John Romita Jr. e o valor da mediocridade

Por que alguns dos projetos de maior visibilidade da Marvel caíram nas mãos de um artista mediano como John Romita Jr.

O ano era 1997. 

A internet, ainda discada, engatinhava para alcançar rincões como a Freguesia do Ó. Qualquer informação, indicação ou notícia sobre gibi eram precários. Exceto por alguma matéria sobre quadrinhos em alguma revista sobre cinema ou ciência, qualquer “projeto editorial” especializado, exclusivamente impresso, beirava entre pura fofoca e o esoterismo. O que restava era aguardar as novidades que brotassem na banca de jornal. 

Assim, há quem tenha ficado desalentado quando deu de cara com a capa de “Fabulosos X-Men” n. 22, conclusão no Brasil do arco “A Era do Apocalipse” lançado pela editora Abril. A frustração tinha nome: John Romita Jr. 

Por que botaram de novo esse mala do Romita Jr. pra desenhar essa saga, uma verdadeira Ilíada em quadrinhos, essa sinfonia com balões?!?”, pensou um jovem quadrinheiro, desesperadamente necessitado de mais referências nessa vida. 

Não ajudava muito na reputação do artista, ainda vivíamos o rescaldo da infame “Saga do Clone” do Homem-Aranha lançada no Brasil em 1997, e coube a Romita Jr. segurar a peteca em várias histórias, em especial aquelas protagonizadas por Ben Reilly, o Aranha Escarlate. 

Naquela altura, mesmo depois de uma insípida passagem na série regular dos X-Men, Romita Jr. já tinha sido pareado com Frank Miller na minissérie “Demolidor – Homem Sem Medo”, de 1993 e lançada no Brasil em 1996. A história parecia ter sido concebida para ganhar os desenhos de David Mazzucchelli mas que por alguma razão desconhecida, Romita Jr. teve que substituir – uma versão genérica de um autor formidável. 

Enquanto dava conta das histórias regulares da Equipe Dourada dos X-Men, outra série, “Cable – Sangue e Metal”, de 1992 e lançada no Brasil em 1996, com os roteiros de Fabian Nicieza, expunham a “audácia” de Romita Jr.. Parecia que ele tapava qualquer buraco, fossem enredos urbanos ou terrenos do sci-fi com resultados quase idênticos: ele era acusado de oferecer uma poluição visual simplista, com quase nenhuma nuance na caracterização de diferentes personagens. 

Alguns anos depois, surpreendentemente, Romita Jr. foi o artista alçado para dar vida à visão de Neil Gaiman (que já era “the” Neil Gaiman) na minissérie “Os Eternos”, em 2007. A leitura dos volumes remetia a sensação semelhante gerada por Demolidor: Homem sem medo; Romita Jr. parecia um artista menor para um roteiro que estava além de seu potencial. 

Pouco depois, ao lado do roteirista Greg Pak, ele foi o artista da saga “Hulk contra o Mundo”, de 2007 e lançada no Brasil em 2008. Mais uma vez, um projeto de alta visibilidade com um roteiro bastante original, com alto potencial de sucesso, por que trazer John Romita Jr. a bordo?? 

Mas nenhum projeto que Romita Jr. tenha participado antes alcançou tamanho prestígio ou sucesso como Kick-Ass, de 2008 e lançado no Brasil em 2010. Roteirizado por Mark Millar, que era uma estrela em franca ascensão naquela altura, Kick-Ass ganhou uma das melhores adaptações de quadrinhos para o cinema. Surpreendentemente, o filme mimetizava vários quadros presentes na HQ. A questão era: o filme de Kick-Ass tornou-se uma boa adaptação porque a HQ era visualmente limitada, portanto a margem para erro era pequena para qualquer diretor? Ou Romita Jr. forneceu uma referência visual tão consistente tornando a transposição de mídia um ato contínuo sem qualquer desafio?

Muitos carnavais e dezenas de pares de chinelo depois de 1997, é razoável perguntar: por que um desenhista como John Romita Jr, com um estilo bem característico, visualmente simplista, “blocado”, alguém que parecia estar a galáxias de distância dos desenhistas medalhões, foi tão frequente nas equipes de criação de volumes com grande potencial de sucesso, em especial na Marvel? 

