Lanterna Verde- Crepúsculo Esmeralda, uma lição que você nunca quis aprender

Caro leitor incauto, saiba você que a década de 90 é famosa por ter produzido muitos dos piores quadrinhos desde o surgimento dessa fina linguagem. Alguns exemplos não deixam mentir. Youngblood (Liefield!!), Super-Homem morto (mas que volta cabiludo), Glory (plágio da Mulher Maravilha), Batman de armadura (Jean Paul Valley), Cyber Force (plágio de X-Men), Capitão América de armadura, Aranha Escarlate…

Os anos 90 foram um arquipélago de plágios, uma manada de bobagens, um cardume de fracassos, uma vara de deslizes, uma constelação de desacertos, uma farândola de equívocos, uma alcatéia de cagadas.

Fomos todos juntos pro inferno

Fomos todos juntos pro inferno

Contudo, no meio de tanto lixão, algumas jóias raras foram garimpadas! D’elas, uma das melhores histórias não celebradas pela memória dos especialistas em quadrinhos: Lanterna Verde – Crepúsculo Esmeralda!

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Ora, mas por que essa história, tão perfeita, não ocupa o devido espaço no pódio das melhores histórias dos quadrinhos que é o seu lugar? Porque ela diz aquilo que ninguém quer ouvir. Porque ela mostra que não existem heróis de verdade.

Aos fatos:

– Crepúsculo Esmeralda (encadernada e publicada pela Panini no Brasil e anteriormente no formatinho pela Abril) foi publicada nos números 48 a 50 da revista Lanterna Verde em 1994;

– A história se passa pouco tempo depois da morte e retorno do Super-Homem. Naquele evento, Coast City, a cidade natal de Hal Jordan, o Lanterna Verde, é totalmente devastada pelo vilão Mongul;

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– Hal Jordan, violentado física e emocionalmente com a morte de todos os seus amigos, pira de vez;

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– Hal Jordan, afundado em depressão, usa a energia do anel para produzir uma simulação da cidade e das pessoas que viviam em Coast City, a começar pelo pai;

–  Os Guardiões do Universo, chefes do Hal Jordan, revogam o posto deste Lanterna Verde porque usou o anel para fins pessoais (cá pra nós, usou o anel como se fosse algum tipo de entorpecente);

– Hal Jordan, emputecido, parte em direção à Oa, planeta-sede dos Lanternas Verdes e dos Guardiões;

– Hal Jordan parte a cara de cada Lanterna, amigos dele, que estavam no caminho de Oa e rouba os seus anéis;

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– Hal Jordan, outrora o maior dos Lanternas Verdes, assassina brutalmente Kilowog, um de seus melhores amigos, assim como Sinestro e todos os Guardiões do Universo;

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– Hal Jordan, um dos maiores heróis da Terra, mergulha na bateria central de Oa, fonte dos poderes de todos os Lanternas Verdes do universo.

– Hal Jordan, um ícone da ética, defensor da justiça, dos indefesos, uma força a serviço do bem, arma dos Guardiões do Universo, se transformou em Parallax.

– Parallax está acima das regras, da moral, do bem, do mal e da justiça, pois ele tem mais poder do que qualquer ser vivo já teve antes e nenhum velho Guardião pode reprimi-lo;

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– Parallax queria um universo melhor, nem que precisasse destruir a realidade como tal.

Claro, Crepúsculo Esmeralda estava dentro de um contexto editorial maior, serviu como plataforma de outra grande saga da DC, Zero Hora. Mais ainda, os efeitos e prejuízos que Jordan perpetrou a partir dali foram remediados nas sagas produzidas por Geoff Johns anos depois. Hal Jordan teve sua reputação e status restaurados, seus atos perdoados pois ele estava “possuído” pela “impureza amarela”. Mas isso não deve, não pode, e não tem como diluir a excepcionalidade auto-contida dessa história.

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Havia décadas que Hal Jordan já era estabelecido como um paladino da justiça, representante de uma autoridade superior, institucionalizada e reconhecida, os Lanternas Verdes. Estes, saiba leitor incauto, são um exército de agentes da ordem espalhados pelo universo ficcional da DC.

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Traço peculiar é que os poderes de um Lanterna Verde não vêm apenas do anel que lhes dão o nome. Mas são oriundos da força de vontade pessoal e da capacidade de sobrepujar o medo. Jordan tinha esses dois em abundância: uma inigualável força de vontade e uma irrefreável força para superar o medo.

Nada é mais consistente com o personagem do que os eventos narrados em Crepúsculo Esmeralda (a despeito do que tentou fazer Geoff Johns com o herói redimido anos depois). Mais do que “vilanizar” Hal Jordan, Crepúsculo Esmeralda mostrou o crescimento linear de um personagem com inegável similaridade com um ser humano real. Em choque com a perda de tudo aquilo que prezava, o herói percebeu que estava a serviço de uma ilusão.

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Esta mentira, a qual serviu com tanto rigor por tantos anos, era simples e cruel: não havia “autoridade” ou instituição superior totalmente benevolente, completamente sábia, inteiramente justa. Havia apenas seres mais velhos, mais antigos, cujas razões (e ressentimentos) pessoais tinham comprometido os laços com aqueles que mais precisavam de atenção, no caso, o traumatizado Jordan. A falha foi recíproca.

Crepúsculo Esmeralda, por todos os seus méritos, teria menos importância se fosse um tratado sobre psicologia, pois afastaria leitores e ficaria empoeirando numa biblioteca esquecida. Da mesma forma, teria menos importância se fosse narrada com personagens não regulares, pouco conhecidos, em um “universo alternativo” estéril e isolado, como fez Alan Moore em Watchmen. O impacto dessa história é mostrar que um herói conhecido, caracterizado por uma força de vontade inexaurível, é capaz dos atos mais nefastos ao mesmo tempo que é absolutamente fiel aos princípios que sempre jurou defender.

