A última linha de defesa: uma fórmula para o cinema e quadrinhos

guardians_of_the_galaxy_movie-wideTenha o público percebido ou não, existe um tema frequente nas histórias de heróis, um conceito simbólico chamado “the last stand”, algo como a “a última linha de defesa”.

E é uma fórmula melhor que a jornada do herói.

No cinema a referência do “last stand” é bem visível, até afirmada com todas as letras: como canta Will Smith, os Homens de Preto (1997) são a última linha de defesa contra o pior do universo; X-Men: O Confronto Final (2006), que deveria ter sido o clímax da série, tem o título original “The Last Stand”; The Last Stand é o título do filme de Arnold Schwarzenneger de 2013.

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Além de praticamente todos os filmes de cowboys

Os exemplos não param. James Cameron deve ser o diretor de cinema que mais emprega o tema: em Aliens (1986), Ripley e os fuzileiros defendem a última posição da colônia LV-426; em True Lies (1994), Arnold trabalha para o Omega Sector, agência secreta que é “a última linha de defesa”; a série Exterminador do Futuro inteira é fundada na ideia de que o passado é a última linha defesa dos humanos contra as máquinas, cabendo a Kyle Reese o sacrifício mais desesperado.

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The last stand” é um conceito difícil traduzir. A literalidade dos termos esconde um significado mais amplo e polêmico. “The last stand” é uma concepção tradicional americana (ou “estadunidense”, se você preferir), um dos mitos nacionais fundamentais daquele país.

Assim como “the last stand” não significa “o último suporte”, “frontier”, não é a mesma coisa que “fronteira”. A “fronteira” para um americano é tudo aquilo que está além do conhecido e domesticado, uma percepção imaginária nascida nas primeiras décadas da colonização da América do Norte. Referia-se a tudo o que estava além dos Montes Apalaches. Hoje o termo remete tanto ao espaço sideral como as dimensões da pós-vida.

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Audaciosamente indo…

Frontier e the last stand são temas e jargões que, no interior de uma comunidade auto-reconhecida, alinham os valores de uma moral ancestral ao mesmo tempo que sinalizam os fundamentos de um porvir. É um “senso comum” sem autoria, as palavras de fé de uma religião sem sacerdotes. Puro folclore. Mas como todo folclore, está baseado em fatos.

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Qualquer criança em idade escolar nos Estados Unidos sabe o que é o Álamo. Não, não é apenas uma antiga igreja espanhola que virou museu em San Antonio no Texas. O “Álamo” foi um dos episódios mais trágicos (e épicos) da história americana. Depois de 1821, o México declarou sua independência da Espanha, mas nem todos os seus territórios aderiram à unidade política que o novo país almejava. Vários colonos, de descendência alemã, holandesa e principalmente americana, rejeitavam a autoridade mexicana e em 1836 declararam independência do território texano. O governo mexicano despachou suas forças militares para reverter a situação. As tropas avançavam território adentro, naturalmente, quase sem resistência.

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Foi quando em fevereiro daquele ano, o Cel. James Bowie, o Ten–Cel. William B. Travis e o caçador (e ex-congressista pelo Tennessee) David Crockett, se reuniram na precária missão de San Antonio, ao lado de pouco mais de 250 milicianos, e lutaram contra o avassalador exército de mais de 1600 homens liderados pelo presidente Antonio Lopez de Santa Anna. Aquela foi a última linha de defesa, “the last stand”. A defesa do Álamo pelos texanos durou cerca de 13 dias, algo como 12 dias além de qualquer avaliação mais realista da situação. O resultado final foi o massacre quase total dos texanos, inclusive seus três grandes heróis, Davis, Travis e Bowie. Contudo, a resistência no Álamo foi razão suficiente para polarizar a nova república texana a reagir, o que culminou com a prisão de Santa Anna pelo general Sam Houston após a Batalha de San Jacinto, em abril de 1836.

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Depois disso ainda levaria anos para o Texas se tornar um estado americano, anexado aos Estados Unidos só em 1845. Mas a referência quase mítica daquele episódio excedeu as tênues linhas políticas que separavam as regiões. A ideia de um grupo precário e maltrapilho, diante de chances cruelmente desiguais, cientes de que estão indo de encontro com a própria morte, mas em nome de uma causa nobre, quem sabe até de uma chance de vitória, de esperança, ora, isso é a matéria-prima das lendas.

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E abdomens sarados

A “última linha de defesa” é uma imagem sedutora, irresistível e, ao olhar incauto, é atemporal. Não é preciso ser nenhum gênio criativo para reconhecer a fórmula e a colocar em uso. A referência estava presente tanto em dime novels, como Brave and the Bold, no cinema, como também aparece centenas de vezes nos quadrinhos.  Particularmente visível, as histórias do “last stand” são as histórias dos super grupos.

Para citar apenas algumas:

Quando o Quarteto Fantástico enfrentou o Galactus,

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Quando os X-Men enfrentaram a Guarda Imperial Shiar,

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Quando os Vingadores enfrentaram a Fênix,

Quando a Liga da Justiça enfrentou o Apocalipse (e culminou na morte do Superman),

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Quando os heróis da DC enfrentaram a Equação Anti-Vida em Odisséia Cósmica

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O tema do “last stand” funciona tão bem como fórmula narrativa que é praticamente a extensão natural da jornada do herói, uma evolução natural do crescimento protagonista que finalmente se coloca ao lado de seus iguais em defesa de um bem comum.

Além do mais, o “last stand” tem uma tremenda vantagem: você não precisa nascer um herói para morrer como um herói. De onde você acha que surgiu a ideia do Suicide Squad?

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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6 respostas para A última linha de defesa: uma fórmula para o cinema e quadrinhos

  1. Tiarles disse:

    Conceito interessante! a arte do blog está show!

  2. André disse:

    Amo as matérias de vocês. Principalmente por ser um leitor voraz, “Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.”
    Sempre aprendo muito aqui. Um abraço a todos!

  3. Pingback: Humanismo e fronteira em Valerian | Quadrinheiros

  4. Henri Galvão disse:

    Caramba, simplesmente emocionante ler esse texto. Você cita o faroeste, um tipo de filme que eu gosto muito, mas nunca tinha reparado no quanto essa temática é crucial pro gênero. “Meu Ódio Será Sua Herança”, em particular, ficou na minha cabeça o tempo todo enquanto eu lia a sua análise.

    Quanto aos quadrinhos, talvez dê pra dar o exemplo do Flash em Crise nas Infinitas Terras, não é?

  5. Pingback: Arlequina – 25 anos de transtorno mental, violência e muitas vendas! | Quadrinheiros

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