AQUI ESTÁ TUDO QUE HÁ DE ERRADO COM O JORNALISMO DE QUADRINHOS – Parte 2

Leitores e leitoras,

Feliz 2015!

Desejamos a todos um ótimo ano.

Em especial você que tem como projeto para 2015 iniciar um blog de quadrinhos, segue aqui a segunda parte do “Guia de Boas Práticas” do Jim McLauchlin.

Um pouco de auto-crítica pode ajudar qualquer um...

Um pouco de auto-crítica pode ajudar qualquer um…

Se você não leu a primeira parte, clique aqui. Se você quer ler o texto original, em inglês, clique aqui.

Apenas vos lembro: Este texto é tradução do texto do Jim McLauchlin, mas contêm comentários e apontamentos, visando adaptar um pouco para a nossa realidade tupiniquin.

Você precisa de fontes, e pode ser difícil. E daí?

Vamos retornar ao primeiro ponto: Você nunca é a notícia. Você precisa de outra coisa para fazer aquilo noticiável. Você precisa de testemunhas, de especialistas, você precisa de pessoas envolvidas. Em resumo, você precisa de fontes.

Eu tenho a sensação de que muitos jornalistas iniciantes tem medo de dar o primeiro passo, de simplesmente dizer, “Oi João Artista. Estou escrevendo uma matéria para o algumacoisa.com, e gostaria de lhe fazer algumas questões.” Bem… isso é basicamente o único caminho pelo qual você pode começar. Dê esse passo. Lhe direi uma coisa: Nos últimos 26 anos eu trabalhei como jornalista em esportes, entretenimento, literatura, quadrinhos e política. Cerca de 99% do tempo, as pessoas querem ser entrevistadas. Elas têm algo a dizer. A família com o memorial de beira de estrada? Você pode apostar a sua bunda que eles tem algo a dizer sobre a sua filha e sobre o motorista bêbado. Dê esse passo. O pior que qualquer um pode dizer é “não”.

Algumas pessoas dizem “não”. E daí? Tente novamente, tente melhor, tente com mais entusiasmo, tente persistentemente. Uma reclamação comum que se ouve é “Bem, eu tentei falar com o Dan DiDio, mas ele disse que eu tinha que falar com o departamento de RP da DC primeiro.” Muitas pessoas simplesmente desistem aí, nunca tendo ligado para o RP da DC. LIGUE! Dan DiDio faz uma porrada de entrevistas todo ano. Você pode não conseguir algo agora, mas pode conseguir algo mais a frente. Inicie o processo, fique na frente das pessoas. Novamente, o RP está ali para te ajudar.

Sobre o ponto citado pelo Ron Marz de entrevistas enlatadas: Você tem uma obrigação com a sua audiência em perguntar coisas que você realmente pergunta. Uma entrevista “via email” não é uma entrevista—é uma consulta de posicionamento. E você, como um leitor, pode DEFINITIVAMENTE apontar as diferenças. Seja melhor do que isso. E para esse fim, tenha em mente que recapitular Twitter não é chamado “jornalismo”. Isso é chamado “Twitter”.

Uma variedade de fontes também é crucial, então você não estará contando apenas um lado da história. Um rápido exemplo, que eu uso menos por ego (eu acho!) e mais por que consigo falar bem especificamente do que ocorreu naquilo, é esta matéria sobre a Mulher Maravilha. Esta matéria, que em última instância lidava com o que Greg Rucka chamou de “o aspecto queer da Mulher Maravilha”, teve sete fontes diferentes: Três ex escritores da Mulher Maravilha, dois reconhecidos fãs da Mulher Maravilha, uma modelo fetichista que é paga para se vestir como Mulher Maravilha e um acadêmico que lida com questões de gênero. Isso é, eu penso e espero, um leque de fontes que podem proporcionar uma visão 360º.

Na falta de um especialista para consultar, existem livros de referência. Um exemplo é o "Shazam!" do jovemzinho aí da foto. Alvaro de Moya

Na falta de um especialista para consultar, existem livros de referência. Um exemplo é o “Shazam!” do jovemzinho aí da foto. Alvaro de Moya

Este ponto é um aprendizado para qualquer pessoa. Mesmo um blogueiro ou jornalista mais experiente deve sempre se lembrar de que é necessária uma fonte confiável. Encontrar essa fonte é mais fácil do que parece. Não acho que os desenhistas e roteiristas são pessoas inatingíveis.

Claro que falar ou entrevistar um artista de outro país sempre será um bocado mais difícil. Você pode ir até o lugar onde está o cara, o que custa caro. Você pode fazer uma ligação internacional, o que fará um custo menor que uma viagem. Você pode tentar uma ligação por videoconferência, o mais plausível e barato de todos.

Obviamente que chegar nessas possibilidades é bem dificil. O próprio Jim reconhece isso. A dica de McLauchlin é muito preciosa, e no caso do Brasil ganha uma função dupla. Pode-se entrevistar os desenhistas brasileiros primeiro. E é fácil de encontrá-los e entrevistá-los. Luiz Gê, Angeli, Laerte, Adão, Dahmer e tantos outros estão por aí. Podem até ser seus vizinhos.

