Star Trek e Star Wars: JJ Abrams, mito, história e… pastéis?!

Duas semanas atrás, um dos nossos leitores perguntou com precisão intocável:

“[…] é possível dizer que Star Trek [de 2009] sofreu uma “starwarsização”, enquanto que sua “rival espacial” [o episódio VII a ser dirigido por JJ Abrams] sofreu uma “startrekização” ?

Mais que uma resposta chulé, isso daria um capítulo de livro. Mas todos temos trabalho, família e contas pra pagar, então só dá tempo pra escrever um post mesmo.

Minha resposta é: sim!

E por quê, pergunta você, pessoa-imaginária-que-não-gosta-do-meu-texto-e/ou-de-mim? Porque JJ Abrams arrancou Star Trek do território da História e lançou a franquia no quintal do Mito!!

STAR TREK

Hei de prover fundamentos! Mira!

Diz o historiador Paul Ricoeur:

A história só é história na medida em que não consente nem no discurso absoluto, nem na singularidade absoluta, na medida em que o seu sentido se mantém confuso, misturado… A história é essencialmente equívoca, no sentido de que é virtualmente événementielle [manutenção de eventos] e virtualmente estrutural. A história é na verdade o reino do inexato. (Apud Ricoeur, 1961, p. 226 IN Le GOFF, 2008, p. 22)

Longe de ser apenas o que você vê arrumadinho num museu

Longe de ser apenas o que você vê arrumadinho num museu

O que Ricoeur assinala é que, o passado, tal qual o pastel de feira, é acessível a qualquer pessoa disposta a se deixar levar pelo seu delicioso aroma e sabor. É uma hipótese plausível, ou eu só esteja com uma puta fome. Mas a metáfora é válida.

A História não é unívoca, “absoluta”, nem singular. O estudo do fato, do passado, dos homens e mulheres que lá viveram, matéria que compõe a História, não são monopólio exclusivo de um único narrador/sacerdote (ou ancião/pasteleiro). Ondas sucessivas de uma comunidade de narradores (mais ou menos picaretas) acrescentam camadas à essa longa narrativa que nunca está imune a novas interpretações.

Altar e templo da narração

Altar e templo da narração

Star Trek, a série original, idealizada por Gene Rodenberry em 1966, era totalmente ancorada no presente (agora passado) da Guerra Fria. A Federação de Planetas Unidos era uma alegoria da ONU. A tensão entre o Império Klingon e a Frota Estelar era uma alusão à tensão entre a OTAN (liderados pelos Estados Unidos) e os Países membros do Pacto de Varsóvia (liderados pela União Soviética). O capitão Kirk, herói máximo da série, era um misto de cowboy de Iowa com a personalidade liberal-progressista de um Robert Kennedy (do tipo: foda-se, tenho que fazer o que é certo). A Zona Neutra nada mais era que uma alegoria de Berlim dividida pela birosca do muro! Qualquer avanço significava um ato de guerra!

"Spock, rápido, pegue sua calculadora!"

“Spock, rápido, pegue sua calculadora!”

A tripulação da Enterprise não era excepcionalmente especial além do carisma que os personagens possuíam. Todos, orgulhosamente, eram iguais, sem distinção de raça, cor, nacionalidade, espécie, credo ou origem. Todos estavam unidos em busca de um igualitário bem comum: o respeito pela diferença e o fascínio intrépido pelo desconhecido. A Enterprise era um veículo da utopia. Uma utopia de igualdade. Uma utopia da razão. Uma utopia científica. A projeção da Paz Perpétua de Kant, uma utopia Histórica.

Don't worry, men. You'll be fine.

Don’t worry, men. You’ll be fine.

Os Klingons (ou soviéticos?) e os Romulanos (ou chineses?), por outro lado, representavam tudo aquilo que se opunha à utopia da Frota Estelar (ou a OTAN?). Pessoas cruéis, implacáveis, sujas, violentas, dissimuladas, exatamente como dizia a propaganda anti-comunista irradiada pelos 4 cantos do globo. Mas apesar de tudo, especialmente os Klingons, eram considerados rivais honrados.

