X-Men e Hannah Arendt: o medo em ano de eleição

O senador Kelly gosta muito de falar contra a ameaça mutante. Eu e meus colegas somos a encarnação dessa ameaça! Como exemplo de nosso terrível poder… como lição para os que quiserem se opor a nós… pretendemos matá-lo”.

Sabe, depois de certa idade, a menos que alguém seja bem-nascido ou muito astuto, pouca gente dá conta de estudar muito. Apesar dos melhores esforços, o resto de nós dorme pouco, come mal, rala muito, e acorda cedo para repetir a dose, todo santo dia. Alegria é o intervalo. Descanso é o engarrafamento. Reconforto é o trinco na porta. Com pouco tempo pra exercício e menos ainda pra leitura, resta o acesso aos medos coletivos, mastigados na manchete do jornal ou nas entrelinhas da ficção. E o medo, ora, esse quase sempre é o mesmo: “as coisas podem piorar.”

E por medo o óbvio não pode ser ignorado. Quando estamos à beira da barbárie é importante dar um passo atrás. E se leitura é um luxo, eis a lição da ficção trazida de bandeja.

Em 1980, os X-Men foram surpreendidos pela notícia de que, dentro de 30 anos, o assassinato de um candidato a presidente culminaria com a destruição – literal – do mundo. Uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos, X-Men – Dias de um Futuro Esquecido, obra-prima de Chris Claremont e John Byrne, pintou um retrato niilista e melancólico dos heróis mutantes. Além de falharem como heróis, estavam fadados ao extermínio graças ao medo da população, que depositou na liderança radical a possibilidade de mudança e a solução para todos os problemas.

Pra quem só conhece o filme de 2014, na história em quadrinhos, a portadora do alerta foi Kitty Pryde, a Lince Negra, que nos anos 80 representava a mais jovem aluna da Escola Xavier para Superdotados. A função de “caloura” era essencial, uma vez que ela trazia a visão mais realista e humana, de um adolescente, tal como o leitor médio das histórias.

Diferente de uma exposição teórica, uma peroração lógica ou da exposição de dados ou evidências, a história dos X-Men trouxe uma narrativa simbólica, um conceito encerrado em si mesmo, mas com potencial de ultrapassar seu meio de narração. Ou seja, de uma fábula, converteu-se em mito, uma mensagem de significado bastante claro: o medo coletivo pode trazer consequências fatais para todas as pessoas.

Como ensinou o Dr. Francisco Assumpção,

A criança normal, com atividades cotidianas, que não tem condições de viver aventuras de modo excitante, sendo seus desejos e conquistas frustrados, tem, através das Histórias em Quadrinhos, uma forma de catarse, podendo estas serem consideradas como de efeito terapêutico, segundo Bender e Lourie, uma vez que realizam no plano fantástico desejos impossíveis de se realizarem no plano real, principalmente aqueles com conteúdos nitidamente agressivos ou sexuais, diminuindo portanto, a ansiedade que habitualmente acompanha tais fantasias. (ASSUMPÇÃO Jr.., Psicologia e História em Quadrinhos, 2001, pp. 37-38.)

Agora, você, que vive em 2048, tenta entender o que estava acontecendo no Brasil neste ano e pensa em voltar no tempo para mudar alguma coisa, é importante lembrar as intenções de voto a um mês das eleições:

E que no dia 6/9/2018, um candidato sofreu um atentado.

Nunca é demais repetir, em 1949, a filósofa Hannah Arendt dissecou como ninguém as formas com que uma ideologia autoritária é levada ao poder em Origens do Totalitarismo. Notou, aliás, que a sede de mudança não exige muito esforço:

A extraordinária força de persuasão decorrente das principais ideologias do nosso tempo não é acidental. A persuasão não é possível sem que o seu apelo corresponda às nossas experiências ou desejos ou, em outras palavras, a necessidades imediatas. Nessas questões, a plausibilidade não advém nem de fatos científicos, como vários cientistas gostariam que acreditássemos, nem de leis históricas, como pretendem os historiadores em seus esforços de descobrir a lei que leva as civilizações ao surgimento e ao declínio. Toda ideologia que se preza é criada, mantida e aperfeiçoada como arma política e não como doutrina teórica. É verdade que, às vezes, como ocorreu no caso do racismo, uma ideologia muda o seu rumo político inicial, mas não pode imaginar nenhuma delas sem contato imediato com a vida política. Seu aspecto científico é secundário. Resulta da necessidade de proporcionar argumentos aparentemente coesos, e assume características reais, porque seu poder persuasório fascina também a cientistas, desinteressados pela pesquisa propriamente dita e atraídos pela possibilidade de pregar à multidão as novas interpretações da vida e do mundo.” (ARENDT, H., 2011, p. 189.)

O mundo agora está no lugar do seu coração. É de se esperar uma certa porção de dor”, ensinou o xamã que veio antes de Jeroen Thornedike, o Doutor, de Authority. Em A História Secreta de Jenny Sparks, de Mark Millar e John McCrea, é revelado que Jeroen passava boa parte de seu tempo coçando o pé e jogando videogame, até ser convocado pela necessidade óbvia de sua função. Ele guardava a memória de todos os doutores que vieram antes dele.

Uma vez que ouvir gente morta é trabalho de quem vive de história, ensina o passado que o presente guarda dois caminhos: 1) a ansiedade por mudança, sustentada pelo medo, ignora o passado e leva ao fim de mundos; 2) a ansiedade por mudança, marcada pela serenidade, reconhece o passado e leva à busca de consenso.

A segunda nunca foi fácil.

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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