A política como vocação de Palpatine e o golpe dos Jedi contra a República

star wars palpatineMax Weber explica Star Wars.

Reza o ditado, ninguém mergulha no mesmo rio ou lê o mesmo livro duas vezes. O mesmo vale pra gibi, anime e cinema, segredo que nerd aprende cedo nos seus momentos de solidão. Assim, mesmo depois de ver mil vezes, difícil é ignorar a face pedagógica que Star Wars revela a cada nova visita. Caso em pauta: os Cavaleiros Jedi induziram a queda da República e o advento do Império bem antes do surgimento de Sheev Palpatine.

Pense bem: segundo ensinou Obi Wan Kenobi no Episódio IV, os Cavaleiros Jedi foram “guardiões da paz por mil gerações, antes dos tempos sombrios, antes do Império”. Na qualidade de “cavaleiros”, treinados desde a infância em artes marciais, telepáticas e telecinéticas, eles eram excepcionalíssimos guerreiros.

Em termos de proporção, os rivais de um único Jedi só podem ser um Sith, outro Jedi excomungado ou cerca de um batalhão de soldados bem armados. Em Rebels, Kannan Jarrus lembrou que havia por volta de 10 mil Jedi ativos durante as Guerras Clônicas. Sem exagero, eles eram a grande força da República Galáctica. A existência dos Jedi não era apenas um adereço pitoresco da República, eles eram o pilar demarcador daquele Estado.

Como ensinou Max Weber no clássico A Política como Vocação (1919),

 […] deveremos dizer que o Estado é a comunidade humana que, dentro de um determinado território (o ‘território’ é o elemento definidor), reclama (com êxito) para si o monopólio da violência física legítima. […] O Estado é a única fonte do direito à violência. Assim a política significará, para nós, a aspiração a participar no poder ou a influir na distribuição do poder entre os diversos estados ou, dentro de um mesmo Estado, entre os diversos grupos de homens que o compõem. (WEBER, Max. O Político e o Cientista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, s/d, p. 49)

No entanto, mesmo antes do Império, os Jedi eram uma força soberbamente ineficaz. Eles foram incapazes de conter sindicatos criminosos como os Hutt ou os Pikes. Foram inábeis em detectar conflitos regionais entre os nativos e os colonos de Tatooine. Foram também omissos em prevenir o contrabando de mercadorias ilegais, como os Death Sticks (cigarros paraguaios?). Falta grave apontada por Qui-Gonn Jinn, os Jedi sequer foram capazes de debelar a escravidão na Orla Exterior. Não por acaso, tais falhas levaram ao surgimento das guildas de caçadores de recompensas, setor lucrativo ocupado com excelência pelos clãs Mandalorianos.

Nada disso impediu, entretanto, os Jedi de desfrutar de enorme prestígio social. Alimentado pelo ascetismo monástico que os marcava, o estigma heróico e elitista investido nos Jedi romantizava uma profissão eminentemente técnica, de imperativa necessidade no mecanismo social. Mas é justamente a mística atribuída aos Jedi que camuflava a falibilidade dos seus membros. Como visto no Episódio II, esta falha sequer era ignorada por Yoda e Mace Windu, líderes do conselho Jedi.

Não havia órgãos de fiscalização sobre a ordem Jedi, tampouco prestação de contas. Para fins da administração pública, a identidade Jedi é a antítese da transparência. Para o azar da imprensa, talvez tivesse Yoda como porta-voz ou redator do Fale Conosco no site Jedi. Assim, fica claro que o Estado da República existia apesar dos Jedi, e não por causa deles. Mas como ela continuava existindo sem desmoronar de vez?

Em princípio […] existem três tipos de justificações internas de fundamentos da legitimidade de um domínio: Em primeiro lugar, a legitimidade do ‘ontem eterno’, do costume consagrado pela sua imemorial validade […] É a legitimidade tradicional.

[…] Em segundo lugar, a autoridade do encanto (Carisma) pessoal e extraordinário, a entrega puramente pessoal e a confiança, igualmente pessoal, na capacidade para as revelações, o heroísmo ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui.

[…] Temos por último uma legitimidade baseada na <<legalidade>>, na crença na validade de preceitos legais e na <<competência>> objetiva, fundada sobre normas racionalmente criadas, ou seja, na orientação para uma obediência às obrigações legalmente estabelecidas; […] (WEBER, s/d, p. 50-51)

Nos termos de Weber, dois critérios para a legitimidade da autoridade do Estado e dos Jedi são facilmente atendidos. Os Jedi, desde tempos imemoriais, haviam se posicionado como aliados da República e da democracia, conforme disse Obi Wan. Senão por carisma, detinham o respeito das diferentes raças, sentimento sustentado pela religiosa unidade da Força. (Ou talvez porque portassem mortais sabres de luz.). Já o terceiro meio de legitimidade, o da legalidade, exige mais atenção.

No Episódio I compreendemos que existe a figura de um chanceler, ou seja, um representante eleito pela maioria de um corpo legislativo. O chanceler seria o líder político que controla a máquina administrativa. A ascensão de Palpatine, de senador à chanceler, estava garantida afinal, o apoio dos Jedi dava solidez ao processo eleitoral do Senado Galáctico. Já o fato de Palpatine seguir a religião Sith invés da doutrina Jedi, a rigor, não invalida a qualidade dele como político carismático. Não se deve esquecer, ele teve maioria de votos no senado durante a invasão e a expulsão da Federação de Comércio do planeta Naboo.