Raramente suspeitos

Raramente suspeitos

De 1966, quando do lançamento da série original, até 1991, ano em que foi lançado o último filme com a tripulação original da Enterprise (com William Shatner e companhia, já velhinhos), o pano de fundo histórico foi a Guerra Fria. Este último filme, de 91, chamado “A Terra Desconhecida” tinha esse nome justamente porque aludia ao futuro. Ali, Kirk e seus rivais Klingons têm que lidar com o fato de que a guerra entre eles acabou e o futuro era um terreno desconhecido.

"TaH pagh TaHbe!!'"

“TaH pagh TaHbe!!'”, Shakespeare, Ato III, Cena I

“Ah, mas tinha também as séries de TV com o Capitão Picard, Sisko, Janeway e Archer”, diria você, pessoa desprovida de pastel e portanto infeliz. Lembre-se: Star Trek COMEÇOU com Gene Rodenberry, mas não quer dizer que ele era o sacerdote/único narrador/pasteleiro da série. Star Trek é uma narrativa ancorada na História. A História é uma ciência e como tal exige ter muitos observadores e narradores.

Daí tantos sites saborosos sobre Star Trek. Meus preferidos são os que comparam as naves

Daí tantos sites saborosos sobre Star Trek. Meus preferidos são os que comparam as naves

Já por outro lado, sobre o mito, diz Le Goff (que não sabemos se apreciava pastel):

As idades míticas (cf. mythos/logos) são épocas excepcionalmente felizes, sem trabalho (caracterizadas, em certos casos, pelo automatismo de produção de bens), sem proibições ou impedimentos de tipo algum (cf. incesto, morte, direito, poder/autoridade, repressão); foram teatro de excepcionais cataclismos, de importância não raramente fundamental para o próprio destino (cf futuro) de uma cultura (cf. cultura/culturas). O seu estudo constitui uma abordagem privilegiada das idéias sobre o tempo (cf. tempo/temporalidade), a história e as sociedades perfeitas (cf. utopia). Essas idades situam-se umas vezes nas origens dos tempos, outras no fim (cf. escatologia, milênio).”  (Le GOFF, 2008, p. 283)

A todos vocês, palavra de fé:

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante...

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante…

Já falamos muito sobre Star Wars e o monomito. Quem quer saber mais, perguntem pro Sidekick, que tá fazendo mestrado sobre isso e precisa treinar bastante esse tipo de resposta até crescer e virar o Asa Noturna.

Luke Skywalker é um messias. Predestinado desde o nascimento a ser o redentor de todos os males da galáxia. Ele porta uma espada mágica (alguém nos filmes já chamou de “espada laser” invés de “sabre de luz”?). É treinado pelo último herói da velha ordem. Ele deve desafiar o pai. Luke e seus amigos vivem num universo ideal. O lugar já foi uma utopia, regida pela razão, protegida pelos Jedi. Mas agora está meio decadente, sem ordem, oprimido pelo Império, esperando por um novo ciclo de “era de luz”. A galáxia já foi melhor num passado distante. A galáxia pode voltar a ser melhor no futuro.

Para melhor apreciar a cultura, os Quadrinheiros recomendam

Para melhor apreciar a cultura, os Quadrinheiros recomendam

O ponto é: Star Wars é uma narrativa desligada do tempo! Não é História, não é racional, não é passível de novas revisões ou interpretação (vai Lucas, diz que o Han atirou depois do Greedo).  É passional, emocional, desligada do presente, passado ou futuro. Star Wars é sustentada pela fé (na Força). É protegida pelo zelo dos fãs. Star Wars não é uma utopia da razão. Star Wars é uma fantasia do sonho. Star Wars é uma utopia do mito.

