Por que os quadrinhos negam a religião? O caso “A Era do Apocalipse”

pentecostes-iluminuraJá dissemos aqui, quadrinhos são um paradoxo dos nossos tempos. Eles combinam duas coisas que seriam incoerentes: o mito, que narra uma história fechada, e o folhetim seriado, uma narrativa de longa duração marcada por vários “falsos finais”.  O resultado é uma espécie de sagrado profano, algo entre a Bíblia e novela.

Os mitos são aquelas histórias recheadas de ensinamentos implícitos. Mostram os limites e as regras de funcionamento de uma sociedade ideal ou passada. Essa realidade é sempre utópica (utopia = o “não-lugar”). Os ensinamentos são mostrados por meio dos atos e exemplos dos heróis.

Não é raro, os narradores de mitos são imputados com o verniz do sacerdócio. Quem conta essas histórias viram apóstolos e profetas da “verdade”. As narrativas cristãs são o exemplo perfeito (subtrair ou humanizar a santidade de algum autor dos livros do Novo Testamento, por exemplo, é garantia de apedrejamento pelos populares).

life-of-brian

Populares, aguardamos sua visita nos comentários. Abs.

O folhetim é a novela habitada por seres humanos comuns, como eu e você. Eles vivem em um cotidiano ordinário, trivial, entrelaçado de outras vidas e contratempos. Estas histórias culminam em um final determinado pelo sucesso do enredo (quanto mais sucesso, mais distante o final). Seus narradores, quando têm sorte, são alçados ao status de gênios artísticos.

fernanda-montenegro-e-paulo-autran-1922-2007-jogam-comida-um-no-outro-na-novela-guerra-dos-sexos-1983-1350321918279_525x365

Como se fosse uma estrada principal, a Marvel e a DC são o grande pavimento dessa narrativa singular. Claro, há uma infinidade de ruas e avenidas vicinais, que levam a outros caminhos, outras histórias e outros rumos criativos. São os diferentes gêneros. Mas o fato de todos os leitores, do mais iniciado ao mais iniciante, reconhecerem os símbolos máximos das duas grandes editoras (Superman, Homem-Aranha, Batman, X-Men…) assinala a importância, mesmo que à revelia, que essas histórias exercem no imaginário coletivo.

Sendo assim, o que esse imaginário coletivo diz sobre o tempo que vivemos?

Na estranha combinação de sagrado e profano, possivelmente o tema mais frequente nas histórias das duas grandes editoras é a ameaça do fim do mundo, o juízo final, o Armagedon, tema religioso por excelência.

Como descreveu São João,

“[…] E sobreviveram relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra. Tal foi o terremoto, forte e grande. E a grande cidade se dividiu em três partes, e caíram as cidades das nações.” Apocalipse, 16:17-21.

img194

Só este ano, o Superman já impediu a destruição da Terra umas 11 vezes. O Batman, pelo menos uma, mas porque é onde está Gotham City. O Quarteto Fantástico fez o mesmo pelo menos cinco vezes entre o café da manhã e o chá da tarde. Salvar o universo da destruição é a descrição de emprego do mais ocioso Lanterna Verde. Os Vingadores foram comer shwarma quando terminaram o serviço. Chega a ser banal, visitar o apocalipse virou mote inesgotável para os quadrinhos mainstream.

maxresdefault

Não é por acaso. A idéia de “fim da história” é um excelente palco para testar a fibra dos heróis. Alguns dos melhores arcos dos X-Men são justamente aqueles que exploram esse tema.

O primeiro grande impacto foi sentido na saga da Fênix Negra, de 1976-1980. Mais tarde, o apocalipse foi mote de novo em Dias de um Futuro Passado, de 1981, que virou filme este ano. Nas duas, os heróis não têm apenas que derrotar vilões; eles têm que remediar o apocalipse em dois cenários: a obliteração da terra pela Fênix ou o extermínio dos mutantes sob a ditadura dos robôs Sentinelas.

X-Men-Days-of-Future-Past-comic-cover

dark-phoenix-1

 

Se sutileza pouca é bobagem, em 1995 (1997 no Brasil) começou o arco Era do Apocalipse, em que os X-Men sofreram o pior dos cenários: realidade em que Charles Xavier morreu antes de criar sua Escola Para Jovens Super-Dotados.

76-7643-KX9G300Z

 

Com a ausência de Xavier, não houve uma reação às ações do vilão Apocalipse. Com o auxílio dos seus quatro cavaleiros, devastou a Terra ao longo dos anos, tornou-se soberano absoluto e impôs o extermínio do Homo Sapiens. Os únicos que desafiavam à ordem são um grupo maltrapilho de X-Men liderados por Magneto, que se incumbiu de levar adiante os sonhos de Xavier.

aoa08

Na essência, A Era do Apocalipse retratava a realização de todos os piores cenários que os super-heróis tentaram impedir. Os sobreviventes, tanto quanto o mundo que viviam, foram mutilados pela guerra. Nessa altura não há entre eles mais do que um resquício de moralidade, reduzida ao seu mínimo denominador, salvar o pouco que ainda resta.