Uma consulta rápida nas bases de dados de quadrinhos sugere algumas respostas. Desde 1978, estreia dele como desenhista na edição n. 19 de Ms. Marvel e até hoje (ele será capista da edição n. 14 de X-Men, a ser lançada em agosto de 2022) a consistência dos trabalhos de John Romita Jr., se não um entrave, são um ativo precioso para qualquer empresa. Pense bem. 

Marc Silvestri e Todd McFarlane, dois dos grandes nomes da Marvel antes de partir e fundarem a Image, eram conhecidos por furar prazos. Não é difícil imaginar o aumento da pressão com o sucesso que os acompanhou por causa de X-Men e Homem-Aranha no início dos anos 90. Lacunas assim deram ampla margem para a projeção do “confiável” Romita Jr.. 

Não só isso, ele mesmo reconheceu em 2010 as razões da fidelidade que ele tem pela Marvel. Por ocasião do lançamento do filme de Kick-Ass, indagado por que ele não costuma trabalhar para a DC ou outras editoras, ele esclareceu em entrevista ao site Dan of the Geek

É um pouco por acaso. No fim das contas, depois que meu pai [o desenhista John Romita Sr.] se aposentou, eu preferi ficar com a Marvel porque é uma coisa de família. Depois que ele se aposentou, houve interesse de outras empresas e algumas negociações com a DC, mas a Marvel foi inflexível em me manter e se certificou de que eu ficasse. 

Eu sou leal às pessoas que são leais a mim, e isso é meio que o ovo e a galinha. Eles são leais porque eu sou leal a eles. Mas as pessoas com quem eu tenho trabalhado na Marvel desde meados dos anos 90, Joe Quesada, Dan Buckley, David Bogart, o centro nervoso da Marvel, são muito legais comigo e minha família, e eu vou tratá-los da mesma forma. Enquanto eles estiverem lá eu vou assumir novos compromissos com eles.

Vale dizer que Joe Quesada saiu recentemente da Marvel, onde ocupava o cargo de diretor criativo; Dan Buckley é o presidente e David Bogart é vice-presidente de operações da da Marvel Entertainment. Romita Jr., por sua vez, tem feito trabalhos pontuais na DC desde 2009. 

A despeito das proporções titânicas que a Marvel Entertainment assumiu nos últimos 15 anos, não se pode esquecer que a empresa ainda repousa sobre uma base elementar, um núcleo criativo essencialmente manual e artesanal. Uma equipe formada por roteirista/desenhista/finalista/letrista/editor, ainda é responsável diretos pela criação de novos bens culturais (ou no que se convencionou chamar de “intellectual property”). Estes bens são as sementes para novas adaptações em outras mídias, com gigantesco potencial financeiro.

Delegar para artistas como John Romita Jr. obras com de alto impacto latente não parece ser um equívoco editorial. Numa avaliação realista, a presença de John Romita Jr. é pura eliminação de risco no pior cenário. No melhor, é garantia de fluxo de caixa. 

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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25 respostas para John Romita Jr. e o valor da mediocridade

  1. Albério disse:

    John Romita Jr. tem seus altos e baixos, como a esmagadora maioria dos grandes desenhistas. Sim, ele está nesse grupo. Avaliar a arte de alguém apenas sob aspectos básicos, como gosto pessoal, não é nem um pouco justo. John Romita Jr. não é só alguém que desenha rápido e cumpre a demanda, ele possui uma arte inconfundível, diferente de vários clones, de outros artistas do mercado, além de ter uma dinâmica incrível em seus quadros. Ele consegue imprimir ação de forma impactante e com uma arte bem melhor do que o Frank Miller, por exemplo (que era referência em HQs dinâmicas). O Romitinha também já desenhou praticamente de tudo na MARVEL, desde as fases mais icônicas até as mais medíocres. Sempre gostei da arte dele, e tenho muitas histórias fracas que só faço questão de manter por causa do traço que me inspira (também desenho). Ele está no meu top 10 artistas de HQs, mas tenho noção de que é o tipo de artista que tem muitos apreciadores e “haters”, faz parte. Alguém com a importância histórica dele para a indústria, já que HQs são, em 99,99% dos casos, frutos de uma indústria com uma demanda infinita, com uma carreira invejável, por ter desenhado mais personagens e HQs do que qualquer outro artista, e por mais tempo que eu me lembre, merecia mais do que ser taxado de medíocre. Ele não faz muita coisa porque é apenas rápido e profissional, mas porque existe uma demanda por sua arte e autores que o consideram ideal para expressar seus roteiros.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá, Albério, tudo bem?
      Pois é, não é nada impossível que haja roteiristas ansiosos por trabalhar com Romita Jr. justamente porque condiz com uma visão esperada por eles.
      Como indiquei no texto, a consistência e a lealdade são apenas algumas das possíveis explicações para a presença constante do autor na indústria de HQs.

