira do legado de Finger, vivendo uma vida modesta na Califórnia. Depois de uma longa batalha e da pressão dos fãs, a DC reconheceu, indenizou a família e passou a colocar o nome de Bill Finger em todas as produções do Batman. Uma história cheia de mentiras, segredos, tragédias familiares e que só teve um desfecho quando apareceu uma figura feminina (a neta). Não dá pra ser mais lunar do que isso.

Entre os dois personagens o que mais vende é o Batman. A escuridão e as sombras, a tragédia e a morte precisam ser olhadas por nós leitores, de alguma forma. A galeria de personagens ligados ao abuso de substâncias químicas, a doença mental e ao trauma infantil que povoam Gotham City é um espelho da sociedade. Não é à toa que durante a pandemia as séries e filmes mais assistidos são histórias sobre epidemias e cenários pós-apocalípticos. Mas o que dá definição para as sombras é a luz (tanto no sentido de criar as sombras quanto no de delimitá-las), assim como são as sombras que nos mostram a importância da luz. Assim não podemos ter um Superman sem um Batman e vice-versa.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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