Os heróis e a arte da guerra – e da fofoca

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Protegendo um mundo que os teme e odeia.

De dezenas de jeitos, já falamos sobre como explicar o herói, estética, histórica ou filosoficamente. Formas elegantes de se abordar o que não nasceu pra ser elegante nem refinado – pelo menos, não fora daquele círculo de fãs e estudiosos de quadrinhos.

Mas queira você admitir ou não, tem um aspecto fundamental que nunca tivemos coragem de admitir, um lado mais “zé povinho” para a qual até acenamos, mas com inadmitido desdém.

Aqui jamais esquecemos, o herói é o proscrito que habita a periferia do senso comum, o rejeitado do imaginário social, o excluído da “boa sociedade”. Em outras palavras, ele é o protagonista da fofoca. E a fofoca, num mundo em paz, é o substituto da guerra.

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“Eu aumento, mas não invento”

Hein??

Explico.

Existe uma vertente da sociologia, razoavelmente consolidada em outras áreas, como nas Relações Internacionais, Antropologia e na própria História, que arrisca uma explicação para guerra. Não só no sentido técnico, militar, mas como função social. O conflito bélico, de larga escala, com o emprego de exércitos e investimento do Estado, nada mais é do que um “processo civilizador”. Ou seja, é uma dinâmica social, um jeito dos seres humanos se relacionarem entre si, assim como nas Olimpíadas, no ambiente de trabalho ou na “corte” (na acepção mais conhecida como “xaveco”).

Matar alguém na guerra é equivalente a dar um beijo em tempos de paz. São atos que “civilizam” (uma derivação do latim “civitas”, “comunidade”), ações que nivelam as pessoas dentro de um território comum. Um ponto de interação onde as duas partes se tornam “iguais” no contexto a que elas estão submetidas.

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A ideia não é nova nem revolucionária. São duas partes em busca de em um objetivo comum. A variação é como se dá essa interação. Para vencer um inimigo, você deve ter armamentos iguais (ou melhores) que os dele, pensar como ele, lutar como ele, o que é óbvio. Não raro, velhos rivais se tornam amigos ao fim da guerra.

Do outro lado da moeda, a atração dos pares culmina na, digamos, “catarse erótica” – preferivelmente com repetecos matinais. Nos romances do Ian Fleming, os opostos até viram amantes durante a guerra.

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“Você comeu alho?”

Essa dualidade foi personificada em duas divindades pelos filósofos clássicos, na forma de Thanatos e Eros (de onde deriva o conceito de “erótico”). Mas além dos aspectos niveladores, a guerra e a corte-xaveco, têm outra coisa em comum: por definição, os dois são atos de “delinquência”, estados de exceção que “ferem” a regularidade do cotidiano, da paz, da tranquilidade da comunidade.

Guerra e sexo são tabus, ou seja, limites, barreiras a serem senão evitadas, edificadas nas periferias das relações entre as pessoas. É fácil entender isso do ponto de vista da guerra. Mas tente imaginar as possibilidades de formar casais em uma sociedade que não permite a inclusão de parceiros de fora do círculo social. Em pouco tempo aquele círculo se tornaria uma endogamia incestuosa.

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Com resultados discutíveis

Remeter as contravenções a uma posição “geográfica” na subjetividade coletiva é intencional. São as encruzilhadas da civilização, o fim da picada que todos sabemos ou intuímos existir, mas “fazemos o possível para evitar”. Frequentemente a intenção é proteger crianças e idosos, os sujeitos preferenciais a serem salvos em qualquer barco com risco de afundar. Não por acaso, são dois públicos bastante suscetíveis à influência das “narrativas caucionárias”, os “contos da carochinha”. Em outras palavras, a fofoca.

Ora, enquanto a guerra e o sexo são expedientes sociais plausíveis no horizonte de possibilidades, uma comunidade vai fazer o possível para que o realismo dessas ações sejam varridas para debaixo do tapete. Afinal, nem a violência nem o erotismo são racionais, mas nem por isso são menos irresistíveis.

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Bem demonstrado por Milo Manara (não acesse se você for menor de 18 anos! Vai já chamar seu pai!)

Se – com razão – não se pode praticar a violência arbitrariamente nem se promover bacanais em praça pública, atos “odiosos” demais para serem vistos pelo senso público, a fofoca, seja como maledicência, ou exposição ridicularizadora, é a chave para entender uma civilização. Na ausência de guerras de larga escala é por meio da fofoca que se cria a idealização do proscrito, do “odiado”, o pária, o exilado das simpatias coletivas.

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Mas eis a questão…

Para quem lê quadrinhos, essas classificações, “párias”, “exilados”, “excluídos”, menos do que carregar uma conotação negativa, remete justamente ao seu oposto: são conceitos que denotam os heróis.

Todo leitor sabe que os X-Men são “um grupo de mutantes que juraram proteger uma sociedade que os teme e odeia”. Ou, depois dos filmes do Nolan, sabem que o Batman “não é o herói que a sociedade quer, mas o herói que a sociedade precisa.”, o vigilante caçado pela polícia de Gotham.

Ou ainda, todo leitor sabe precisamente a resposta quando perguntam num gibi “É um pássaro?? É um avião??”. Ora, um dos maiores motes das histórias do Homem-Aranha é justamente a relação problemática que Peter Parker tem com o Clarim Diário e o sensacionalismo contra o herói promovido por J. Jonah Jameson, editor do jornal.

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Estes são bordões e descrições que revelam o espaço que os heróis ocupam no imaginário social dos habitantes dos quadrinhos, daqueles que vivem dentro daquelas histórias. Se parece pouco, só em 2016 são dois filmes que exploram o tema do medo que as pessoas comuns sentem sobre a existência de sujeitos excepcionalmente poderosos caminhando sobre a Terra.

Para quem lê essas ficções, a fofoca, ou a exposição caluniosa dos personagens, serve não como um instrumento depreciativo, mas o contrário, como um poderoso recurso de identificação dos heróis entre os leitores.

Diferente da opinião parcial de quem está “dentro”, os leitores de “fora” sabem os motivos, as circunstâncias, o contexto e até os pensamentos daqueles que praticam ações, na sua maioria das vezes violentas, que aparecem nas histórias em quadrinhos. Eles serem “vítimas” da opinião pública nas histórias até torna os heróis mais simpáticos. Faz deles, paradoxalmente, mais humanos.

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Na vida real, a fofoca é um recurso social poderoso. Perpetuada de forma quase involuntária, ela mantém as pessoas “no eixo”, receosas de se tornarem o objeto de juízo provavelmente negativo.

Tal como a guerra, a fofoca é um território inóspito, árido, que incita crueldade, mesmo que os sujeitos envolvidos jamais tenham sombra de dúvida da sobriedade – ou humanidade – das suas ações. Assim como na guerra, a fofoca serve como um catalisador da civilização. Oferece um ponto de inflexão onde todos podem se posicionar homogeneamente a favor ou contra.

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Os heróis de quadrinhos, difamados pela fofoca, despertam sentimentos de humanismo e empatia entre os leitores pois eles acompanham o desenrolar das narrativas.

E no mundo real, a quais fofocas nos submetemos? O que elas dizem sobre você?

PS – (Quase) Nenhuma ideia aqui é original. Uma das melhores explorações do tema da idealização da proscrição, está na série Black Sails. Os capítulos finais da 2a temporada são uma aula de porque a sociedade precisa criar seus algozes. Imperdível.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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