A possibilidade de vitória, as revistas mostravam, era mínima. A única solução possível seria voltar para o ponto de convergência onde tudo deu errado, o momento da morte de Xavier na juventude. Se falhassem, não só o mundo seria destruído nas mãos de Apocalipse, mas todo o universo seria apagado da existência por força do Cristal Mikraan. Não se tratava apenas do Juízo Final, era o fim da história.

AOA-Omega-Roger-Cruz

Você que não leu, ganha um brinde se adivinhar o desfecho

O “fim do mundo”, como concepção religiosa, é anterior à fundação do Cristianismo. Mas foram os Concílios medievais que reuniram e oficializaram as diferentes versões que definem o apocalipse. Escatologia, milenarismo, a chegada da “Cidade de Deus” de Santo Agostinho… Os nomes poderiam variar mas a ortodoxia cristã definia que haveria um ponto final da humanidade, um reflexo sistêmico da finitude da vida dos homens.  Obviamente, trata-se de uma imagem perturbadora.

terminator-2

Amplamente referenciada em outras mídias

Esta doutrina descreve o caminhar da humanidade, um período de (discutíveis) mil anos, na direção da “parúsia”. A parúsia seria o momento em que Cristo retornaria uma segunda vez e selecionaria, entre os vivos e os mortos, aqueles que seriam salvos da destruição. Este momento seria reconhecido por um estágio de saturação da civilização. Seria um auge com gosto amargo, a Babilônia.

fall2

As histórias em quadrinhos, como em Era do Apocalipse, flertam abertamente com essa percepção religiosa. A Nova York de a Era do Apocalipse é claramente uma Babilônia decadente, mergulhada em excessos, vícios e vulgaridade.

Mas há um porém: não só em A Era do Apocalipse, as aventuras dos heróis retratam a recusa da parúsia, a negação do Juízo Final, o esforço obsessivo para impedir o Apocalipse.

É óbvio, a demanda de mercado exige que as histórias em quadrinhos de super-heróis sejam contínuas e renovadas, assim como os leitores. Mas esse – o fator econômico – é só uma maneira de explicar. O esforço de impedir o fim do mundo, e a aceitação dessa ideia por milhões de leitores espalhados pelo mundo, não sugere outra explicação?

omega4

Aqui vai uma: os quadrinhos mainstream dão vazão à recusa das finitudes. Dão voz à rejeição de tudo aquilo que tem um começo, meio e fim, matéria da qual a religião também trata.

Não, não há nenhum juízo de valor sobre isso. Cada leitor sabe o espaço que deve dar a essas histórias. Mais ainda, só ele sabe se é possível conciliar tais narrativas, que são amortizadoras de tensão, com o sagrado espiritual, cujo significado só pode ser individual. Aqui, a opção da casa é não ignorar que essa tensão existe.

lucifer

Ou você pode largar tudo e se esticar numa cadeira de sol.

Anúncios

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
Esse post foi publicado em Velho Quadrinheiro e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

13 respostas para Por que os quadrinhos negam a religião? O caso “A Era do Apocalipse”

  1. Diego Borges disse:

    Desculpe o pseudo-palavrão mas não me deixa escolha: PQP! Esse foi um dos melhores artigos daqui que eu já li! Por diversas vezes eu já tentei tratar esse tipo de conversa sobre a importância da constante releitura do mito do herói e eu nunca tinha conseguido ir tão longe.

    O máximo que conseguia me fazer entender era com o paralelo entre Superman e Dragonball e suas referencias ao cristianismo.

    Parabéns!

  2. Antes de mais nada, meus parabéns… Eu tenho esse mesmo pensamento, mas seguindo por outra linha: nesse mundo em que vivemos, onde a religião tem sido cada vez mais negada (claro que existem os “ateus modinha”, mas não é esse o ponto….), existe a necessidade em todos os graus da população de encontrar um novo mito, um novo messias. E os quadrinhos, uma mídia que se expande cada vez mais e é “interminável”, vai ocupando esse lugar, bem como a própria literatura. Por exemplo, Harry Potter, que pode ter seu sucesso analisado pelo viés de as pessoas precisarem ter o sentido de “magia”, de algo que está fora do seu controle, para conseguir ter mais “força” pra viver. É uma discussão longa, claro. Mas incrivel 🙂

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Eduardo,

      essa negação é justamente um dos fatores que provoca o “mal-estar da modernidade” que Freud e Jung observaram no início do século XX. A “civilização”, tão confiante na técnica e na ciência, alijou a humanidade das fantasias e manifestações simbólicas que eram “naturais” nas sociedades pré-industriais.