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Os excessos de Jordan foram resultado da força de vontade que o cegou para a perda. Invés de aceita-la, ele culpou os velhos Guardiões. Invés de se exilar, ele escolheu agredir. Afinal, quando é a hora de parar? Nenhum herói, pai ou instituição vai dizer. Essa é uma das lições mais duras que um quadrinho já ensinou.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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14 respostas para Lanterna Verde- Crepúsculo Esmeralda, uma lição que você nunca quis aprender

  1. sergionova disse:

    Permita-me discordar de um ponto específico: Jean Paul Valley foi uma das personagens mais bem construídas que já vi, tanto em termos psicológicos quanto ambientais, com argumentos bens construídos. Até um inimigo como Bane, que poderia facilmente ter sido uma personagem caricata, tem personalidade interessante. Falam mal da armadura de maneira quase ideológica, mas uma análise honesta nos obriga a reconhecer que ela faria muito mais sentido do que simplesmente vestir uma fantasia e dar a cara a tapas numa cidade como Gotham City. O cara não duraria dois dias.

    • Nerdbully disse:

      Pois é, Bruce Wayne é foda, quem não aguenta… bebe leite ou usa uma armadura, vide Homem de Ferro, Jean Paul Valley e afins. kkkk

      Mas, falando sério agora, na época em que li a saga até gostei do Jean Paul Valley, mas a decisão do Batman em torná-lo herdeiro de seu legado não fez e não faz o menor sentido. Nesse ponto curti mais fase do Dick Grayson como Batman com o Morrison em Batman & Robin.

  2. Olavo Lima disse:

    achei crepúsculo esmeralda foda pela primeira vez até então eu vi o hal jordan com personalidade e bem humano (ao contrario da personalidade genérica dele até então) e querendo ou não apesar de todas as alterações serviu de base para tudo que fizeram depois com os lanternas verdes

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Concordo inteiramente!

      Crepúsculo Esmeralda recolocou Hal Jordan no mapa! Antes disso, mais importante era a Tropa dos Lanternas Verdes, que no Estados Unidos tinha revista própria e poucas chegaram a ser publicadas no Brasil.

  3. God Zamiel disse:

    O lanterna verde é um dos meus heróis preferidos. Adoro como seu poder é manifestado pela imaginação.
    Nota: Eu pessoalmente gostei do Batman de Jean Paul Valey. De como procurava a perfeição optimizando o seu fato e de como Bruce Wayne volta para tomar o seu lugar como cavaleiro das trevas, derrotando diversos mestres de artes marciais até provar a si mesmo estar preparado.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Cara, como recurso narrativo minusculíssimo eu até concordo que a presença do Jean Paul Valley fazia sentido. Mesmo que fosse indicado pelo Bruce Wayne, era um “usurpador” a ser vencido pelo The Batman, uma montanha a ser escalada pelo verdadeiro cavaleiro das trevas.

      Mas dizer que Jean Paul Valley é MELHOR que o Bruce Wayne (coisa que vc não fez, que fique claro), é um insulto descalabrado! Heresia!

  4. Pingback: Guerra dos Roteiristas E02 – Geoff Johns X Brian Bendis | Quadrinheiros

  5. Para se redimir do filme do Lanterna Verde, só a DC fazendo essa saga virar um filme.

  6. Alessio Esteves disse:

    Bom texto, cara. parabéns!

  7. Alessio Esteves disse:

    A discussão ficou boa aqui, caso queira acompanhar! https://www.facebook.com/alessio.esteves/posts/10204927421960283

  8. Na minha opinião, o que lascou mesmo os anos 90 foi quando todos começaram a imitar o traço do Jim Lee. Todos queriam fazer personagens com dentes arreganhados e olhos sem pupilas, terrível. Não havia piadas. Não acho que a Morte do Superman foi uma estória ruim; aliás, foi o que salvou o fechamento dos títulos do azulão. O que achei ruim foram os exageros. Parece que estavam desesperados para venderem qualquer coisa. Pensem bem. Em coisa de meses, tinhamos Superman morto e ressucitado; Batman aleijado e com um sucessor descontrolado; e Hal Jordan tendo matado toda a Tropa dos Lanternas. Pois é gente, eu sei que a Image tava fazendo um sucesso tremendo e a DC e a Marvel teve que se virar anos 30 pra poder fazer frente a concorrencia, mas tudo tem limite né? E depois que Jordan virou Parallax, começou a novela. Luta. Destrói. Morre. Ressuscita. Se sacrifica. Revive de novo. Se redime. Vira Espectro. A Tropa inteira é ressuscitada. E pra deixar Jordan como bom moço, velho esqueminha de “eu estava sendo controlado por fulano de tal”. Eu sei que falamos dum universo fictício, com um público predominantemente menor de idade, mas as vezes os roteiristas parecem subestimar o intelecto dos leitores.

    • Henri Galvão disse:

      Falou tudo. Quando garoto, curti muito essa história, e fiquei bem chateado de saber que passaram uma borracha em todos os atos do Hal Jordan da sua época de Parallax. Acredito (assim como o autor do post) que tudo o que Hal fez naquela fase foi totalmente verossímil com a sua trajetória, e, se isso não o engrandece enquanto herói, certamente engrandeceu e muito o universo DC.

  9. Pingback: 11 atos sórdidos praticados pelos heróis nos quadrinhos | Quadrinheiros

  10. Sergio disse:

    Eu acho crepúsculo. Esmeralda uma obra de primeira grandeza.
    O que o geoff johns fez foi uma atrocidade. Aliás, o geoff johns é uma porcaria de escritor.

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