Desde o fim da década de 90, a franquia Star Trek no cinema estava completamente sem rumo. A Nova Geração explorou a pura ficção científica em episódios formidáveis, mas que tinham menos apelo entre um público que não fosse ligado em ciência ou teoria de Relações Internacionais. O Capitão Benjamin Sisko até que segurou a peteca na Jordânia galáctica, a Deep Space Nine. Mas se falar em Cardassianos e Bajorianos é tão delicado quanto tratar de Israel e Palestina, perder uma audiência confusa era inevitável. Star Trek dependia dos Klingons, dependia da Guerra Fria, dependia da História.

O lugar mais tenso da galáxia. Mas a cerveja romulana é de 1a.

O lugar mais tenso da galáxia. Mas a cerveja romulana é de primeira.

A solução de JJ Abrams era a única possível. Chega de História. Que venha o Mito.

Kirk virou um predestinado. Spock é o mais genial humano/Vulcano da Academia de Ciências de Vulcan. Uhura é fluente em todos os dialetos Klingons. Os Klingons não são mais os piores inimigos, mas apenas habitantes de um inconveniente setor, um “bairro pobre” a ser evitado pela Frota Estelar, assim como Tatooine e o Outer Rim, controlado pelos Hutts.

Em nome dos tapados, exijo ao menos um tripulante tapado como eu nessa tripulação

Em nome dos tapados, exijo ao menos um tripulante tapado como eu nessa tripulação

Tudo que fazia de Trek ser bem histórico, foi substituído por uma carga “mítica” ao estilo de Wars, matéria da qual Abrams tem total intimidade.

Agora, isso é bom ou ruim, pergunta você, leitor que prefere coxinha. Nenhum dos dois, uai (uai= “obviamente” do mineiro, elegante que só ele). Afinal, o que importa não é o sabor do pastel. Mas quantos sabores diferentes você pode comer antes de morrer de enfarte, sei lá.

Ou não

Ou não

Pensando bem, vou pedir uma pizza.

 

PS – Agradecimentos ao André Luiz, que mandou a pauta dessa semana sem saber!

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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12 respostas para Star Trek e Star Wars: JJ Abrams, mito, história e… pastéis?!

  1. olavo disse:

    gostei muito do que escreveu e respeito sua opinião mas a maior mensagem de jornada foi exatamente a mesma de starwars esperança e triunfo porem de maneiras diferentes uma era uma era sobre talk and tech(jornada nas estrelas) que o conflito é normalmente pano de fundo para propagar os ideias do personagem principal a segunda era talk and fight(starwars) isso se dá devido que o conflito é explorado tanto intelectual quanto fisicamente quando a luta em si só é mais do que física mas sim filosófica,o conflito tem um proposito pois a sociedade de starwars não é tão estática quando de star trek que levou centenas de anos de conflitos entre os klingons e os humanos para se unirem e isso porque o planeta Kronos teve problemas climáticos que inviabilizaram a vida lá,starwars a sociedade está sempre em mudança porem os jedi carregam consigo não só os ideais da força mas os da republica são os guardiões da paz e da justiça apesar de um pedaço importante eles não são o centro das atenções são apenas uma camada do universo de starwars que ja teve conflitos entre orgânicos e inteligencias artificias,problemas de xenofobismo entre outras coisas,o próprio império era uma alusão ao nazismo (não sei se reparou mas o império é composto somente ou em sua maioria por humanos,pois no império as outras raças eram consideradas inferiores)

    achei o novo star trek fraco (como muitos acharam) não por ser propriamente dito um fã (apesar de adorar todas as series) mas pela falta de humanidade nos personagens,todos tinham conflitos existenciais,acho que depois da serie original a melhor foi deep space nine apesar dela ter sido uma tentativa de copiar babylon 5 (que é muito foda),sou um apreciador do universo scfi em todos seus gêneros e acredito que não devemos diferenciar tanto essas series ambas são a mesma coisa no final usar o fantástico como pano de fundo para analisar conflitos humanos e filosóficos afim de passar uma mensagem sobre a existência humana,uma das coisas que mais me incomodava e aparentemente o criador de jornada era o maniquiesmo da federação que sempre se achava boa e os outros ruins,porem o próprio criador explorava a corrupção,arrogância e sede de poder dos membros da federação tendo as pessoas mais humildes como Kirk e picard (vale lembrar que ambos foram criados pelo criador original) eram a bussola moral da federação e isso foi levado tambem para Sisko em deep space nine

