Das histórias que não se deve esquecer: A Balada de Halo Jones, de Alan Moore

halojones2Ou quando o ordinário se transforma em excepcionalidade.

Vamos tirar logo isso do caminho: Sim, a Balada de Halo Jones é criação de Alan Moore, em parceria com Ian Gibson. Sim, é uma narrativa de altíssima qualidade. Mas não, não é uma obra genial.

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Na história só existem insinuações daquelas marcas que tornaram Moore uma unanimidade entre os fãs (e os não fãs). Reflexões filosóficas, reviravoltas de enredo, cartografias minuciosas sobre a mentalidade dos personagens, tudo isso está presente em A Balada de Halo Jones. Mas são traços tão sutis no conjunto da história que passam quase despercebidos, como se os autores não tivessem outra pretensão além de contar uma história qualquer.

Não só isso. Seria fácil encontrar na literatura – ou em autores menos cultuados – uma narrativa mais, digamos, sofisticada. Mas a Balada de Halo Jones não é sobre perfeição. Nem alta qualidade. Nem sobre heróis. É justamente o contrário.2000ad 0376 376 01

Para quem não conhece, A Balada de Halo Jones é uma história dividida em 3 partes, publicadas originalmente na revista britânica 2000 AD entre 1984 e 1986. No Brasil foi publicada num volume único pela Pandora Books e pela Mythos Editora.

Evitando dar spoilers, a narrativa é sobre a biografia de Halo Jones, uma jovem mulher vivendo no século 50 e cuja maior característica é ser extraordinariamente comum. O enredo se passa ao longo de cerca de dez anos da vida dela, começando de quando vivia numa plataforma flutuante sobre o Oceano Atlântico, passando por um período de longo distanciamento do planeta Terra, até chegar a um desfecho inconclusivo, nas bordas do espaço sideral.

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Uma saga aparentemente (ou involuntariamente) aleatória, a vida de Halo é uma sequência de reações a um cotidiano prosaico, cheio de necessidades, de traumas, dores e frustrações, todos muito mais estridentes do que qualquer momento de sucesso ou felicidade. Assim como na vida real.

Uma dos motivos que tornam essa história inesquecível é por dar destaque especial a sujeitos que, por inúmeras razões, jamais seriam protagonistas ou teriam tanto espaço numa narrativa. No entanto, eles são tão interessantes, complexos e contraditórios como a própria Halo Jones.

É o caso de Glyph, uma das companheiras de quarto de Halo. Por alguma estranha razão, todos parecem esquecer que ela está lá. Todas as memórias das pessoas sobre ela parecem ser imediatamente apagadas, todos os vestígios da existência dela, desaparecidos. A razão para isso nunca é revelada. Mas é mais do que evidente, trata-se de um artifício certeiro dos autores para retratar um tipo de “invisibilidade” que acomete qualquer pessoa que já se sentiu excluída de algum grupo.

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Outro enfoque notável em A Balada é sobre a personagem Rodice. Melhor amiga de Halo no primeiro volume da história, ela parece ser uma adolescente comum, alegre, amistosa, popular. E frágil. Ao enfrentar um baita tranco da vida, ela adere a uma “tribo” de ritmados, sujeitos que passam a andar e se comportar de forma idêntica graças a um chip neural. Algo como um meio-termo entre um viciado em crack, um fã de death metal, e um jogador de Pokemon Go.

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Um dos maiores destaques da história é o arco de Toby, o “cão de guarda” de Halo. Na verdade trata-se de um ciborgue com emoções e desejos bastante humanos. O que no começo pareceria apenas uma variação do velho tema da lealdade da Fera pela Bela, Halo Jones, se revela a mais doentia fixação de Toby por sua dona.

Alegoria sutil, mas eficaz, a história de Toby parece uma artimanha a la “Cavalo de Tróia” para qualquer um que tenha passado por relacionamento intenso que chega ao fim. Um retrato preciso da diferença entre “amor” e “obsessão” mas que tem na história resultados trágicos para os amigos de Halo.

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Ambientada num futuro longínquo, as referências visuais em A Balada de Halo Jones parecem saídas diretamente das páginas de Metal Hurlánt, dos desenhos de Moebius (ou Jean Giraud), das capas de pulps de sci-fi, além, claro, das próprias revistas em quadrinhos.

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Talvez melhor do que qualquer revista da Mavel nos seus melhores momentos, A Balada de Halo Jones expõe, como Peter Parker jamais foi capaz de mostrar, as mais íntimas inquietações da juventude. Os desejos, as tolices ideológicas, as vontades, as antigas ilusões, as esperanças, desmoronando como gravetos diante dos obstáculos da vida e da adversidade, uma jornada de desnudamento na direção do que parece um vazio total em que o único resultado possível é a visão de si mesmo.

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Apesar desse fatalismo tênue sinalizado por várias tragédias, os autores não deixam dúvida: há uma solenidade serena na trajetória de Halo Jones, um charme discreto nos melhores momentos da personagem, uma melancolia nostálgica nos piores. O tom é familiar. Difícil não lembrar de autores latinos como Mario Vargas Llosa ou Gabriel Garcia Marquez.

Talvez aí esteja uma razão para não esquecermos de A Balada de Halo Jones: um momento em que Alan Moore mais se aproximou de contar uma história como um latino-americano.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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Uma resposta para Das histórias que não se deve esquecer: A Balada de Halo Jones, de Alan Moore

  1. Gazy Andraus disse:

    Tenho uma versão completa antiga que saiu no Brasil e vou lê-la. Mas quero lembrar também de outra obra que nunca saiu no Brasil, de Moore e Zarate: A small killing, suibestimada até hoje pelos editores brasileiros, mas uma das melhores HQs autorais de Moore!

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