      • Albério disse:

        Não é impossível, é fato! Muitos roteiristas de renome respeitam o trabalho do John Romita Jr. Os vários clássicos que desenhou em parceria com roteiristas como: Chris Claremont (X-Men, X-Men: Massacre de Mutantes, O Julgamento de Magneto, etc), Frank Miller (O Homem sem Medo), Ann Nocenti (A saga do Demolidor), John Byrne (Guerra das Armaduras II), Dan Jurgens (Thor), Mark Millar (Wolverine: Inimigo do Estado e Kick-Ass), Neil Gaiman (Eternos), John Michael Straczynski (Homem-Aranha), Brian Michael Bendis (Vingadores), etc. Com certeza deixei alguém de fora. Todos esses roteiristas poderiam escolher a dedo com quem poderiam trabalhar, porque gozavam de liberdade e prestígio na casa. John Romita Jr. é um ícone no mundo das HQs, e por ter tantas qualidades jamais poderia ser taxado de medíocre. Se tivesse apenas um traço ok, mas só com essa capacidade incrível de desenhar rápido ele já estaria muito acima da média, logo não poderia ser medíocre. Como falei, ele não é apenas rápido, isso é mero detalhe, ele também é competente, leal, dono de um traço único e possui um dinamismo que poucos dominam. Não adianta ter um traço hiper-realista, como alguns, se boa parte não consegue fazer desenhos dinâmicos, fluídos, que passem a idéia de movimento, sequência…

  2. Ou seja, não e mediocridade. Romita e um excelente profissional e embora, não seja um gênio no desenho, e básico e eficaz. Comprometido, Leal e confiável. Não possui traços arrojados, Tam pouco nome, mas garante o fluxo de caixa e a sobrevencia e perpetuação da empresa. E olha onde a Marvel chegou

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá, Gustavo, como está?
      Pois é. O texto inteiro é um não-declarado reconhecimento de uma habilidade profissional do artista. O conceito de mediocridade, surrado no nosso jargão oratório, aqui traz à tona o paradoxo intrínseco, uma mediana de qualidade.

  3. reginaldo disse:

    A resposta esta sua materia. Comecou a ler hq em 1997. Ronita jr ja nao estava no seu auge, embora em Speder-man ele ainda surpreendeu, bem como em demolidor o homem sem medo com Frank Miller. E um erro avaliar a arte por esse prisma considerando as artes realistas e repetitivas dos ultimos anos. Romita jr e otimo e arte nao se resume a desenho bonitinho e sim capacidade narrativa e isso ele ainda ten de sobra. Nao e a arte ‘blocada’ q torna um desenho bom ou ruim. Hj ele ha nao esta no auge. Mas ja teve varios pontos altos nos anos 80 com o Cris Claremont em x em e com An nocenti em demolidor. Recomendo a leitura ecreveja seus conceitos.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá Reginaldo, tudo bem?
      Como apontei no texto, havia uma desesperada necessidade de referências quando tive contato com Romita Jr pela primeira vez. No entanto, é indiscutível que o artista constituiu um estilo próprio que condiz com a expectativa de uma variedade de interesses, como dos roteiristas, da editora, inclusive o gosto pessoal. O post sugere algumas explicações, sem expectativa de impossibilitar qualquer outra.

