Queda e Redenção na terceira temporada de Demolidor

“O mal que não quero, acabo praticando” (Romanos 7, 19)

 

 

 

 

Por Renato Ferreira Machado*

 

Em outro texto sustentei a ideia de que em toda a terceira temporada do Demolidor os arcos de todos os personagens transitam por uma dinâmica de tentações, queda, redenção e consequências, salvíficas ou danosas para cada um deles. Gostaria de explorar melhor essa ideia em outros personagens da série, a saber: Rahul “Ray” Nadeem, Ben Poindexter, Karen Page e muito brevemente em Foggy Nelson.

Nadeem é apresentado como um pai de família endividado, que precisa ajudar a cunhada com um tratamento de câncer, ao mesmo tempo em que promete uma vida mais confortável ao filho e esposa. Ele é um competente agente do FBI que há muito tempo espera uma promoção. E a promoção não vem exatamente por ele estar em uma situação financeira precária, tornando-se um candidato potencial à corrupção por parte de criminosos como Wilson Fisk.

Pois eis que um dia Nadeem é designado para um interrogatório com Fisk dentro do presídio. Procedimento de rotina do FBI, estes interrogatórios regulares visavam propor algum acordo a Fisk em troca de delações a respeito de criminosos a ele associados. Via de regra esses procedimentos do FBI vinham se mostrando inúteis. Com Nadeem, naquele dia, foi diferente: Fisk se propõe a delatar ex-parceiros de crime e a assinar um acordo com as autoridades judiciárias. Ficando à frente do processo, Nadeem começa a viver uma espiral ascendente em sua carreira e vida pessoal, tornando-se um verdadeiro herói para seus colegas, família e comunidade.

Obviamente, como estava lidando com Wilson Fisk, as coisas não eram nada daquilo que aparentavam e quando o preço por essa aliança começa a ser cobrado, Nadeem inicia um processo de decadência e sofrimento que o levarão a um fim trágico.

Neste personagem parece se encontrar a chave para o sentido daquilo que toda a trama da temporada deseja mostrar: se a queda é inerente à condição humana, é preciso ter coragem para enfrenta-la, assumindo-a como parte integrante da vida. Nadeem tem medo e por isso cede a pequenas tentações, até que se encontra tão afundado nelas que não encontra mais saída. Ou melhor: sua saída é a coragem para deixar-se imolar pelo mais letal agente do mal apresentado na série – Ben Poindexter, o futuro Mercenário – para conseguir revelar a verdade.

O futuro Mercenário é outro personagem que está nessa queda. Ciente de seus distúrbios mentais desde muito cedo, Poindexter tenta a todo custo evitar ser dominado por eles. Alistando-se no exército, depois como agente do FBI, ele busca ter uma ocupação socialmente aceita em que possa extravasar seus impulsos violentos.  Para sua dinâmica emocional se manter sob controle e minimamente saudável, Poindexter precisa se colocar em ambientes de trabalho regrados e disciplinadores, além de buscar sempre a orientação daquilo que sua terapeuta denomina como “estrela-guia”: pessoas que atuem como suas bússolas morais. São estas estrelas que apontam os possíveis caminhos de realização do personagem e prospectam suas aspirações e projetos de vida. Assim é na relação com sua terapeuta e depois com uma ex-colega de trabalho, por quem se torna obcecado e passa a perseguir. O Rei do Crime aproveita-se disso e transforma-se na nova bússola moral de Poindexter, de maneira deturpada.

Mas essa bússola deturpada é negada ao personagem quando este descobre que até mesmo Wilson Fisk o traiu. Talvez Ben Poindexter seja o personagem mais trágico de toda a série: tenta evitar a todo custo sua queda que se mostra inevitável, sem chance da redenção final conquistada por Nadeem.

Nem mesmo Karen Page escapa dessa espiral descendente, ainda que de forma inversa. Até então o público só conhecia o lado angelical de Karen Page. É na forma de uma retcon que conhecemos seu passado como a assassina de um assecla do Rei do Crime e parcialmente responsável pela morte do irmão. Já conhecíamos a personagem redimida, e agora conhecemos seu passado em queda.

O único personagem central que escapa parcialmente dessa queda é Foggy Nelson,  a bússola moral de Matthew Murdock, responsável por restaurar a fé no sistema do protagonista, talvez representando o sussurro de Deus do qual padre Lanton fala ao jovem Matthew. Ainda que Foggy apresente uma relação delicada de omissão em relação à sua família que, mais para o final da temporada, revela dimensões bastante perigosas para todos eles.

Diante de todo esse quadro, faz muito sentido que a sequência final do último capítulo da temporada seja aberta por um discurso de Matt Murdock, no funeral do Padre Landom. Ele fala que o sacerdote tinha total consciência dos grandes problemas enfrentados pela comunidade, tanto de forma coletiva quanto nas diversas individualidades que a compõem. E que, diante destas questões, a palavra do sacerdote sempre foi a de que as pessoas não tivessem medo diante da realidade. Que elas se encorajassem e se empoderassem, a partir de suas histórias, identidades e esperanças.

No fundo, o medo da realidade nos puxa para baixo e potencializa nossa queda. Nadeem caiu por ter medo de não conseguir assegurar uma vida confortável à sua família. Poindexter caiu por medo de quem ele era e daquilo que poderia fazer. Wilson Fisk caiu por medo de perder sua esposa. Foggy caiu por medo de acabar na mesma situação precária de sua família. Karen caiu por medo daquilo que ocultava em seu passado. Matthew caiu por medo da missão que havia assumido.

Por isso, a ascensão de alguns personagens se deu por meio da coragem. Karen assume suas culpas e segue em frente. Foggy reintegra-se com sua família. Nadeem se redime em um grande sacrifício final. E Matt Murdock, ao abraçar novamente seus demônios interiores e reassumir sua missão e os laços fraternos com seus amigos, consegue, no funeral do Padre Landon, encarar as possibilidades de ser um homem sem medo.

Renato Ferreira Machado é Doutor em Teologia e dedica-se à análise do campo simbólico religioso presentes nas seguintes produções artístico-culturais: histórias em quadrinhos de super-heróis, seriados de aventura, fantasia, terror e assemelhados e produções cinematográficas dos mesmos gêneros e cenas musicais underground, como o Punk e Pós-Punk Britânico, Punk e New Wave de Nova Yorque e música de protesto latino-americana. 

 

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