Os grandes olhos do mangá – parte I

 

olhos-mangaPor que os personagens de mangá têm olhos tão grandes?

O tamanho alargado dos olhos dos personagens é um traço marcante do mangá. No entanto, apresentam diferenças na sua forma dependendo do gênero, dos protagonistas e antagonistas e expressões emocionais.

Por gênero, temos como referência os mais conhecidos no ocidente, o shôjo e shônen mangá, pois os demais se aproximam graficamente com um ou com outro.

Os olhos dos personagens femininos podem ter nascido com as figuras do jojô-ga, ao final da Era Meiji (1868 – 1912), quando já apresentavam olhos semelhantes aos do shôjo mangá contemporâneo. Foram estes os olhos que deram destaque à figura feminina nas pinturas.

O artista Takehisa Yumeji (1884 – 1934), em suas ilustrações, apresenta personagens com olhos maiores, sinal de beleza da nova mulher, uma mulher de temperamento forte e com voz numa sociedade que estava se modernizando. Mulheres como Kishi Tamaki, uma jovem viúva que trabalhava na papelaria do irmão, “dona de olhos grandes e expressivos” que impressionou Takehisa Yumeji.

O relacionamento com Tamaki fez Yumeji desenvolver o protótipo do Yumeji-shiki bijin, ou o tipo feminino de Yumeji: a mulher de olhos grandes e expressivos, os lábios carnudos, que fixa o seu olhar em quem vê”.

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Obra Kaeru, início do período Shôwa (1926 – 1989)

Os brilhos nos olhos em forma de estrelas, os cílios longos, a dobra da pálpebra, ainda não existiam. Watanabe Yohei, contemporâneo de Yumeji, é quem passou a desenhar os cílios longos e as pálpebras nos olhos, encontrados pela primeira vez na capa da revista Jogakusekai* ano 8, número 13 (1908). No ano seguinte, em 1909, este artista colocou um ponto branco na íris representando o brilho dos olhos, referência adotada por outros artistas que o sucederam.

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Obra Mulher tomando sake, sem data

Cabe pontuar que Nakahara Jun’ichi (1913 – 1988), um jovem de 22 anos, é quem deu o brilho final e consagrado aos olhos das personagens de mangá: as estrelas. As capas das revistas chamam atenção com as meninas de “olhos grandes e sonhadores”.

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Esse modelo criado para realçar a beleza feminina não teve boa repercussão. No período da Segunda Guerra Mundial, o governo japonês considerou essa criação feminina “luxuosa demais”. Kami Shôichi, pesquisador de literatura infantil japonesa, citado por Yoko Fujino, diz que as capas teriam sido proibidas pela Divisão de Livros do Ministério de Assuntos Internos com o argumento: “As meninas que você desenha sem sombra de dúvida são americanas, porque têm os cabelos vermelhos e olhos grandes, e no geral mostram fraqueza: são desenhos de uma doutrina derrotista”.

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Graficamente, os olhos que Nakahara Jun’ichi desenha têm as pontas das linhas unidas, são fechadas, enquanto que nos mangás contemporâneos a linha superior e inferior não possuem contatos, ou quando há, é apenas em um dos lados. Pode-se entender que são linhas suprimidas, também muito comuns no todo dos mangás, mas particularmente nos de cunho feminino.

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Magic Knight Rayearth

Como esclarece Pedro Vansconcellos sobre a supressão do contorno dos personagens, “neste recurso, o próprio traço de contorno das personagens é suprimido em alguns pontos, especialmente na área do rosto, como por exemplo, na ponta do nariz, na boca e no queixo, permitindo que o leitor os complete mentalmente e proporcionando maior leveza à composição do quadrinho.”

Para quem não conhece – ou não tinha se dado conta – existem diferenças sutis, mas importantes que distinguem os gêneros de mangá. Observamos no mangá direcionado ao público masculino não existe uma preocupação tão acentuada com os olhos. Embora sejam grandes também, ainda são menores que os olhos das personagens do shôjo. Nos shonen os olhos são mais simples, os cílios têm pouco volume. Mesmo em personagens femininas, os olhos não são tão elaborados, contendo pouco brilho, uma vez que o que o foco do enredo está distante da ideia romântica.