Se apresentar à um cara de fora tendo um portfólio de respeito e reconhecimento, pode te abrir as portas. Fora que você mostrará aos de fora que você também reconhece e conhece os quadrinhos do seu próprio país. Abrir a cabeça e parar com chavões de que “só quadrinho dos EUA é quadrinho” ajuda muito. Inclusive para se superar esteriótipos de que é uma linguagem de criança. Convenhamos, jamais deve se dar Geraldão ou os Skrotinhos para uma criança.

Coisa boa, bem humorada e de altissima qualidade. Mas quanta gente mais poderia conhecer?

Coisa boa, bem humorada e de altissima qualidade. Mas quanta gente mais poderia conhecer?

Em geral, fotografias são horríveis.

Duas coisas me deixam louco em muitas fotos que vemos em muitos sites de quadrinhos:

  • A maior parte delas é roubada. Simplesmente roubada. São fotos arrancadas de outros sites os quais, sejamos honestos, não tem direitos a ela. Uma foto é uma criação distinta como qualquer trabalho de arte. O copyright é de posse do fotografo, a menos que ele tenha assinado um contrato com outras regras. Ponto. E eu estou um bocado cansado de ver pessoas se rebelando com tochas e forcados contra piratas que mantem sites de torrent e roubam as imagens para fazer camisetas no rebubble.com—e eles devem—mas ainda roubam os esquerdos, direitos e centros das fotos. Uma regra de ouro: não é por que você encontrou isso pela maquina do Google do Al Gore que significa que você pode roubar algo ou alterar como bem entende. O fotografo original, legalmente e moralmente, deve dar o seu consentimento, e ser compensado conforme ele entenda.
  • A foto “padrão” é a mesma, e é a pior. Se eu ver MAIS UMA FOTO DE UM CARA SENTADO EM UMA MESA EM UM ARTIST ALLEY SEGURANDO SEU QUADRINHO, GERALMENTE COM UM OLHAR MEIO ESTRANHO, ALGUÉM LEVARÁ UM TAPA POR ISSO! Essa foto, que nós já vimos milhares de vezes, é terrivelmente composta e nem mesmo chega perto de qualquer profissionalismo. Algumas dicas:
Uma foto ruim

Uma foto ruim

  1. EYE LEVEL: Coloque a câmera no mesmo nível que o sujeito da foto. A maioria dessas fotos de convenções são tiradas com o fotógrafo de pé e o sujeito sentado. É uma down-shot. Exceto quando feito com um fundo apropriado e com um objetivo dramático específico, é algo de tirar do sério. Não é o modo no qual nós nos relacionamos. Pense sobre isso: Se você está conversando e jantando com os amigos, estão todos sentados. Vocês estão todos no mesmo eye level. Quando você vai puxar assunto em uma festa, provavelmente ambos estarão de pé. Vocês estarão se olhando olho-no-olho. Esse é o modo como nos relacionamos uns com os outros. Faça sua câmera fazer o mesmo, e suas fotos instantaneamente serão relacionáveis e melhores.
  2. REGRA DOS TERÇOS: Não centralize o tema. Imagine uma grade do jogo da velha cruzando a sua imagem. Diacho, algumas câmaras já vem com esse recurso. Os olhos do sujeito da foto devem estar grosseiramente no topo da linha horizontal, com a face centrada em uma das linhas verticais, olhando para o espaço MAIOR. É totalmente melhor, e na verdade mais ativo, ter o sujeito em um perfil parcial—pense “dois olhos, uma orelha”. Isso dá ao sujeito da foto “espaço de diálogo”(Ei, exatamente como os personagens de quadrinhos precisam de espaço para os balões!) e uma pequena sensação de movimento e vida no que é uma mídia estática.
Uma foto boa!

Uma foto boa!

A parte mais bonita: Você não precisa acertar de primeira. Isso pode ser alcançado “na câmera”, ou na sua edição—e se você NÃO está olhando para as suas fotos de maneira crítica e editando apropriadamente, você está falhando com você mesmo! Ei, se eu, um neo-ludista*, posso fazer isso num iPhoto, então você também pode. Agora me dá licença que eu vou jogar meus tamancos de madeira em um tear.

As fotos mostram o artista Rick Rickman Celano e são alguns exemplos tirados por um publicitário de tempo integral e fotógrafo ocasional profissional, Buddy Scalera. Bud sabe o que ele está fazendo, então adivinhe? A foto “ruim” ficou assim de propósito, tirada para ilustrar o argumento. No caso de não obter sucesso quanto à “não roubar”, eu perguntei ao Buddy se poderia fazê-lo, e ele me consentiu. Temos uma lição aqui: Apenas pergunte. As vezes você encontrará pessoas que ficarão felizes de você utilizar as fotos delas, devidamente creditadas é claro. E você pode acabar fazendo novos amigos.

