Hayao Miyazaki – uma inspiração para a arte – Parte final

Como três grandes obras mostram que um verdadeiro artista não pode fazer outra coisa além de criar!

Na primeira parte sobre o Hayao Miyazaki expusemos a biografia do artista. Em seguida analisamos, de forma resumida, as animações, desde seu primeiro filme como diretor, Lupin III e o Castelo de Cagliostro até Porco Rosso. Agora abordamos o período que veio depois de 5 anos sem produzir nenhum longa-metragem. Ali, Hayao Miyazaki retornou com uma animação que retrata o Japão no período Muromachi (1336 – 1573) e a relação que este país tem com a natureza.

Mononoke Hime (Princesa Mononoke – 1997)

Essa animação narra a jornada de Ashitaka para encontrar uma cura da sua maldição, conjurada por um deus Tatarigami que, possuído pelo ódio, destruía tudo pela frente. Nessa sua jornada, seguindo para o oeste, depara-se com uma guerra entre humanos e deuses animais. Ashitaka acaba conhecendo Lady Eboshi, líder dos humanos, e San, uma “menina lobo” que luta ao lado dos deuses animais. Ashitaka não acredita no que a guerra possa fornecer senão o sofrimento e o ódio, e quando percebe que está infiltrado nesta hostilidade escolhe tornar-se neutro.

Como em muitos filmes de Miyazaki, parece não haver o certo e o errado, o bom e o mal, e sim, pontos de vista diferentes. Lady Eboshi, por exemplo, abriga, protege e oferece oportunidades para aqueles que são excluídos pela sociedade. Ela constrói uma pequena cidade, Tatara-ba, que vive da produção de ferro e armas de fogo. Um lugar em que o homem e a mulher têm direitos iguais, mas que para expandir precisa devastar a natureza para ter mais espaço para seu povo. E, mesmo tendo confrontado frente-a-frente e, supostamente, ter “matado” o deus da floresta, Shishigami, Lady Eboshi reflete sobre o que sua ambição a conduziu na destruição dos protetores das florestas, e que a reconstrução de Tatara-ba seria erguida com harmonia entre a natureza e os humanos.

San é uma importante personagem no filme porque, mesmo sendo humana, compreende os deuses animais e os espíritos da floresta. Quando bebê, ela foi criada pelo deus dos lobos, Moro. Seu ódio pela devastação das florestas para a construção de cidades, faz com que San deixe de se ver como humana, a ponto de dizer, por exemplo, “Estou cheirando humanos!”. No entanto, diferente de Lady Eboshi, San pretende seguir o legado de sua “mãe”, em proteger a floresta dos humanos.

Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro – 2001)

Graças a esta animação, as obras de Hayao Miyazaki passaram a ter reconhecimento em diversos festivais internacionais, como a indicação ao Oscar e como sendo a primeira animação longa-metragem a receber o Urso de Ouro, no Festival de Berlim.

A história é sobre outro mundo, o dos deuses da natureza. Chihiro, uma menina de 10 anos de idade, e seus pais acabam se deparando com este lugar por acaso, mas a curiosidade e a intrusão dos adultos, além de acharem que qualquer lugar o dinheiro tem valor, os levam a uma transformação animalesca de porco ao comerem, sem permissão, o alimento dos deuses.  Chihiro, convicta em suas atitudes, nega-se a comer aquilo que não lhe foi oferecido, mas ao ver seus pais naquela situação, descobre que precisa trabalhar em um onsen (casa de banho) para ajuda-los a voltarem ao normal.

A negação de Chihiro é sempre positiva, despida de ganância, como quando recusa os presentes de Kaonashi (Sem Rosto). Mas, Chihiro ao trabalhar no onsen, tem seu nome roubado pela bruxa Yubaaba, passando a se chamar Sen. Yubaaba rouba os nomes porque eles são importantes para nós – parece que quando os alteramos também mudamos nossa identidade, pois ele nos é atribuído desde que nascemos. No entanto, o personagem Haku ajuda Chihiro a não se esquecer de quem ela é, e qual seu objetivo naquele mundo. Mas esse não esquecimento Chihiro a faz se lembra de quem foi Haku.

O tema da ganância está muito presente no filme, seja através de seus pais, de Yubaaba, Kaonashi ou outros personagens. Esse mundo parece ser paralelo ao nosso, com sugestões de que não temos tempos para nada, nem para olharmos o céu, uma correria para estarmos a frente dos outros e, supostamente, ganharmos mais. Porém a inocência e virtude de Chihiro equilibram a animação, nos mostrando caminhos para refletirmos sobre quem nós somos.

