Das histórias que não se deve esquecer: O Alto Preço da Vida

O que a Morte ensina sobre a vida?

Durante o ano de 1993 Neil Gaiman e Chris Bachalo resolveram desenvolver uma minissérie para a personagem Morte. A personalidade da Perpétua estava definida na série regular do Senhor dos Sonhos, porém a temática para uma história solo dela ainda era um mistério. Gaimam em um toque sutil aborda exatamente a morte, tanto na vivacidade da personagem, como no fim e no trajeto da vida visto de forma menos assustadora pela história. Você pode encontrar a história na compilação Morte: Edição Definitiva da Panini, na compilação feita pela Conrad ou ainda em várias edições pela editora Globo.

A HQ acompanha inicialmente a história de um garoto chamado Sexton que está escrevendo sua carta de suicídio, ele está convencido de que a vida não tem mais sentido e lhe exclui da felicidade. Enquanto o rapaz escreve o que seriam suas últimas palavras, sua mãe o tira rapidamente do quarto para limpá-lo, fazendo assim ele sair pela cidade questionando sua existência e seu papel no mundo.

Na cena seguinte ele acaba entrando em um lixão, caindo e recebendo ajuda de quem menos imagina, da Morte. A personagem vive um dia como mortal a cada século e este foi o dia que Sexton pensava em conhecê-la, colocando fim em sua vida. A partir deste momento eles embarcam juntos na aventura da vida, viver um dia sem pensar tanto em consequências, futuro ou qualquer tipo de arrependimento que possa vir a existir.

A Morte procura experimentar as pequenas coisas da vida, como comer algo que sente vontade, ir a uma festa, conversar, sair etc. Um dos momentos de virada na história é quando Morte e Sexton entram em um táxi e o motorista questiona de forma preocupada que eles não sabem onde vão e ela diz que essa é a parte mais legal de estarem fazendo isso. Assim ressignificando uma das maiores angústias humanas: o propósito da existência.

A Morte encara a vida como um trajeto, não como um objetivo que é preciso alcançar. A importância está nas pessoas, no que se sente, em momentos básicos que passam despercebidos. Em poucos momentos se viu a Morte dizer isso, viver é isso e é essa metáfora que deixa a HQ tão poderosa, pois a mesma Morte que causa medo e reflexão por essa via, aqui é doce, compreensiva e ensina de uma forma menos dolorosa, porém tão eficaz quanto.

É divertido observar essas atitudes da Morte mesmo em momentos desesperadores, como em certo ponto em que ela e Sexton são sequestrados. Enquanto ele já pregava o fim deles, e procurava algo para se defender do agressor, a Morte ficou tranquila e procurou pensar em soluções. Apesar de ser uma visão muito otimista para uma situação assustadora, nós podemos ver que a experiência dela do que é a vida está além da compreensão humana, além do que podemos enxergar como passagem por este mundo.

Ainda durante o sequestro, a Morte tem seu icônico colar roubado e ela entende que a vida está além do que é físico, além de objetos de plástico que podem sumir. A solução acontece quando ela simplesmente compra um novo colar em um camelô, pois não é o material, mas o símbolo, a representação e as memórias que aquilo traz para sua existência.

Depois de ser sequestrada, encontrar Sexton, se divertir, Morte finalmente chega ao fim de seu dia de vida e diz que adorou ele. Ela é questionada se gostou de ser sequestrada e perder seu amuleto e ela diz que não, porém isso faz parte. Isso significa o todo, não só os momentos bons são bons, mas a experiência completa em passar por diversas coisas e observar como cada uma delas acrescenta algo na existência – mesmo os dias que damos pouco valor.

Morte: o Alto Preço da Vida apresenta uma abordagem sobre preço e valor mesmo da vida, sobre a questão de nossas fixações sobre objetivos e metas e indica vivermos o trajeto. A importância de passar por coisas boas e ruins em seus dias e momentos transforma sua passagem por este mundo em algo interessante e importante, o caminho é onde as coisas realmente acontecem, não na chegada.

Agradeço por ter chegado ao fim do texto, porém espero que o caminho até estas últimas palavras tenha sido o mais interessante.

Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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5 respostas para Das histórias que não se deve esquecer: O Alto Preço da Vida

  1. eddierazo disse:

    Lembro de ter lido O Preço Da Vida logo que saiu na gringa e ficado 300% p* porque “nada acontece”… Quase taquei fogo nas revistas, mas fui um bom menino e doei para uma gibiteca, kkkk…
    Mas relendo anos depois – e comparando com a sequência The Time Of Your Life – PDV é bem legal… tive a mesma interpretação do seu texto, por isso não vou me repetir aqui… e ainda continuo “chocado” com a história, mesmo buscando paralelos de estilo em Sandman (Vidas Breves, por exemplo). Recomendo a leitura.

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  4. Eu me lembro de entrar no universo de Neil Gaiman, justamente por essa mini série, achada perdida em um Sebo na João Mendes nos idos de 1998, de lá pra cá, a vida não foi a mesma.

  5. Especialmente seguro e muito, muito lindo!

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