Até o amigo da vizinhança tira umas fotos bacanudas. Por que você também não tira?

Até o amigo da vizinhança tira umas fotos bacanudas. Por que você também não tira?

Essa parte é bem paulada. Agora começamos a ter eventos um pouco mais interessantes e com alguns novos níveis de interação. Vão surgir cada vez mais possibilidades de tirar as próprias fotos. Mas até lá, com certeza vale a educação e polidez de pedir.

No caso da imagem dos quadrinhos, o negócio é complicado e entraríamos numa discussão pesada sobre direitos autorais. E isso tudo é papo para outro texto. Inclusive pois seria necessário pensar a questão do chamado copyleft e o que é um uso comercial ou não da imagem. Acho que enquanto os blogs não gerarem uma receita contínua para os autores, não vejo grandes problemas.

Um pouco sobre as questões de direitos autorais na tira do nerdson aqui

Um pouco sobre as questões de direitos autorais na tira do nerdson aqui

MUITAS PESSOAS ESCREVEM “REVIEWS”, E ISSO É UMA PÉSSIMA IDEIA

Aqui está o meu argumento: 90% de todos as review de quadrinhos, a partir da palavra “então,” são perda de tempo. E aqui está o porquê:

A regra de ouro de qualquer resenha de um trabalho de arte é que essa resenha deve estar localizada em um contexto cultural mais amplo. Diga-me o que esse álbum, esse livro, esse filme, esse qualquer coisa, diz sobre nós enquanto sociedade. Diga-me o que a faz importante. Diga-me por que isso é arte.

Um trabalho deve ser completamente absorvido para poder ser comentado dessa maneira. E com todo o respeito aos criadores envolvidos, mas resenhar sobre a edição do Homem-aranha deste mês é como resenhar sete páginas consecutivas de Moby Dick… se o Herman Melville lançado o final ainda. Isso não é uma resenha de um trabalho completo. É apenas um pequeno clipping que não pode ser analisado ou criticado apropriadamente.

Existem algumas exceções, e são muitas. Quer resenhar Watchmen? Vá em frente. Ali há um trabalho completo. Até certo ponto (tamanho?) de qualquer quadrinho que se sustente sozinho ou coleção em capa mole de uma história que como um todo faça sentido. Mas o Homem-Algumacoisa #214 (parte 2 de 5)… o que você está de fato resenhando? Não tem nada ali, ao menos não por enquanto.

Certamente alguns podem discordar. Caspita, Ron Marz e John Layman discordam. Mas eles também encontram falhas graves com os reviews pelos espaços de quadrinhos.

“Alguns quadrinhos são mais fáceis de resenhar por causa do seu tamanho ou formato, mas eu penso que é justo resenhar edições separadas,” diz Layman. “Minha reclamação é que eu penso que 75% das, entre aspas, “reviews” são apenas sinopses. Não há crítica ali, ou, ainda pior, é apenas ‘bem, isso é o que eu penso que deveria ter acontecido’. Nesse ponto, não há crítica. É apenas você sonhando ser um roteirista de quadrinhos.”

Droga, Marz gosta de review, ao menos aquelas que se lançam a observar todos os aspectos do quadrinho.

“A maioria dos reviews não menciona a arte, ou na maioria das vezes, no máximo, uma frase ou um parágrafo”, ele diz. “Se há tão pouca atenção para a arte, isso invalida o review em mente. A arte é pelo menos metade do que nós fazemos nesse negócio, então se você não está falando sobre como a arte e a história trabalham juntos, você está fazendo apenas parte do trabalho.

Não dá para analisar o reino do amanhã sem olhar o trabalho do Alex Ross.

Não dá para analisar o reino do amanhã sem olhar o trabalho do Alex Ross.

Para fechar o texto de hoje nada melhor do que um pouco de arte. De fato, muitos analistas e escritores de comentários de quadrinhos acabam deixando de lado a arte. Pense quantos textos você não leu que eram apenas o autor falando sobre como a história se desenrolava.

É sim importante colocar o leitor a par da obra que você está falando. Inclusive por que é metade da obra. Mas é preciso ter a preocupação de contextualizar e dialogar. A nona arte já é renegada o suficiente. Algumas divagações e ponderações sobre essa dualidade foram feitas neste outro texto aqui.

O Picareta Psiquico sempre tem essa preocupação. Alguns textos dele são excepcionais nesse sentido. Até pela formação dele que é muito mais em arte. O que é positivo para caramba. A leitura de algumas indicações dele pode fazer você respeitar um bocado mais as complexidades e nuances.

Sexta que vem acaba este breve guia!

Se gostar, comente! Isso ajuda a pensar o texto. Colabora para a formação do conteúdo e instiga ainda mais a escrever.

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2 respostas para AQUI ESTÁ TUDO QUE HÁ DE ERRADO COM O JORNALISMO DE QUADRINHOS – Parte 2

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