Hauru no Ugoku Shiro (O Castelo Animado – 2004)

É uma animação baseada na literatura inglesa infanto-juvenil de Diana Wynne Jones. O filme conta história de uma jovem que trabalha na chapelaria da família. Diferente de suas irmãs e sua mãe, Sophie, tem personalidade de uma velha, o estereótipo de ranzinza e rabugenta, sem autoestima, apenas trabalha e segue seu dia a dia. Mas recebe uma cliente inesperada na sua loja, a Bruxa da Terra Abandonada. A bruxa lança um feitiço em Sophie para tentar atingir Howl, mago proprietário do Castelo andarilho, e que dá alta importância à vaidade. No dia seguinte Sophie se torna uma velha de 90 anos, com todas as dificuldades que uma pessoa nessa idade sofre. Ela sai de casa para tentar quebrar o feitiço e, encontra o Cabeça de Nabo, outro personagem amaldiçoado, que a coloca frente a frente do Castelo de Howl, lugar que se contrata como faxineira.

Muitos dos personagens presentes ativamente na história apresentam aspectos relacionados a virtudes e valores, e que aprendem sobre o seu “eu” interior através da experiência do erro. Howl, por exemplo, é vaidoso e egoísta, mas conhecendo Sophie e sua preocupação com os outros, relembra que ajudou Calcifer, um demônio do fogo, a sobreviver; ou a Bruxa das Terras Abandonadas, que deixa um pouco de lado sua arrogância e vê em Sophie a bondade. Percebe-se também que durante a narrativa, Sophie, em alguns momentos, toma iniciativas e confiança em si, sua feição de velha vai rejuvenescendo, porém, sempre acaba voltando a não acreditar na sua capacidade de ser uma pessoa bonita e interessante.

Gake no Ue no Ponyo (Ponyo, uma amizade que veio do mar – 2008)

Ponyo é um peixinho filha da rainha do mar, Brunhilde e de um mago/cientista que já tinha sido humano, Fujimoto. A curiosidade de Ponyo a leva para a superfície e encontra um menino de 5 anos, Sosuke, que a resgata presa dentro de um vidro, mas acaba se cortando. Ponyo vê o sangue no dedo de Sosuke e lambe curando-o, mas isso contribui para sua vontade em ser uma humana. A amizade entre os dois cresce, mas com a ausência de Ponyo no seu ambiente natural, o mar sofre consequências. Sosuke cuida de Ponyo como se ela fosse humana, talvez isso, contribua para que ela goste dos seres humanos, sem se preocupar se aquilo mudará o percurso da natureza.

A vontade de perseverança de Ponyo a fazem conseguir ter pés e mãos humanas, mas ainda em transformação, lembrando um anfíbio em desenvolvimento. Talvez essa fosse uma ideia do Miyazaki em retratar nos dias atuais a “evolução” humana, pois essa interferência da Ponyo em relação ao vontade de ser humana traz ao mundo dos homens um tsunami composto de seres marinhos pré-cambrianos, como se fosse novamente o início da evolução humana.

Neste filme de Hayao Miyazaki encontramos dois pontos da vida lado a lado, o início da vida e o fim dela, ou seja, uma creche e um asilo como vizinhos. Lisa, mãe de Sosuke, trabalha no asilo e Sosuke estuda na creche.  Despois do tsunami as senhoras do asilo parecem rejuvenescer e se divertem como crianças num mundo da fantasia em que tudo e possível. É a declaração de um amor verdadeiro que traz a paz e tranquilidade do mar e dos homens.

Kaze Tachinu (Vidas ao Vento – 2013)

kaze

Este filme dirigido por Hayao Miyazaki relata a história de Jirô Horikoshi, que anseia ser piloto de aviões, mas por causa de sua miopia nunca conseguirá, por isso, resolve se tornar um engenheiro para projetar aviões. Seu projeto mais famoso foi o avião de combate Mitsubishi A6M Zero, utilizado na Segunda Guerra. Interessante perceber que o pai de Miyazaki projetou timão para esses aviões, ou seja, a ligação de Miyazaki com essa animação parece ter uma conectividade maior e pessoal.

Diferente das outras animações de Miyazaki, Vidas ao Vento é uma história verídica sobre uma importante figura japonesa, mas o sonho e as possíveis conquistas permanecem. O romance entre dois personagens não é camuflado por uma amizade, ele é aparente e vívido. O beijo também não é inocente e sim apaixonate. Este filme também é baseado no romance de Hori Tasuo, um escrito japonês que descreveu um sanatório de tuberculose na cidade de Nagano e, no filme de Miyazaki a esposa de Jirô, Naoko Satomi, fica neste lugar devido a doença.

Este filme de Hayao Miyazaki parece ter uma narrativa madura em relação as anteriores, mesmo Mononoke Hime que tem um conteúdo mais adulto, a história se encaixa  com as outras, mas Vidas ao Vento, tende a ser o fechamento da realização pessoal, porém, as notícias seguem para um outro projeto do artista…ainda, talvez, em andamento.

Ou seja, Hayao Miyazaki é artista que quando sente vontade de criar, cria!

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Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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