Informação, conhecimento e a indústria da visualização: um editorial quadrinheiro

Não é novidade que vivemos em mundo saturado de informação e em grande parte (se não totalmente) isso se deve ao desenvolvimento da internet. Nunca foi tão fácil encontrar informação e, ainda que cerca de 37% dos domicílios do planeta não possuam acesso à internet, esse número vem caindo ano a ano. Prova de que a enxurrada de informação a que estamos expostos só tende a aumentar.

Mas informação não significa conhecimento. Estar informado é saber algum dado sobre determinado fato ou circunstância, mas ter conhecimento implica em uma relação do sujeito com a informação, um trabalho ativo da mente que estabele conexões, relações, paralelos etc. entre as as informações que possui, atribuindo um significado para as informações retidas. Portanto, a informação é a matéria-prima do cohecimento, não se pode ter um sem ter o outro.

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Mas e daí? Isso é um blog sobre quadrinhos e cultura pop. Sim, mas precisava desse preâmbulo para entrar no assunto do dia. Dando uma olhada em sites de notícias de quadrinhos e cultura pop, eis algumas das notícias que vi:

Batman e Superman: helicóptero de Lex Luthor aparece no set do filme

Bourne: Matt Damon pode protagonizar o quinto filme

Planeta dos Macacos: macaco aponta arma para homem em novo trailer do filme

Batman: saem rumores sobre o possível novo filme solo

Olhem para essas informações. O que elas indicam? Absolutamente nada. Reparem que a informação sobre a sequência de filmes do Bourne e do Batman nem mesmo concretas são, mas meras especulações. Esse é o efeito da overdose de informação: informações que não servem para nada, a não ser para uma coisa: gerar cliques.

Não só a indústria do entretenimento tem dificuldade em lidar com a internet, mas também a da informação. Num mundo onde podemos baixar as séries, filmes, livros e quadrinhos que queremos quase sem dificuldade, por que devemos pagar por eles? Do mesmo modo, por que eu deveria pagar por informação?

Mas essa dificuldade está sendo sanada pela indústria da informação de duas formas: Opção 1. foda-se, pague a informação se você quiser. E Opção 2. a informação é de graça, mas há propaganda nas páginas que você acessa e também podemos dizer que há uma Opção 3. pague e ainda por cima receba anúncios.

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Em qualquer uma das saídas encontradas o efeito é o mesmo: essas empresas têm que manter você clicando na página. Veja, não importa se você lerá a notícia, ou mesmo se ela serve para alguma coisa, o que importa é seu click e nada mais. Clicou, gerou uma visualização, pronto. Se clicar na propaganda, tanto melhor. Se clicar e comprar, parabéns: você é o chamado público-alvo, o target visado.

Isso, obviamente, gera algo como o click pelo click. Aposto que qualquer um que ler isso já clicou em alguma notícia ou post pelo título atraente, ou pela imagem e quando viu a notícia de fato percebeu claramente que foi enganado, ou ao menos levado a uma interpretação errônea da informação contida na página acessada.

Pois bem, o ponto aqui é: essa saturação de informação e a consequente política do click pelo click está impedindo a construção de conhecimento. Mas alguém poderia argumentar que, com o devido trabalho da mente, qualquer informação pode virar conhecimento. Isso é correto?

Sim e não. Sabe-se que não é qualquer matéria-prima que se transforma em qualquer coisa. A qualidade da argila utilizada é fundamental para a boa qualidade da cerâmica. Logo, o conhecimento produzido depende em grande parte da qualidade, veracidade etc. da informação obtida.

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O click pelo click, que gera notícias vazias e sem sentido, além de dificultar ou impossibilitar a produção de conhecimento tem outros efeitos derivados, talvez mais nefastos ainda. Entrem em qualquer site de notícias e olhem o nível dos comentários ali. São algo do tipo “Isso é legal”, “Isso é uma bosta” etc. Não há nenhum tipo de debate, apenas constatação.

Quando há outros tipos de textos nesses locais, um pouco mais trabalhados, como resenha, onde a pessoa que está escrevendo gera um juízo de valor sobre um quadrinho, filme etc. o negócio é pior ainda. Os comentários ficam no nível do automatismo concordo-discordo, sem mesmo argumentos que embasem tal opinião. Ao simplesmente concordar ou discordar sem argumentos, trava-se qualquer possibilidade de debate.

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Nesse ponto fico orgulhoso do nosso trabalho aqui nos Quadrinheiros. Só para citar um exemplo, há algum tempo escrevi um texto criticando uma obra-prima dos quadrinhos, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Fui muito xingado e ainda devo ser por esse texto, mas 95% das “críticas” ficaram no nível do juízo de valor “O que esse cara está falando é só merda” ou do automatismo “Não concordo, a obra do Miller não é isso”, sem nem argumentar. Mas os comentários que foram publicados aqui no blog sobre o texto são (na sua maioria) interessantes. Nem todos concordaram, nem todos discordaram, mas há um debate interessante ali. E note que ninguém é obrigado a mudar de opinião (embora isso possa acontecer), mas com certeza um debate com argumentos sólidos só aumenta o conhecimento dos que participam dele e isso por si só já é algo válido.

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Aqui, como você já deve ter notado, não é um blog de notícias, embora às vezes comentemos algumas, o plano aqui é levar com você, leitor, algo como um misto de papo de boteco e artigo acadêmico, sem cair para a bobagem pura e simples nem para o academicismo, ainda que em alguns posts a balança penda mais para um lado que para o outro. Gosto de pensar que se não ganhamos em hits, nossos acessos aqui são de pessoas interessantes e interessadas no que temos para dizer, o que não obrigatoriamente significa que concordam conosco, mas que gostam de refletir sobre quadrinhos e cultura pop. Uma espécie de Aliança Rebelde contra o Império de informações vazias da internet.

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Sobre Nerdbully

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2 respostas para Informação, conhecimento e a indústria da visualização: um editorial quadrinheiro

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