  4. Rafael Seraphim disse:

    Será que só eu sou fã do trabalho do Romita Jr.? Eu comecei a ler quadrinhos pelos X-Men na época que ele era desenhista regular.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá Rafael, tudo bem?
      Rapaz, vou te falar, sabe que eu também não achava tão ruim a fase dele nos X-Men? Mas aí que está, foi antes dele constituir um estilo mais peculiar. Ele parecia seguir o traço do Paul Smith, talvez deliberadamente, ou talvez por uma indicação editorial.

  5. Santts disse:

    Adoro John Rota Jr. Apesar dos traços simples, e menos detalhados, sempre vi muita expressão nas artes! Sempre imaginei um desenho de X-Men feito por John, animado! Demais seria! Porém poderiam mudar um pouco a arte final. Liga da justiça unlimited, Batman série animada! Desenhos com traços simples mas intesos nas suas expressões e cenas de ação. Meus favoritos, John Romita Jr e Jim Lee! #johnarrebenta

  6. Jacó Cardozo disse:

    Sempre fui fã dos desenhos dele

  7. Welington disse:

    John é um grande artista. Sua arte faz imaginar ao contrário de artistas como jim lee que só Agora começou a compreender o que e arte e sempre entregou tudo pronto nao sobrando nada pra imaginação do leitor. A arte tem. Que fazer a imaginação voar se nao for assim é melhor fazer tudo por pura referência desenhando por cima de fotos como o alex ross.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá, Wellington!
      Pois é, cada um tem estilos bastante peculiares. Tenho a impressão de que Romita Jr. seguiu o estilo do pai até por volta dos anos 80, depois partiu pra um traço mais pessoal.

  8. Nascimento disse:

    Tu não sabe nada de arte de quadrinhos, o cara manda bem pra caramba, com traços marcantes, e só olhar para as capas, você já sabe que é dele, como a arte de John Byrne ou Dave Mazzucchelli você sabe quem é quem, e fica empolgado em comprar a revista. Sal Buscema é melhor do que John Romita Jr.? Com aqueles traços grosseiros de robô. Falou muita asneira, É um dos MAIORES quadrinhistas e ponto final, isso é nao é inveja é pura desinformação, você é muito fraco mais muito fraco mesmo.

  9. Alexandre disse:

    Desculpe, mas dizer que John R. Jr é mediano é um pecado, até porque quadrinhos não são para serem apreciados em um museu de arte moderna com pinturas impressionistas, mas para serem entendidas como quadrinhos simplesmente. Os melhores: John Byrne, John Romita Jr e George Perez❗❗❗

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá, Alexandre!
      Olha, a discussão sobre o que deve ou não estar em museu é bastante longa e merece um (??) texto só pra isso. Mas pra semear a ideia, vale sempre voltar à reflexão do Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados.

  10. Junior Coruja disse:

    Como assim “mediano”??? Defina, em pelo menos cinco aspectos, o que considera mediano em um monstro como Romitinha!

  11. Pedro disse:

    Quem afirma que Romita Jr. é medíocre deveria dedicar bem mais que três adjetivos (“estilo bem característico,[…]simplista,[…] blocado.”) pra explicar o porquê. Uma matéria extensa como essa, partindo de um pressuposto questionável e mal justificado. E o trabalho dele na minissérie “O Homem Sem Medo”, por exemplo, foi altamente elogiado e influente. E foi oferecido à ele pelo próprio Miller antes mesmo do roteiro ter sido finalizado. Lamentável esse artigo.

  12. Pelo visto a base de fãs do Romita Jr. é bem fiel. Pelo visto vale a pena rever meus conceitos quanto ao artista. Curiosamente não consigo definir o que me fez chegar a essa conclusão: se o texto ou os comentários.

    • Nerdbully disse:

      Caro Humberto, nosso leitor assíduo nesses 10 anos de Quadrinheiros! Muito obrigado pelo comentário. Pois é, infelizmente algumas pessoas que leram o texto não estavam procurando um debate de ideias, mas apenas reafirmar o ponto de vista que já tinham antes de sua leitura – em que pese o estímulo ao debate feito pelo autor do texto, o Velhor Quadrinheiro -, que obviamente não é seu caso. Mas se a questão é somente de leitura de textos que reafirmem aquilo que você já sabe como certo, qual o objetivo de ler um texto, afinal de contas?

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