Patrulha do Destino e a Fragmentação de Crazy Jane

Aprenda um pouco com os “eus” de Crazy Jane.

*Spoilers de Patrulha do Destino por todo o post*

Poucos personagens de quadrinhos são tão complexos, divertidos e bem escritos quanto Crazy Jane da série “Patrulha do Destino” de Grant Morrison. Jane possui 64 personalidades, cada uma com um jeito próprio e – o mais importante – todas elas possuem uma habilidade única, cada uma com seu poder que em diversos momentos salvam toda a Patrulha. Apesar da cabeça de Jane parecer doente e assustadora, ela é perfeita para nos mostrar outras formas de enxergar as coisas.

Crazy Jane foi criada por Morrison, sua primeira aparição foi em “Doom Patrol #19”, e ela foi baseada em uma pessoa real chamada Truddi Chase que escreveu uma autobiografia chamada “When Rabbit Howls”. Chase tinha 92 personalidades devido a abusos que sofreu na infância.

Outra inspiração para Jane é o poema de William Nicholson chamado de “The Ghost of Crazy Jane” de 1814. Também há uma pintura chamada “Crazy Jane” de 1855 criada por Richard Dadd, que logo após ter terminado sua criação foi internado em uma instituição mental dedicada a tratar esquizofrenia paranoica por assassinar seu próprio pai.

As origens de Jane são longas e parecem uma espécie de entidade que está sempre recebendo contribuições de artistas ao redor do mundo (fato esse que lembra muito Promethea de Alan Moore).

Crazy Jane – 1855

Durante a trigésima edição da série vemos que Jane está cataléptica e resta a Cliff entrar na psique de Jane para tentar resgatá-la do recente trauma que passou para salvar a todos. Quando Cliff entra na cabeça da personagem, ela é ilustrada como uma rede de metrô, alguns trechos estão destruídos, outros são nocivos até ao olhar. Claramente não é um lugar agradável para ninguém estar ali e Jane convive diariamente naquele ambiente, sem contar que em um certo trecho algumas das personalidades mais agressivas querem impedir Cliff de passar e ajudá-la, ou seja, além de CJ viver em uma mente sombria, ela convive com personalidades que apesar de quererem ajudá-la, são assustadoras e extremamente agressivas. Porém tudo na mente de Jane é justificado com uma série de fatos que são narrados na reta final da série, mas nesta edição já vemos diversas pistas do que aconteceu com a personagem.

Crazy Jane foi abusada por seu pai durante toda sua infância, escondeu tal fato em sua própria mente e continuou a vida. Porém um dia na páscoa ela foi estuprada dentro de uma igreja e naquele momento todas as lembranças voltaram e assim floresceram suas personalidades e seus poderes. Depois disso ela foi para um hospital psiquiátrico onde começou a passar por um tratamento e por estudos sobre suas personalidades até que foi encontrada por Cliff e se uniu à nova Patrulha do Destino, podendo assim utilizar esse seu dom para um bem maior.

As personalidades vivem em conflito e por isso a personagem consegue desenvolver seus poderes, sendo que existe uma briga por quem vai assumir o corpo de Jane, a personalidade vai de acordo com a necessidade da situação, geralmente são personalidades violentas por causa das missões que ela enfrenta junto da Patrulha. A complexidade de Jane, ao mesmo tempo que traz um desespero ao leitor, significa esperança e fuga, pois, quando os problemas parecem não ter solução, Jane pode trazer um poder novo e resolver tudo.

Do mesmo modo que em sua própria vida quando ela não consegue mais lidar com suas lembranças outra personalidade assume como fuga para ajudá-la. Ao mesmo tempo em que tal recurso pode ser salvador (tanto para o leitor quanto para Jane) também pode ser um enorme problema, pois nunca se pode ter certeza de qual personalidade virá e do que ela é capaz.

No final da série escrita por Morrison vemos que Jane enfrenta seus demônios. Ela volta ao local onde o era abusada e consegue ver que o pai não pode mais fazer mal a ela. Por conta disso a guerra que existia entre suas personalidades cessa e elas começam a viver em paz. Para Crazy Jane não existe um “eu”, querer ser apenas um é limitar a forma de ver a vida, seus “eus” possibilitam-na enxergar a vida de diversos ângulos.

A mensagem de Crazy Jane.

 

A Patrulha do Destino é uma equipe de desajustados que juntos conseguem fazer coisas boas. Crazy Jane é peça fundamental ali dentro, consegue mostrar aos leitores não só  superação ou força mas metaforicamente também a importância e a sorte das pessoas que têm a capacidade de enxergar a vida por diversos ângulos.  Então só podemos observar e tentar mudar de ângulo assim como faz Crazy Jane.

 

 

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Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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