A periferia de SP em Quadrinhos: o Desterro de Ferréz e De Maio

Citando DaMatta, “[…] Só há duas possibilidades: ou o papel comanda a pessoa ou a pessoa comanda o papel. Se houver um conflito entre a pessoa e o papel, não pode haver desempenho porque não há convicção […]”.

Desterro, obra em quadrinhos de Ferréz e De Maio lançada no último dia 23/11 pela editora Andarco/Selo Contraculturas, é pura convicção.

desterro_capa

Diz Ferrez no posfácio (o Môio Extra):

Eu parecia ouvir Flávio Colin, dizendo que só tem espaço para quadrinho importado. E o pior, sempre comprando HQ eu lia cada coisa estrangeira que não acreditava. Fazíamos parte de um país periferia que não queria se olhar no espelho. Tudo pra nós nunca foi fácil. Mas a gente já tá acostumado a ver o sofrimento como etapa. Quadrinho de resistência não agrada o oponente. Para que ele vai multiplicar e distribuir algo que é danoso para sua autarquia?”

O volume narra as trajetórias de vidas diferentes na periferia paulistana. Vidas que são seviciadas pelo ambiente cruel e escaldante de São Paulo. Um lugar, diz o quadrinho, onde ninguém fica o mesmo por muito tempo.

O protagonista da história, Igordão, é fruto, agente e símbolo daquele mundo “fim da picada” (vendido diariamente em programas do estilo Cidade Alerta). Irascível, violento e brutal, Igordão é o chefe de uma rede de traficantes de drogas.

Seus aliados ou rivais, personagens que desfilam ao longo da história, são semelhantes: buscam respeito, ócio, satisfação afetiva, financeira e material. Consumo, nas suas sutis ou escandalosas seduções, é a utopia unânime entre eles.

Igordão é árbitro e executor final de toda disputa nascida de seu meio, comportamento trazido da infância, refinado nos presídios e aplicado em seu cotidiano, tudo temperado de orgulho e crueldade.

Desterro obedece a certa cadência. Crescimento, maturidade e declínio, o ritmo trágico aponta na direção da auto-consumação dos indivíduos que habitam aquele ambiente.

O destino de Igordão na narrativa, inevitavelmente, será trágico (embora nem a morte seja concedida; essa é negada com a sutil alusão de um retorno mais fortalecido).

perifcentcontracult

Com as marcas que o classificam (ritmo e inevitabilidade) Desterro é um exemplar da tragédia, esta classe de histórias criada para retratar e sensibilizar sobre a moral de um tempo e lugar. Para conta-la seus narradores se valem de algumas premissas:

– o ambiente agressivo (periferia paulistana) deforma ou degenera os indivíduos;

– a opressão é tanto objetiva (repressão policial, prisões) quanto subjetiva (exclusão do acesso aos bens de consumo por via legal e o ressentimento subsequente que provoca);

– a reação ao ambiente se manifesta na forma de severidade, no caso do gibi, na formação de grupos (o tráfico de drogas) em que seus membros devem obediência, ter e compartilhar da mesma fibra moral e força para suportar a dor que o líder.

Seria difícil contestar qualquer uma dessas premissas. Basta uma breve visita às quebradas da periferia de São Paulo. A questão que surge é: Desterro é uma representação precisa daquele cenário? Mais do que representar, a HQ não acaba por simbolizar essa imagem (tornando-a intocável)?

Advertia o filósofo alemão Theodor Adorno em “A educação pós-Auschwitz” (Educação e Emancipação, 1971):

“[…] A idéia de que a virilidade consiste num grau máximo da capacidade de suportar dor de há muito se converteu em fachada de um masoquismo que se identifica com muita facilidade ao sadismo. […]  Quem é severo consigo mesmo adquire o direito de ser severo também com os outros, vingando-se da dor cujas manifestações precisou ocultar e reprimir. Tanto é necessário tornar consciente esse mecanismo quanto se impõe a promoção de uma educação que não premia a dor e a capacidade de suportá-la, como acontecia antigamente. Dito de outro modo: a educação precisa levar a sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido.”

Medo, ao que se vê em Desterro, é uma constante do cotidiano. Repressão, de modo algum, é o que se vê na HQ. Bem ao contrário, Desterro induz a uma reflexão sobre as hostis condições de vida na periferia de São Paulo, objetivo que realiza com lauta satisfação.

Não só pelo volume (176 generosas páginas), mas pela excepcional qualidade gráfica, o outro mérito de Desterro é a raiz biográfica de seus criadores. Ferréz e De Maio são, eles mesmos, moradores do Capão Redondo, ou seja, narradores (papel) e habitantes (pessoa) daquele cenário. Convicção em dose concentrada.

Serviço:

Título: Desterro

Autores: Ferréz e De Maio

Número de páginas: 176

Preço: R$40

Anúncios

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
Esse post foi publicado em Velho Quadrinheiro e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A periferia de SP em Quadrinhos: o Desterro de Ferréz e De Maio

  1. Rogerio Andrade disse:

    EStou interessadíssimo nessa obra. Muito obrigado pela análise.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s