    continue com os bons artigos

  2. Olavo Lima disse:

    foi mal me empolguei auhahua

  3. André Luiz disse:

    Antes de mais nada, gostaria de agradecer a menção ao meu comentário em seu texto passado. Acho que esta é uma das funções que nós, os leitores, temos para com este blog que é incentivar o debate e a reflexão para além dos lugares-comuns que permeiam as HQs e a cultura em geral. Em segundo lugar, após ler seu texto, um questionamento ficou em minha mente: se com este reboot de Star Trek, a intenção é remontar sua história a partir dos preceitos mitológicos da Jornada do Herói, por que isto não se fixou, isto é, por que ainda vemos Jornada nas Estrelas como uma obra mais científica e menos fantasiosa que Guerra nas Estrelas? Será por que há mais de 50 anos de histórias perpassadas por cinco séries, doze filmes e todo um universo expandido que reproduz uma espécie de utopia galáctica a qual um dia os seres humanos almejarão para si após o “primeiro contato”? Ou por que, para ser encarado como uma obra de caráter mitológico, é necessário envolver-se em um universo onde as regras da física cedem espaço à magia ou a soluções Deus Ex Machina (o que não é de todo o caso da primeira trilogia de Star Wars, mas há elementos que confirmam, a começar pela Força) em detrimento a toda cientificidade que permeia o universo de Star Trek? Creio que ambas as sagas possuem forças surpreendentes a seu modo, elaborando um trabalho que expande o escopo da ficção científica para além do cinema e da TV e este é um dos grandes motivos que ambas permaneçam tão vivas no imaginário coletivo do público.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      André,

      não tenho razões pra achar que posso acrescentar algo na sua digressão, que tá bála!

      Lembre-se que você mesmo pode publicar seus textos aqui como um dos Red Shirts! =]

      • André Luiz disse:

        Só mais uma pergunta: qual é o email que devo usar para mandar um texto para o Quadrinheiros?

      • Nerdbully disse:

        OI, André… você pode enviar o texto via inbox no Facebook e lá te orientamos também quanto a formatação, envio de imagens, etc.

        Estou presenciando o alistamento de um Red Shirt? Espero que sim.

        Abraços!

  4. Pingback: Os desafios do balde de gelo mais legais para os nerds: entre ética e heróis! | Quadrinheiros

  5. rita disse:

    Saudação!
    eu adoro Star Wars. e eu sempre penso no ser humano na narrativa. quero dizer dizer, o ser humano sobrevivente em galáxias distantes, fazendo viagens espaciais em naves próprias. O sistema solar desaparece no filme. o que sobra é o ser humano convivendo com uma tecnologia de ponta, que o permite conviver com outras formas de vida, e em quaisquer condições, como em planetas com cidades, planetas desertos ou gelados. outra coisa que chama a atenção é a força. no universo de Star Wars a força é algo metafisico.. há pessoas sensitivas e conseguem domina-la, para o bem ou para o mal… estamos em galáxias nas quais a tecnologia vai longe , mas a mitologia tem princípios e regras conservadoras… o novo e o antigo que se desdobram em Star Wars: Jedis e Siths dominam seus segredos mas o destino pregam sustos a todo o momento… algo que parecia tão certo de repente há surpresas.. Os jedis por prazer não anseia. Jedis e Sith mantem sabres de luz enquanto o império constrói uma arma mortífera do tamanho de uma lua: a estrela da morte! outra coisa que chama a atenção em Star Wars é o duplo entre Anakin e Vader: Vader é o alter ego de Anakin? e alguém que o domina, o Imperador?

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