Quadrinhos: o Filho Bastardo das Musas

Cada vez mais na atualidade tendemos a valorizar o trabalho audiovisual. Para entendermos isso precisamos começar numa discussão –  quase de fé – que vai muito fundo na nossa própria identidade e identificação.

Qual é o denominador que nos dividiu dos animais e nos tornou humanos?

homem-moderno

E evolução nos tornará babacas?

Para algumas pessoas é a escrita que nos tornou diferentes. Discordo. Acredito que o que nos dividiu foi o ato cognitivo, principalmente a contemplação. Foi a partir do que passamos a compreender e contemplar  que nos instigou a registrar e por sua vez transmitir pelo mais variados meios, a escrita sendo apenas um deles.

Os animais não param para ver um pôr do Sol. Assim como não compreendem e nem interrelacionam o pôr do sol a algum momento das suas vidas. Isso é coisa de humano. Humano que contempla, que assimila, que interpreta cognitivamente. E isso é independente da escrita. A escrita foi (e segue sendo) uma das maneiras mais completas e complexas para tal registro.

será que os egípicios já faziam um proto quadrinho?

será que os egípicios já faziam um proto quadrinho?

Civilizações puderam se desenvolver. Histórias puderam ser contadas e repassadas. Desenvolvemos raciocínio lógico. Compartilhamos com pessoas no futuro idéias que tivemos ou que nossos antepassados tiveram. Tudo graças a escrita. Poderia, supostamente, um ermitão ler todos os livros e ter todo o conhecimento do mundo. Mas se nos detivéssemos aí, todos os personagens e lugares seriam restritos ao referencial predecessor desse ermitão. Fomos então buscar mais. Fomos pintar as coisas. Fazer artes plásticas.

Inventamos técnicas cada vez mais inovadoras. Cores e materiais melhores. Telas, afrescos, pedras, esculturas, arquitetura, mosaico, vitrais. Usamos todos esses recursos para por aos outros as coisas que contemplamos, sejam elas compostas de pura realidade ou construídas a partir dos nossos referenciais. Não estávamos mais restritos ao que já conhecemos. E por isso fomos mais e mais aprimorando as artes visuais.

Foi graças a desenvolvimentos como o ponto de fuga que os desenhos e pinturas passaram a ter profundidade.

Foi graças a desenvolvimentos como o ponto de fuga que os desenhos e pinturas passaram a ter profundidade.

Chegamos ao ápice atual. O Cinema. A 7ª arte. A maior maravilha da contemporaneidade. O casamento da arte visual com o movimento e o som. A arte que te entrega pronta as sensações e te permite transcender na leitura e degustação de si própria. Uma linguagem que pode ser usada para discutir a mais profunda beleza, como no caso do filme A Grande Beleza de Paolo Sorrentino, que discute o que nos torna sublimes, o que nos torna humanos e o que é de fato a grande beleza da humanidade.

Mas assim como serve ao bem, serve ao mal. Por nos entregar tudo tão escancarado, anestesia nossa capacidade de criar, de descobrir de inquerir. Nos trás coisas horrendas como Centopéia Humana e Crepúsculo. Isso mostra que o cinema é uma mera linguagem. Mas é a filha rica das artes. É a que absorve todas as outras, pois as transforma em algo muito mais consumível e fácil de entender. Por isso grandes diretores não são fáceis de assistir, eles extrapolam o esperado.

Mas há um filho bastardo. O cinema deixou um rebento de lado e rouba muita inspiração, referência, temas e técnicas desse rebento, cada vez mais. Os quadrinhos seriam a fusão mais bela da dinâmica e da organização visual e temporal do cinema com a delicadeza e abertura criativa da literatura formal.

Os quadrinhos arrancam fora do cinema o que nos leva à inércia. Deixa de mastigar os sons e o tempo do movimento. Só nos quadrinhos é possível criar uma cena como a da sétima edição do Watchmen, quando só por referências intercruzadas você fala sobre duas pessoas nas preliminares ao mesmo tempo em que mostra um acrobata. No cinema os cortes atrapalhariam ou o tempo ficaria muito lento. Na escrita seriam páginas e mais páginas que tornariam a leitura enfadonha e perderiam o sentido simbólico.

Uma das páginas da sequencia

Uma das páginas da sequencia

Não que Watchmen seja o melhor quadrinho de todos os tempos, mas sem dúvida é um dos melhores já feitos. E justamente pela maneira exímia que a linguagem é utilizada é que ele se torna tão indiscutível. Pegando outros exemplo desse entrecruzamento é a cena do jogo entre Morpheus e Choronzon em Sandman, quando disputam pelo elmo. Coloco abaixo uma adaptação para audiovisual muito interessante, mas que não atinge o mesmo nível dos quadrinhos.

Por mais que se busque, se exercite e se insista, o cinema não pode e não vai ocupar o espaço dos quadrinhos. E Ettore Scola prova isso ao transformar um roteiro de filme em quadrinhos.  O prazer de ler, ter seu tempo para digerir cada imagem e poder voltar atrás. Poder devorar as cenas, ou se deleitar com cada quadro, como fazemos em uma exposição. Ter o direito de criar as próprias vozes, mas ter alí as imagens para nos lastrear.

Will Eisner já falava da beleza da arte sequencial, de como a supressão de pequenas passagens de uma cena a tornam uma arte tão única e própria, dando o tempo que o leitor precisa. Impede que ele apenas absorva e faz com que ele tenha que interagir. Assim como o Nerdbully falou sobre a fugacidade da informação e do conhecimento, acredito que, para ler um bom quadrinho, é preciso gerar, criar e reinterpretar o conhecimento próprio.

Quadrinho não é só informação.

É filho bastardo das musas gregas. É a 9ª arte.

Um exemplo de uma série que mereceria que cada quadro fosse impresso em uma folha A2 e colocado para lermos em uma imensa exposição

Um exemplo de uma série que mereceria que cada quadro fosse impresso em uma folha A2 e colocado para lermos em uma imensa exposição

 

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11 respostas para Quadrinhos: o Filho Bastardo das Musas

  1. Velho Quadrinheiro disse:

    Ora, mas que belo ensaio!

  2. O cinema é a sétima arte, não a oitava.. De resto o texto está ótimo.

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