CAMINHANDO COM BIDU: Animais, empatia e a busca de sentido

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“Pessoas boas se importam com animais. O público desenvolve uma percepção mais clara da gravidade da situação quando um animal está em perigo e entende que o cara bom mesmo é o que vai arriscar a vida pra salvar o cachorro.” Pelo menos foi assim que o Velho Quadrinheiro me explicou todas aquelas cenas de filmes em que animais tentam fugir de explosões, monstros, raios alienígenas, etc. Ou a clássica imagem do super-herói tirando o gatinho da árvore. (Não lembro se foram essas palavras, mas a idéia é bem essa, tenho certeza — ou não entendi o que ele realmente quis dizer e minha introdução a este post é completamente furada). Bidu: Caminhos parece ter sido feito a partir dessa premissa.

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Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho em tarde/noite de autógrafos. (foto de Sidney Gusman)

Se você ainda não sabe, Bidu: Caminhos é o novo título do selo Graphic MSP, que tem como proposta explorar as possibilidades que surgem quando novos escritores e artistas recebem o privilégio/desafio de trabalhar com as personagens consagradas do universo mauriciano. (Sobre o que essa iniciativa pode significar, escrevi algo quando o selo foi lançado em 2012). Desta vez, os recrutados foram Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, responsáveis pelo site Quadrinhos Rasos e pelas HQs Achados e Perdidos e Cosmonauta Cosmo!.
Bidu: Caminhos explora muito bem a empatia natural (ou naturalizada, se você faz questão de ser semanticamente correto) que temos por animais fofinhos/bonitinhos que sofrem. (A maioria das pessoas não se importa muito com bichos feios, conforme estudos científicos publicados numa revista que já perdi por uma equipe de uma universidade que também não lembro). Se você gosta de animais (afinal, você é uma boa pessoa), é nisso que você vai reparar quando ler. A arte é muito bonita, as citações são bem escolhidas, as soluções narrativas são muito inteligentes, mas tudo isso você só se preocupa em perceber na segunda leitura. Na primeira, o que fica é o sentimento compartilhado entre o cachorro e a criança — não o Franjinha, mas você mesmo, a não ser que você não seja uma pessoa boa, como meu amigo Velho definiu. Nesse caso, você vai fazer a primeira leitura reparando em todas as coisas que só deveria perceber na segunda e depois vai começar a questionar se essa relação entre pessoas e seus animais — ou animais e suas pessoas — é mesmo tão visceral. (Sim, estou falando de mim mesmo).

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Mas Bidu: Caminhos não funciona só por causa da empatia das personagens ou da habilidade narrativa e artística dos autores. Como o título já diz, é uma história de jornada, não a heróica (de novo), embora ela também esteja presente, mas a da busca de sentido, a mesma caminhada que você, eu e toda a humanidade fazemos a cada dia, desde que sejamos capazes de perceber que há mais na vida do que só aquilo que já conhecemos. O problema é que você só percebe isso ao sair da zona de conforto e correr atrás do sentido que falta exige entrar na zona de perigo.
BiduCaminhosPreview03Como qualquer um de nós, Bidu não tem uma vida fácil, mas está acostumado a dar um jeito em seus problemas. Quando um problema se mostra grande demais, a solução mais cômoda é entregar seu problema na mão de alguém. E quando esse alguém não resolve o problema, ele precisa olhar para dentro de si novamente. Mas a solução que não estava no outro também não está nele. Ao menos não nele sozinho. Como qualquer um de nós, Bidu precisa de alguém que faça as coisas com ele e não por ele.

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No final das contas, Bidu: Caminhos não é só uma história pra você se identificar porque gosta de animais. É uma versão curta e bem desenhada do que pode ser a sua vida e da sua presença na vida das pessoas — e animais — em volta. A jornada de Bidu, claro, alcança bom êxito, o que não é garantido no nosso caso. Mas convenhamos que é muito mais simples escrever um final feliz para uma história que dura cerca de 70 páginas do que para uma vida que (esperamos) não caberia por completo em livro algum. O importante é que Bidu nos faz esse convite a iniciar nossa própria caminhada, deixar a simples luta diária pela sobrevivência auto-suficiente e buscar a incomparável riqueza de uma existência cheia de sentido com o outro.

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P.S.: Se você estiver em São Paulo no próximo dia 30 de agosto e se tiver tempo e (muita) paciência, pode tentar a sorte na Bienal do Livro. Haverá uma sessão de autógrafos com os autores de Bidu: Caminhos e dos outros títulos do selo Graphic MSP. Mas é bom chegar cedo para comprar os livros e garantir sua senha.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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2 respostas para CAMINHANDO COM BIDU: Animais, empatia e a busca de sentido

  1. Nice disse:

    Que lindo. Um texto emocionante. Me identifiquei em diversos momentos e achei lindo a delicadeza em falar sobre o carinho com os animais. Parabéns!

  2. Pingback: Guerra dos Roteiristas E19 – Editores Brasileiros | Quadrinheiros

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