O Sexo no Prêmio Eisner

Pra bom quadrinheiro o nome Eisner basta. Para quem não está ainda tão antenado com o que vou falar aqui, vale uma breve introdução.

A Comic Con de San Diego, a original e maior de todas, não é só uma reunião de nerds num salão grande, mas sim um evento da cultura pop-nerd e da indústria de massa. Diferente dos eventos de anime do Brasil (Anime Friends, Ressaca Friends, Anime Family etc) um acontecimento como a ComicCon envolve uma série de atividades como premiações de grande porte, lançamentos de filmes e quadrinhos, além tantas outras coisas. Essa é a principal razão de todo o mundo nerd estar muito preocupado com o que será a Comic Con Experience, uma vez que eles querem trazer a experiência que se tem em San Diego para São Paulo. Já escrevi um pouco sobre esse tema no post aqui.

Logo daqui, qualidade de lá? Fica a dúvida até dezembro

Logo daqui, qualidade de lá? Fica a dúvida até dezembro

Pois bem, entre as atividades que rolam no evento de San Diego, uma das mais importantes é o Eisner Awards. O prêmio recebe o nome do maior pensador dos e sobre quadrinhos do mundo. Além de excepcional roteirista e desenhista, Will Eisner foi um dos primeiros caras a discutir de maneira complexa o que eram/são os quadrinhos. Uma referência mínima e básica de qualquer trabalho ou discussão sobre essa linguagem.

A preciosidade com a qual ele trabalha o tema é única e própria. Chega a tal ponto que para ele não devemos restringir o tema ao termo quadrinhos, mas sim utilizar a nomenclatura “Arte Sequencial”, uma vez que é uma linguagem artística complexa, e não apenas histórias em quadrinhos. Essa distinção em inglês é ainda mais forte, uma vez que o coloquial utilizado é “comics”. Nas línguas de origem latina essa diferença é menos gritante, mas mesmo assim adotar o termo proposto por Eisner é muito válido.

Essa discussão poderia se alongar por muitas páginas, mas acho que não é este o espaço para tal. Se você tem curiosidade de se aprofundar no tema e não sabe por onde, procure o livro “Quadrinhos e Arte Sequencial” do Will Eisner, um livro de teoria, não um quadrinho, onde o autor discute desde o processo criativo até a circulação e venda.

Capa de uma das primeiras edições dos EUA.

Capa de uma das primeiras edições dos EUA.

O trabalho e pensamento desse cara foram tão importantes que o principal prêmio do gênero recebeu seu nome. Assim como existe o Oscar para os filmes, existe o Prêmio Eisner para os quadrinhos. São diversas e inúmeras categorias, que se dividem por temas, técnicas e nichos. Tem melhor tirinha, melhor escritor, melhor série, melhor edição única e por aí vai. Bem igual ao Oscar, quanto às categorias , com a diferença que nesse não tem tapete vermelho e nem muitas mulheres (o que é uma pena, por que reforça a imagem masculinizada e machista dos quadrinhos).

Se você quiser ver a lista de indicados deste ano, dê uma olhada aqui! A cerimônia de gala acontece no dia 25 de Julho, dentro da Comic Con. Infelizmente muitos dos indicados não chegaram, e nem chegarão, a tempo para lermos antes da entrega dos prêmios. Mas graças à tecnologia pude ler um dos quadrinhos indicados, o “Sex Criminals”.

As próprias capas são mais conceituais do que explícitas

As próprias capas são mais conceituais do que explícitas

Por uma bagatela de um cartão internacional e cerca de 5 dólares pude baixar e pela primeira vez ler, de maneira legal, um quadrinho digital. A experiência em si já é bem diferente de ler em papel. Os aplicativos e a edição permitem uma interação muito diferente. Você pode ler quadro a quadro com um zoom bem grande, dando um ritmo diferente e coordenado por você. É como ser o editor de um filme que lê um storyboard para poder montar, primeiro na sua cabeça, como ele vai juntar as partes gravadas do filme. Isso em si valeu o investimento.

Escolhi ler o “Sex Criminals” depois de ver que a Times havia escolhido-a como melhor quadrinho de 2013 (em inglês) , mas principalmente depois de ler esta matéria da Wired (em inglês) vi que era uma ótima pedida. Escrita a partir da cidade mais hipster/estranha do mundo, a autora já vai logo no título chutando a porta e rasgando seda sobre o autor. “O cara por trás do quadrinho que finalmente entendeu sexo da maneira correta” seria uma tradução livre do título. Achei bem audaciosa a definição, uma vez que sexo, por si só, é um tema tabu e complicado. Lendo a matéria de fato fiquei curioso para entender como ele iria tratar o tema, uma vez que vai mostrando diversas influências, criando com imensa habilidade uma obra sobre o tema. Sem dúvida o cara é bom. Ele recebeu, só esse ano, 5 indicações ao Prêmio Eisner e em 2008 ganhou pela categoria Melhor Nova Série com o Invencível Homem de Ferro.