Como chanceler, ficaria a cargo de Palpatine, um político profissional e vocacionado, a decisão sobre o uso das forças armadas e declaração de estado de guerra. A decisão do chanceler de armar o Estado de um novo exército além dos Jedi, de preferência “laico” e cegamente leal, era mais do que razoável. Claro, sabemos que ele estava por trás das disputas separatistas e das Guerras Clônicas. Mas do ponto de vista da gestão pública, os soldados clones conseguiram ocupar espaços que os Jedi simplesmente não tinham condições de alcançar. A mera presença de soldados nos rincões da república, locais como Mos Eisley, certamente provocou uma diminuição dos crimes a céu aberto.

Efeito adverso, porém, foi o surgimento de caudilhos e milícias, leais apenas a governantes locais, como visto no Cap. 13 de The Mandalorian (The Jedi, Ep. 5/2ª Temp). Reflexos como esse eram resultado direto da “doutrina do medo” implementada por Moff Tarkin e seu mais simbólico instrumento, a Estrela da Morte.

A qualidade jurídica dos Jedi habita mais o campo das inferências do que um aspecto claro tratado nos filmes ou séries. Com uma única ressalva: a Ordem 66, que classifica todos os Jedi como criminosos e inimigos da República.

Importante lembrar que a Ordem 66 aconteceu após uma obscura tentativa de assassinato. Segundo as duas únicas testemunhas do atentado, a vítima, Palpatine, e seu discípulo, Darth Vader, a ação foi planejada pelos Jedi. Para fins de analogia, o atentado contra Palpatine é tratado em Star Wars como o incêndio do Reichstag em 27 de fevereiro de 1933.

“[…] Isto é o princípio da revolução comunista! Não devemos esperar um minuto. Não teremos piedade. Todo funcionário comunista deve ser morto, onde for encontrado, todo deputado comunista deve ser nesta mesma noite ser enforcado.”, teria dito Herman Goering a Rudolf Diels, chefe da Gestapo, ao chegar no parlamento alemão ainda em chamas, segundo relatou o historiador William Shirer (SHIRER, William L.. Ascenção e Queda do III Reich – Vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967, p. 289)

Relembrando, o incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, foi o evento catalizador que levou Hitler ao poder quase absoluto na Alemanha e acelerou a expansão projeto nazista, culminando na 2ª Guerra Mundial. Sobre o episódio, Shirer ressalta que:

“[…] A verdade completa sobre o incêndio do Reichstag provavelmente nunca virá a ser conhecida. Quase todos que a conheciam estão agora mortos, a maioria chacinada por Hitler, nos meses que se seguiram. Mesmo em Nuremberg o mistério não pode ser inteiramente desenredado, embora haja bastante evidência para que se estabeleça, além de qualquer dúvida razoável, que os nazistas é que planejaram o premeditado incêndio e utilizaram para seus próprios fins políticos.” (SHIRER, 1967, p. 289)

O campo da legitimidade jurídica foi o ângulo mais vulnerável da Ordem Jedi. Ao se sujeitar ao Senado, ou seja, a indivíduos e políticos, eles eram passíveis de serem poluídos por projetos particulares, vinganças e revanchismos religiosos-ideológicos, alheios ao bem universal que buscavam promover. Ao se submeter ao senado e aqueles que viviam da política (e não para política) os Jedi ficaram cegos para a degradação da República.  

Mas Palpatine foi um vilão que enganou a todos. Se os Jedi tivessem sido mais atentos eles poderiam ter impedido a queda da República”, você pode dizer.

Discordo. Palpatine não provocou as lacunas e omissões que levaram ao fim da República. Ele se infiltrou e fortaleceu por causa delas, inclusive alimentando a nebulosidade jurídica dos Jedi. Pior, Mace Windu tentou mesmo assassinar Palpatine.

Em tempos em que a partícula mais elementar da democracia, o voto, está sob ameaça e o uso das forças armadas é evocada como água sanitária da política, vale repetir o trecho do discurso do general Mark Milley comandante dos Chefes do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, em 12 de novembro de 2020.

Veja, nós somos singulares entre os exércitos. Somos os únicos entre os militares. Nós não juramos lealdade a um rei ou rainha, um tirano ou ditador.  Nós não juramos lealdade a um indivíduo. Não, nós não juramos lealdade a um país, uma tribo, ou uma religião. Nós fazemos um juramento à Constituição. E cada soldado, representado neste museu, cada marinheiro, aviador ou guarda-costeiro, cada um de nós protegerá e defenderá este documento independentemente do preço pessoal.

O discurso do general Mark Miley foi meses antes da incitação feita por Donald Trump em janeiro deste ano, ato que levou à invasão do Congresso americano por dezenas de fanáticos contra a diplomação de Joe Biden como presidente. Não há qualquer menção à uma “Carta Magna” no universo de Star Wars. Mas é improvável que toda lei fosse resultado da mera deliberação de senadores e um chanceler. Quando invés de guardiões da paz, os Jedi passaram a crer que eram responsáveis por tutelar o governo, eles levaram à queda da República Galáctica. A lição estava lá. Mas o presente a tornou mais clara.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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