PARODIAR: Um ato de amor pelas histórias (ou “O Quotista não sabe fazer trocadilhos”)

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A revista Clássicos do Cinema – Turma da Mônica já está no número 46, mas poucas vezes chamou tanta atenção quanto agora. E é muito fácil entender por quê: O Senhor dos Pincéis. Para não tirar a graça de quem ainda vai ler e não ter que ficar dando alerta de spoiler, só vou adiantar que (1) a arte está muito mais caprichada do que o normal, (2) os trocadilhos também são mais infames do que a média, (3) você vai se divertir com todos os easter eggs espalhados nas 45 páginas de história e (4) a espera pela continuação da história pode ser mais angustiante do que foi com os filmes, porque nem o roteirista, nem o editor, nem mesmo o Mauricio e muito menos a Panini (sobretudo a Panini) têm idéia de quando isso vai acontecer.

transfofosComo o nome já diz, a idéia de Clássicos do Cinema é pegar carona no sucesso (e na rentabilidade, claro) de grandes produções cinematográficas. Os filmes nem sempre são recentes e nem sempre são bons (de verdade, muitas vezes a paródia é muito melhor — mesmo), mas geralmente rendem boas histórias e, de vez em quando, discussões interessantes.
tronicaA primeira edição de CdC-TdM que realmente gerou barulho fora do circuito monicólatra foi Trônica (nº. 32, junho de 2012), que parodia Tron e Tron: O Legado numa só história. A discussão girou em torno de um quadro em que várias personagens de games são reproduzidos como figurantes, algo muito comum nas várias edições da revista. As opiniões se polarizaram entre encarar a história, particularmente esse quadro, como plágio ou homenagem. Com argumentos bastante razoáveis dos dois lados, diga-se de passagem. De fato, os limites entre inspiração, referência, homenagem e plágio são muito sutis. Nós mesmos já tentamos estabelecer a diferença num dos episódios da série Quadrinheiros Explicam e o Picareta Psíquico também já propôs uma reflexão bem abrangente sobre o tema.
trapalhoes02_01_zps5629e880Se você não começou a ler quadrinhos ontem, certamente já encontrou várias paródias de cinema e TV pelo caminho. E não só da Turma da Mônica. O pessoal que passou dos 30 certamente tem na memória uma lembrança carinhosa de pelo menos uma das muitas paródias publicadas nos gibis d’Os Trapalhões, tanto na versão adulta (Bloch, 84 edições, 1976-1986) quanto versão mirim (Abril, 51 edições, 1989-1994). Aliás, da série produzida pela Abril, conta-se nos dedos as edições em que a primeira história não era paródia de algum filme ou série de TV. De uma mão só.
APR100837-03A Disney também vem usando cada vez mais o recurso da paródia. Até duas décadas atrás, elas eram quase todas baseadas nos filmes da própria Disney. De uns tempos para cá, porém, o leque se abriu bastante, até porque as melhores paródias são feitas em cima de filmes mais sérios, coisa que a Disney não tem mais produzido diretamente.
E tem a Mad. (Nenhum comentário é necessário).

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Paródias existem porque toda a história é parcial. Por mais bem-contada que ela seja, sempre há a possibilidade e o desejo de se reconstruir a narrativa com novos elementos e perspectivas. Parodiar uma história, qualquer que seja o formato original, tem sempre a função de exercitar nossa capacidade de contemplar a mesma situação por pontos-de-vista diferentes, não-convencionais e até inconvenientes, geralmente para nos fazer rir. Se tudo der certo, parodiar histórias e rir delas nos ensinará a ter um olhar menos severo e mais divertido sobre nossa própria vida, mesmo que ela nunca vá parar no gibi
Há quem não goste de paródias, claro. São aquelas pessoas que se sentem desrespeitadas, que qualquer pequena brincadeira que se faça é uma violência contra o esforço criativo dos autores do original, que levam a coisa toda e a si mesmos a sério demais. E irritar essas pessoas se torna mais um bom motivo para se fazer paródias.
Last, but not least, a paródia talvez seja a única chance de salvar uma história ruim, mesmo que ela não mereça.

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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