Dentre várias características, certamente o olhar é um dos traços mais emblemáticos para reconhecer um autêntico manga. Os temas, os problemas, os enredos que dão o tom das histórias do gênero shôjo, se por um lado são tão diversos e difíceis de se categorizar, por outro encontram na densa expressividade dos olhares a forma mais explícita de se expor um mesmo, e cada vez mais refinado, traço comum: a delicada sensibilidade de seus personagens.

Leia aqui a parte II. 

Jojokusekai foi um grande difusor de ilustradores e artistas plásticos, segundo Yoko Fujino, “os cartões postais encartados nas revistas da editora Hakubunkan permitiram que jovens artistas plásticos experimentassem novos estilos. Há ainda quem afirme que os postais desta editora exerceram papel fundamental no desenvolvimento do bijin-ga do final da era Meiji. No texto introdutório do catálogo Bijin-ga no tanjô (o nascimento do bijin-ga), Hamanaka Shinji explica que com a reformulação da lei postal, que permitiu a produção de postais pela iniciativa privada, muitos artistas plásticos entraram neste meio.”

 

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Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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13 respostas para Os grandes olhos do mangá – parte I

  1. Quiof disse:

    Isso sem falar a influência ocidental, Tezuka pela Disney, mas também teve a Betty Boop, ela aparecia em mangás (não-oficiais), como os de Shigeru Sugiura e outros autores não-creditados, tanto é era o sucesso dela nos anos 30 ou seja, pré-II Guerra, que ela aparece indo ao Japão em um curta lançado em 1935, A Language All My Own, tanto que ela até canta em japonês.

    http://www.tcj.com/the-bottom-of-a-bottomless-barrel-introducing-akahon-manga/

    http://www.tcj.com/tezuka-osamu-the-rectification-of-mickey/
    Betty no Japão
    http://www.fleischerstudios.com/betty-in-japan.html

    Numa página de Sugiura de 1935

  2. Stefano disse:

    4) POR QUE OLHOS GRANDES? – Primeiro, vamos esclarecer que nem todo mangá tem os famosos olhos grandes e brilhantes que tantos amam. Os primeiros mangás nem tinham essa característica, que acabou se tornando a mais facilmente reconhecível dos quadrinhos e animações japonesas. Quem começou isso foi o pioneiro do moderno mangá, Osamu Tezuka, na década de 1940. Os motivos foram vários.
    Tezuka era fã de um teatro tradicional chamado Takarazuká, que é interpretado somente por mulheres (em contraposição ao masculino Kabuki) e no qual as atrizes usam fortes maquiagens para realçar os olhos. O criador do Astro Boy também adorava animações Disney, em especial o Bambi (de 1942) e seus olhos verticais e cheios de brilho e sentimento. Esses olhos dão muita expressividade às figuras e permitem que, mesmo num quadrinho pequeno em uma página, seja fácil identificar o que se passa com o personagem. A resposta para a questão inicial é que olhos grandes são expressivos e o mangá é um meio onde a expressividade é uma característica essencial.

  3. Mochi disse:

    Sim sim, concordo com vc Stefano, nem todos os mangás possuem olhos grandes, por isso, o título não afirma essa característica. Na “Parte II” comentarei sobre Osamu Tezuka.

  4. Mochi disse:

    Indico aqui três bibliografias:
    FUJINO, Yoko. Identidade e alteridade: a figura feminina nas revistas ilustradas japonesas nas Eras Meiji, Taishô e Shôwa. Tese (Doutorado em Comunicação e Estética do Audiovisual) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2002.
    _____. Narração e ruptura no texto visual do shôjo-maga: estudo das histórias em quadrinhos para público adolescente feminino japonês. Dissertação (Mestrado em Imagem e som) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 1997.
    NATSUME, Fusanosuke. Manga wa Naze Omoshiroi no ka: sono hyôgen to bunpô. (Por que mangá é tão interessante: suas expressões e gramática.). Tokyo: NHK raiburari, 1997.

    Este último recomendo muito porque ele é um dos críticos de mangá mais reconhecidos no Japão!

  5. Quiof disse:

    Olha o que eu achei, um filme retrô do Tezuk inspirado no cinema mudo, com uma heroína que lembra a Betty, um vilão que parece o Brutus

    http://tezukaosamu.net/en/anime/73.html

    Escrevi sobre esse tropo de arramar mulheres em trens

    http://quadripop.blogspot.com/2016/08/muttley-e-rabugento.html

  6. Pingback: Os grandes olhos do mangá – parte II | Quadrinheiros

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