Uma aula de quadrinhos com Steve Ditko

steve-ditko-photo0Descubra porque a arte desse artista formidável é absolutamente singular.

A arte de Steve Ditko, o co-criador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho (Marvel), Rapina e Columba (DC), e Capitão Átomo e Questão (para a Chalrton Comics que mais tarde foi comprada pela DC), é absolutamente única. Recluso, o artista não dá entrevistas e nem participa de convenções de quadrinhos, apesar de ser um dos nomes mais influentes e originais de sua geração.

Reproduzimos abaixo parte de um artigo escrito pelo professor Ken Parille para o The Comics Journal, que aborda diferentes aspectos da arte de Ditko. Para saber mais sobre esse inacreditável artista recomendamos o documentário Em Busca de Steve Ditko, que mostra entrevistas com autores renomados falando da influencia da arte de Ditko no trabalho deles.

The Comics Journal, 5 de novembro de 2012

Abstracionismo [1980, 1957]

Embora a arte de Steve Ditko seja na maior parte da vezes figurativa, podemos encontrar em seu trabalho alguma das páginas mais abstratas dos quadrinhos mainstream. Seu interesse pela arte abstrata surge em suas célebres histórias do Homem-Aranha e Doutor Estranho, mas também em narrativas obscuras como “The Dimensions of Greed”, da antologia Time Warp #3, lançada no início de 1980 pela DC Comics. Nesta história, Ditko emprega um conjunto vertiginoso de formas líquidas, angulares, geométricas e exageradas, todas desenhados com humor. Enquanto o seu trabalho freqüentemente aborde temas pesados (crime, justiça, etc.), também lembra as tradições mais leves e cômicas dos quadrinhos. Sua abstração é alegre.

Se removemos as figuras humanas destas duas páginas da história o contexto para a compreensão de objetos e espaços narrativos desapareceria:

Ditko 1 cópia

SD4.jpgEnquanto uma máquina de Jack Kirby, por exemplo, é instantaneamente reconhecível como algum tipo de equipamento (e os personagens então nos dizem o que é), os “dispositivos” marcianos de Ditko parecem um amálgama de formas e esboços. O painel ao lado mostra um “respingo de pintura gigante” cercado por um “raio” (aparentemente) dobrável.

Mesmo que o desenho de um respingo de pintura de tenha uma conexão visual com um real, Ditko elimina essa conexão aqui, pois a natureza do objeto (inanimado, sensível, em movimento, estacionário) é desconhecida. As coisas deste mundo são gestuais, jogos de forma e cor – é como se os personagens humanos flutuassem dentro de uma pintura abstrata. Dentro de linguagem padrão da representação gráfica, um respingo é o resultado de uma ação. Na “dimensão” de Ditko, enfrentamos a incerteza: na gramática dessa cena, é um sujeito, um verbo, ou ambos?

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Muitas das formas do cartunista sugerem uma flor vista através do prisma fragmentado de um caleidoscópio. São as duas “criaturas” no painel ao lado – a forma verde à esquerda e o vermelho à direita – formas de vida? Na sequência de três painéis (abaixo), o aspecto narrativo em si é abstrato, visto na estranha transformação das formas da porta.

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No próximo exemplo de 1957 – “Escape” (reimpresso em Space Adventures #11, da Charlton, 1978), a abstração de Ditko se volta para uma abordagem mais minimalista / geométrica. Em uma cidade altamente estilizada (novamente, tão abstrata que um leitor pode não reconhecê-la como uma cidade sem as pistas do texto), um homem corre. O personagem parece comentar ironicamente sobre questões de representação e reconhecimento – é óbvio que é uma cidade, mas talvez não pensemos assim se ele não nos dissesse. Ele diz que a localização “parece uma rua” – mas do tipo que não é uma rua. É uma série de círculos ou de formas ovais flutuando no espaço. Como o “terreno” deste mundo narrativo, o próximo painel apresenta um triângulo roxo e uma cruz, dois triângulos amarelos e outras formas criadas pelas bordas do painel e pelas linhas que definem a cruz e o triângulo.

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SD12.jpgO último painel acima apresenta um tipo diferente de abstração. Ditko literalmente abstrai (ou seja, remove) quase todos os sentidos do contexto físico no qual as figuras estão (exceto uma pequena sombra sob um pé). Embora a arte da história seja escassa, esta cena leva o minimalismo de Ditko um passo adiante, já que cada painel consecutivo contém menos informação visual do que a anterior.

Observe como o piso das da “casa” do personagem muda de forma nos dois painéis finais da história – um quadrado rodeado por outras formas irregulares se transforma numa série de quadrados. E a forma oval de seu quarto também fica ‘quadrada’.

E o que é aquela grande área de tinta preta no canto inferior? É intencional ou um erro de impressão Charlton? [Ela estranhamente se estende abaixo do plano das bordas do painel para a margem.] De qualquer maneira, ele se encaixa com a estranheza abstrata das imagens….

Aqui e em outros lugares, Ditko não se interessa em representar, de maneira literal ou convencional, o que o escritor pede. Ele reescreve e reinventa a narrativa enquanto a desenha, deixando o resultado final mais sutil e estranho do que o que o roteiro sugeria. Ditko é um dos poucos artistas que faz consistentemente algo especial a partir de textos medíocres e até horríveis – eu acho que ele leva os roteiros da Marvel e da DC muito menos a sério do que os escritores e editores, usando narrativas convencionais para explorar seu senso de humos visual não convencional… Muitas vezes os leitores se concentram nas preocupações temáticas de Ditko, ignorando a maneira como ele transforma as convenções, construindo novos mundos a partir de um vocabulário gráfico comum.

 

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Sobre Picareta Psíquico

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