Se você passar na frente dele, vai achá-lo apenas mais um hipster americano...

Se você passar na frente dele, vai achá-lo apenas mais um hipster americano…

Sem me prender no texto que citei, mas sim nas minhas impressões do quadrinho indicado em 3 categorias do Eisner (as outras duas indicações são pelo gavião arqueiro que cantamos a bola no começo do ano), segue minha breve reflexão: Sex Criminals não é um hentai e muito menos um quadrinho do Milo Manara, mas sim uma reflexão sobre a essência do que é o sexo, de maneira madura mas bem humorada. Ele não se prende nas cenas do ato sexual, mas sim no que vem logo depois. A extasia é representada pelo tempo que para, sem sentido figurado afinal para a personagem principal quando ela tem um orgasmo, o tempo para de verdade. Ele tenta refletir a solidão do ato quando feito de maneira mecânica e diria até, meramente recreativa. Claro que ele enxerga como algo bom, ele não é um puritano, mas ele quer nos fazer pensar sobre as conexões que criamos com as pessoas. Acho que ele transcende o óbvio ao falar de sexo.

A preocupação dele na obra é de mudar o modo como os quadrinhos falam de sexo. Fraction não quer fazer mais um quadrinho cheio de splash pages e mulheres seminuas, mas sim uma discussão do que é o sexo para os “jovens”. Mas fique tranquilo, ele não faz isso de maneira tediosa ou didática, muito menos se propõe a ser um filósofo ou um sexólogo, ele apenas quer, como um bom escritor, falar sobre o tema. Essa mudança de eixo fica clara principalmente pela personagem principal ser a mulher e não o homem.

Uma das passagens mais interessantes, pena que não liberaram o uso da letra original da música. Ela estaria cantando Fat Bottomed Girls numa alegoria irônica à musicais

Uma das passagens mais interessantes, pena que não liberaram o uso da letra original da música. Ela estaria cantando Fat Bottomed Girls numa alegoria irônica à musicais

Sem apresentar pessoas fora do comum, no quesito físico, Matt nos mostra o seu absurdo no fato de haver um super poder no sexo. Não como Frank Underwood faz no “House of cards”, mas sim no sentido do superhumano mesmo! Suzie, a personagem principal, descobre na sua adolescência sua capacidade de escapismo através do orgasmo. Ao atingir o ápice, tudo para ao seu redor e ela entra numa espécie de realidade paralela na qual, inicialmente, apenas ela pode entrar. A primeira quebra na história é quando ela descobre que Jon também tem essa capacidade, fazendo com que eles criem um laço único de amizade, amor e relacionamento. A metáfora é justamente essa, de que quando encontramos alguém que vai para o mesmo lugar que a gente no sexo, tudo funciona diferente.

Mas óbvio que se a história parasse aí quase ninguém mais leria, pois ia parecer um daqueles romances baratos de banca de jornal ou um 50 tons de cinza versão sci-fi. A história vai além, e assim como qualquer um faria se tivesse poder, eles resolvem usar essa habilidade para atingir seus objetivos. Suzie quer salvar a biblioteca na qual trabalha, e para tal eles então resolvem assaltar um banco. Por isso o título! A série está ainda no quinto número e eu não vou contar mais detalhes para não estragar que resolver ler.

A cena do roubo em si! Mas não se preocupe, ver essa imagem não impacta tanto assim na história

A cena do roubo em si! Mas não se preocupe, ver essa imagem não impacta tanto assim na história

Não acho que Fraction seja um divisor de paradigmas nas artimanhas de roteiro, como são Alan Moore, Grant Morrison e Neil Gaiman. Mas sem dúvida ele discute de maneira muito inovadora o tema além de manter um ótimo nível e timing de humor acessível. Suas referências, ao menos para mim, conversam muito com quem lê. Não há uma proposição por parte do escritor de ser é um mago recluso e nem um pesquisador de mitologias, mas sim um cara com seus 38 anos falando aos leitores de quadrinhos sobre algo um pouco mais profundo do que peitos e bundas quando se trata de sexo. Ele inova na sua habilidade de criar uma situação muito improvável para falar de algo tão cotidiano. Ele provoca a estranheza necessária e te trás a reflexão sem usar de subterfúgios distantes ou mesmo termos e manobras complexas. Matt Fraction consegue usar uma leveza imensa e um humor bem atual para dar um tranco no que você imagina ser o sexo. Vale a visita no seu site, que mais parece uma mistura de tumblr com pinterest, para entender o que se passa na cabeça desse cara.

A capa do número 5 deixa de uma maneira bem interessante essa idéia do que é discutido de fato

A capa do número 5 deixa de uma maneira bem interessante essa idéia do que é discutido de fato

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