Stan Lee sobre a politização dos super-heróis

O mestre sobre a polêmica.

Quem acompanha os fóruns sobre quadrinhos depara-se continuamente com a questão da politização dos super-heróis. Existe uma parte considerável dos leitores que acham que os quadrinhos de super-heróis que leram em sua infância e adolescência eram despolitizados e somam a isso o peso da nostalgia (em que tudo, “na minha época”, era melhor).

Essa opinião toma as mais variadas formas. Desde o fã dos X-Men que se recusa em ver ali a alegoria sobre o preconceito contra minorias até a revolta contra a representação da diversidade, sendo o exemplo mais emblemático o Comics Gate.

A recusa em ver o óbvio é compreensível, mas não perdoável. Foi durante a infância que a maioria dos leitores de quadrinhos de super-heróis os conheceu. Faz sentido que muitas das camadas de leitura ali presentes escapasse aos olhos de uma criança. Dá para entender que se idealize aquele momento mágico em que se descobriu um mundo totalmente novo, fantástico, e que tudo “daquela época” seja visto como melhor.

Os quadrinhos em geral eram vistos como algo que se lia durante a infância e início da adolescência, abandonados durante a vida adulta. Mas isso não é mais verdade há muitos anos.  De acordo com Sean Howe em A História Secreta da Marvel Comics (p.451) , os leitores da Marvel, hoje, têm por volta de 30 anos. Mas parece que uma parcela desses adultos revoltam-se quando questões políticas aparecem nas histórias em quadrinhos e clamam pela volta daqueles quadrinhos que leram na infância, sem se dar conta de que a politização sempre esteve lá, inclusive, na origem do próprio gênero super-herói, com o Superman sendo uma resposta à Crise de 29 e representando a ética do New Deal.

Há quem consiga, inclusive, negar o caráter político até do Capitão América. A miopia de certos leitores parece não ter fim.

Primeira capa do Capitão América

Essa leitura limitada e parcial não é nova. Aqui está traduzida uma das Stan’s Soapbox, parte dos famosos Bullpen Bulletins, a página sobre notícias e lançamentos da Marvel que acompanhavam os quadrinhos, em que o próprio Stan Lee aborda a questão. Ela data de abril de 1970 e saiu em Captain America #124.

 

 

Segue a tradução.

De tempos em tempos recebemos cartas de nossos leitores questionando o porque de tanta moralização em nossos quadrinhos. Eles se esforçam em apontar que quadrinhos deveriam ser apenas uma leitura escapista e nada mais. Mas, de alguma forma, eu não consigo ver dessa maneira. Para mim, parece que uma história sem uma mensagem, ainda que subliminar, é como um homem sem alma. Na verdade, até mesmo a literatura mais escapista de todas – velhas histórias de contos de fadas e lendas heroicas – contém pontos de vista morais e filosóficos. Em toda universidade que visito existe tanta discussão sobre guerra e paz, direitos civis e as chamadas rebeliões juvenis quanto existe em nossas revistas da Marvel per se. Nenhum de nós vive no vácuo – nenhum de nós é intocável pelos eventos do dia a dia que são sobre nós – eventos que moldam nossas histórias, assim como moldam nossas vidas. Claro que nossas histórias podem ser chamadas de escapistas – mas só porque algo é divertido, não significa que devemos cobrir nossos cérebros enquanto as lemos.

Excelsior!

Stan Lee

Está aí, nas próprias palavras do grande mestre, do homem que arquitetou o Universo Marvel, o caráter político de suas histórias – e também a prova de que uma parcela considerável de seus leitores o criticava por isso. Hoje é bem possível que Lee fosse chamado de esquerdista e comunista por sustentar tais posições, tamanha nossa polarização.

A politização está lá e, da mesma forma que a realidade, não irá embora se você fechar os olhos.

Sobre Nerdbully

AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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5 respostas para Stan Lee sobre a politização dos super-heróis

  1. Velho Quadrinheiro disse:

    “Há quem consiga, inclusive, negar o caráter político até do Capitão América”.

    Vamos lembrar que, conforme a visão do diretor Peter Cohen em Arquitetura da Destruição (1989), na perspectiva deles, os nazistas não se viam como líderes de um movimento político, mas “apolítico”. Segundo Cohen, o nazismo se via como um projeto estético, como se possível fosse separar a estética da política.

    Este ímpeto “apolítico”, que ademais “denuncia” a democracia como um projeto fracassado (“tudo corrupto”, “tenho vergonha dos deputados”) é a base do fascismo.

  2. Lucas Cantino disse:

    O History Channel ,postou em sua página ,uma minisérie sobre Marvel e DC ,vale a pena assistir,discute muito isso do texto

    Abraços

  3. Chris Ciuffi disse:

    Achar que o Stan Lee é um esquerdista é de uma imbecilidade atroz. Um homem de uma só família, responsável pelo enriquecimento de milhares de pessoas através do mercado de quadrinhos e posteriormente do cinema, defensor de valores éticos e morais judaico-cristãos. Altamente patriota… O fato de apoiar eventualmente algumas minorias não faz uma pessoa ser de esquerda.

  4. Pingback: A Marvel através das Eras | Quadrinheiros

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