      Humanos que somos, precisamos dessa catarse mítica, religiosa, simbólica, mas que acaba sendo reprimida em nome da razão.

      Interessante é o digamos, “ateu modinha”, absolutamente viciado em quadrinhos, Harry Potter, Star Wars, Matrix… Esse sujeito é a alegria do terapeuta! =D

  3. Olavo Lima disse:

    eu sei que o magneto tem a propria religião dele e antes de ser mutante era judeu uaha,mas existe um site com a lista das religiões de todos os personagens de quadrinhos

    http://www.comicbookreligion.com/

    me lembro que houveram historias do kyle rayner na fase que ele era o ion onde foi abordado o fanatismo especialmente sobre a igreja do superman e do lanterna verde onde eles eram adorados como deuses e alguns herois como o thor tem realmente essa vertente,no universo 2099 a igreja de thor era a maior religião do futuro mesmo os asgardianos estando teoricamente mortos

    curti muito o seu artigo

    um grande abraço

  4. André Luiz disse:

    Os últimos dois parágrafos do texto resumem a ideia principal e oferecem uma espécie de cliffhanger para um próximo texto, o que me fez pensar se isto foi proposital ou uma forma de metonímia sobre o tema abordado. É uma pegada interessante esta ponderação de que a mítica dos super-heróis possui mais similaridades com os aspectos internos de uma religião do que sonha nossa vã filosofia, ao invés de comparar super-heróis a deuses e semideuses, mas com um elemento humano correndo pela tangente – o que remete a um livro chamado “Nossos Deuses São Super-Heróis”, de Christopher Knowles, obra que começa bem e se torna bastante tendenciosa até chegar a última página.
    Por outro lado, este texto reflete o que fora discutido em seu texto anterior e, mais uma vez, reconhece que a nona arte não fica a dever nada a suas nobres irmãs, desde o quesito de como se contar histórias revitalizando e amalgamando símbolos e referências como na questão de fazer com que o homo sapiens explore o poder da imagem e da palavra concomitantemente com o da interpretação e da reflexão a partir de diferentes referenciais.

    P.S.: Se deixei passar em meu comentário de seu texto anterior que vejo as HQs como mero divertimento frugal, imediato e sem maiores consequências em minha maneira de ser/estar, faço aqui minha retratação: concordo com suas palavras lá e aqui, e acrescento que quando temos em mãos algo que consiga conciliar tão magnificamente o binômio palavra/imagem, não como uma justaposição entre termos que se aproximam, mas na tentativa de se criar algo novo e poderoso, torna-se uma pena que as demais pessoas – ou melhor, o público leigo – só as reconheça quando estão na fila do cinema, com um balde de pipoca em uma mão e um copão de refrigerante na outra. Pelo menos, existe a produção de reflexões e o compartilhamento pela rede, o que pode alcançar em algum ponto, em algum momento estas “pessoas desgarradas”.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      André,

      não sei o cliffhanger foi proposital, mas pensando muito tempo nas mesmas coisas acabei fazendo dois textos que se completam! (Lisonjeiro pacas saber que alguém notou isso, valeu!)

      Não conheço o Christopher Knowles, vou procurar. Quando comecei esse negócio de estudar quadrinhos li muito Joseph Campbell, que levou a Freud, Jung, Fromm e tantas coisas mais. Tudo considerado, acabei sedimentando a ideia de que quadrinhos são uma manifestação catártica de uma religiosidade latente, que a modernidade acabou reprimindo em nome da racionalidade, das instituições oficiais, a escola, a fábrica, a universidade, o Estado.

      Mesmo que pareça “leviano”, com o balde de pipoca e o copo de refrigerante, o ato de seguir, religiosamente, os lançamentos de filmes de heróis, assim como acompanhar as edições de quadrinhos a cada mês, me parecem muito semelhantes ao solene ato de entrar numa igreja e acompanhar homílias.

      Fico pensando o que muitas crianças devem aprender primeiro, o Pai-Nosso ou o nome do alter-ego da Liga da Justiça…

  5. Pingback: Das histórias que não se deve esquecer: Liga da Justiça de Grant Morrison | Quadrinheiros

  6. Stefano disse:

    complemento !

  7. Pingback: O futuro passado: quadrinhos, sismógrafo do amanhã | Quadrinheiros

  8. Pingback: Todas as referências para entender X-Men: Apocalipse (ou quase) | Quadrinheiros

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s