Wild Cards e o Brasil para inglês ver

O que é o Brasil infectado pelo Carta Selvagem aos olhos gringos?

Escrito por David D. Levine, ganhador do prêmio Hugo (um dos maiores prêmios de histórias de ficção e fantasia em língua inglesa), editado por ninguém menos que o próprio George R. R. Martin, o livro O Reciclador deveria ser uma espécie de presente para os fãs brasileiros de Wild Cards. Para quem não conhece, Wild Cards é a série de romances de super-heróis escrita em mosaico por um grupo de autores capitaneados pelo autor de Game of Thrones. Em O Reciclador, é a vez do Brasil servir como cenário da narrativa.

Como um fã da série não pude controlar minha curiosidade de saber como seria retratado o Brasil no universo de Cartas Selvagens, mesmo suspeitando que o livro seria um caça-níquel ($44,90 golpes por um livreto de 64 páginas que vem numa caixa de papelão com “cards colecionáveis” e um poster desperta uma certa cautela em um nerd já experiente).

Chamou minha a atenção em especial a nota sobre o “intenso trabalho de pesquisa sobre o Brasil”, e como a história de Tiago Gonçalves, um garoto pobre, crescido no Rio de Janeiro, em Jardim Gramacho, é infectado pelo vírus, parecia ter sido escrita por um brasileiro.

Mas o que encontrei no livro foi uma série de estereótipos. Tiago Gonçalves é, de acordo com card que acompanha o livro, um ás-curinga, catador de lixo, ambulante e ladrão, cujo poder é formar uma armadura de lixo que aumenta seu tamanho, lhe dá força e resistência. O Rio de Janeiro retratado se resume ao funk e à rivalidade entre traficantes. O conto divide-se entre duas partes mal conectadas: a primeira é uma espécie de “história de origem”; na segunda, o personagem envolve-se em uma disputa entre traficantes e torna-se um herói.

Inicialmente o personagem era Tion James, e seria um personagem descartável na série Wild Cards, mas foi reformulado devido ao sucesso da série no Brasil. Na visão de Martin, um ás brasileiro seria ótimo. Mas é aí que as coisas complicam. Segundo o editor da série, o personagem “poderia ser de uma favela do Rio, de Macau ou de Bangkok, lugares como esses costumam ter um ambiente propício para esse personagem” [descartável].

De qualquer forma o personagem foi reformulado e tornou-se Tiago Gonçalves, sendo um personagem descartável no romance da série High Stakes. Depois, o personagem foi desenvolvido pelo autor no conto que tornou-se o livro. De acordo com Levine, o Jardim Gramacho e os “catadores” que ali trabalham era “um cenário perfeito e uma metáfora para a vida difícil do pobre Tiago”. Eu diria que não há nada de metafórica na pobreza do local. Ao contrário.

O “intenso trabalho de pesquisa” resume-se no documentário Lixo Extraordinário (que você pode ver abaixo, completo), o artigo da diretora para o The Guardian (que você pode ler aqui) e o livro Favela de Janice Perlman (que você pode ler aqui), além de um ensaio fotográfico do local (cuja fonte não é mencionada), além de “muitos e muitos textos de páginas aleatórias da internet” (grifo nosso).

Triste saber que os revisores brasileiros tiveram uma “recepção entusiasmada”, e que o autor praticamente não fez nenhuma correção após a verificação dos fatos. O que, suspeito, indica que a pesquisa foi direcionada a confirmar o que o autor já sabia.

O fato do lixão do Jardim Gramacho ter sido desativado em 2012 não parece incomodar o autor, já que o mundo da série de livros não é o nosso, e os autores podem fazer mudanças na história tal qual a conhecemos. De fato, porém essas mudanças são explicadas e fazem sentido na série de romances mas nenhuma explicação é dada ao fato no livro.

Ainda assim, existem alguns pontos interessante no desenvolvimento da ambientação da série no Brasil. Tal qual aconteceu na Nova Iorque do universo Wild Cards, o Rio de Janeiro também conta com uma espécie de “Bairro dos Curingas”, uma parte do Complexo do Alemão comandada pelo “Comando Curinga”, uma facção criminosa. Mas isso se perde na história estereotipada e apressada.

Aos olhos gringos um dia já fomos bundas, samba, Carnaval e futebol. Parece que hoje somos o conflito entre traficantes e o funk. Os fãs brasileiros da série Wild Cards mereciam mais.

Já que era para contar a história de um brasileiro, por que não chamar um autor nacional para contá-la?

Fica a pergunta e a decepção com livro.

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Sobre Bruno "Nerdbully" Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série do Batman estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Historiador e professor de História. Mestre em Ciências Socias e em Zen Nerdismo.
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