George R. R. Martin muito antes de Game of Thrones: o universo Cartas Selvagens

Assim como todos nós aqui do blog, minha paixão por super-heróis nasceu na infância. Eu acordava de madrugada só para ver o seriado do Batman com o Adam West e outro antigão do Superman que passavam na Globo lá pelas 5 da manhã no início dos anos 80.

Depois vieram os gibis mensais em formatinho que eram publicados pela Abril por um bom tempo. Até aí, nada de novo. Muitos devem ter uma experiência parecida com os super-heróis. Mas é aqui que a minha começa a diferir.

Entrei em contato com o mundo do RPG bem cedo (pois é, tinha que ser nerd de verdade, roots mesmo, não igual hoje em dia que você joga Call of Duty, vê Vingadores e se acha o Sheldon) e eis que em 1994 a Devir lança no Brasil o GURPS SUPERS, em outras palavras, um sistema de RPG no qual você podia jogar com super-heróis.

No Natal daquele ano fui presenteado com um exemplar daquele livro. Mas a versão nacional vinha com um diferencial: além das regras básicas havia também um cenário chamado Cartas Selvagens. A edição não era especial por isso, mas por um motivo muito mais interessante: vinha acompanhada da edição encadernada da minissérie publicada pela editora Globo (nos EUA foi a Marvel com seu selo Epic) e foi então que tive o primeiro contato com histórias de super-heróis com uma abordagem mais realista, feita para um público adulto. Para mim, muito antes de Watchmen ou Cavaleiro das Trevas, vieram Cartas Selvagens.

cartas

Os quadrinhos são uma adaptação de uma longa série de livros editadas por ninguém mais ninguém menos que George R. R. Martin, hoje mundialmente conhecido pelo sucesso de Game of Thrones, e escrita por alguns dos melhores autores de ficção científica dos EUA, aliás todo o cenário foi criado no estilo colaborativo entre alguns desses autores, só para ficarmos com dois exemplos ilustres: Melinda Snodgrass, assistente de Martin, chegou inclusive a escrever episódios para Star Trek: The Next Generation e Chris Claremont, que dispensa apresentações. Mas mais interessante ainda: os livros vieram das sessões de RPG que esses autores jogaram. Dá pra imaginar isso?

O cenário tem uma premissa interessante: a Terra é usada como um planeta de testes para uma bomba biológica alienígena que contém um vírus que pode dar poderes para as pessoas contaminadas. Só tem um problema: 90% das pessoas morrem ao serem contaminadas com o vírus ou “tiram a dama de espadas”, 9% ganham deformidades horríveis com poderes em sua maioria insignificantes, os chamados coringas, e apenas 1% não adquirem nenhuma deformidade e ganham poderes relevantes, os incríveis ases. É no mundo modificado pelo vírus carta selvagem que as histórias se passam.

Nos quadrinhos, que adaptam trechos dos livros (ao todo mais de 20), vemos a investigação feita pelo detetive Jay Ackroyd, um ás que pode teleportar qualquer objeto, sobre uma série de atentados a bomba envolvendo alvos de alguma forma relacionados ao vírus carta selvagem. Durante a investigação nos são apresentados personagens marcantes da série, com suas histórias em flashback. Destaque para o “Grande e Poderoso Tartatuga”, um ás com poderes telecinéticos que fica dentro de seu casco (um tanque de alta tecnologia… ou pelo menos tão alta quanto os anos 90 permitiam), Yeoman, um arqueiro zen combatente do crime e o Dr. Tachyon, membro da raça alienígena que contaminou a Terra com o vírus.

Cartas Selvagens tem suas singularidades. Muitos clichês de super-heróis estão ausentes no universo: sem uniformes, sem grandes super-equipes, a não ser para resolver problemas pontuais e específicos, sem grupos de vilões megalomaníacos que desejam destruir o mundo. O que distingue o cenário dos outros e o torna verdadeiramente interessante é ver como os autores trabalharam as alterações que o vírus causaria na História: vemos um grupo de ases sendo acusados de serem comunistas na Caça às Bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy, Yeoman no Vietnã, a luta pelos direitos civis dos coringas e por aí vai.

Se você já está cansado de ver sempre os mesmos heróis, nos mesmos universos, vivendo variações das mesmas aventuras eternamente, pode garimpar Cartas Selvagens em algum sebo por aí e não pense duas vezes: vale cada centavo.

Nota: a Editora Leya publicará todos os volumes da série de livros aqui no Brasil! Saiba mais no blog oficial do próprio Martin: http://grrm.livejournal.com/313416.html

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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6 respostas para George R. R. Martin muito antes de Game of Thrones: o universo Cartas Selvagens

  1. Rafael disse:

    Achei por R$ 20,00 o encadernado- supostamente em boas condições, vale?

  2. Nerdbully disse:

    Vale muito.

  3. Pingback: Extra, extra! Mais uma pessoa enganada! Game of Thrones, franquias malditas e a ditadura do consumidor | Quadrinheiros

  4. Venha fazer parte do nosso grupo de GURPS no Facebook. O GURPS Group Brasil. Vejo que você pode contribuir muito com o grupo.

  5. Sou desta época também, eu me lembro.
    Achava muito interessante e original.

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