A 3ª temporada Star Trek Discovery: como as trevas mudaram a História

Veja como a nova temporada traz de volta o melhor de Star Trek: seu otimismo.

Como bem observou uma pessoa cuja identidade se perdeu, a pandemia revelou que até dá pra viver sem viajar, ir ao bar ou encontrar amigos. Mas é impossível viver sem uma dose diária de cultura e entretenimento. Afinal, não há esclarecimento nem insight sem uma oportunidade de desligar o senso crítico e ser levado pela arte e uma boa história.

Bola da vez demonstrar: a 3ª temporada de Star Trek: Discovery.

***A partir daqui muitos spoilers!!!***

Relembrando:

– Na 1ª temporada descobrimos que Star Trek: Discovery se passa alguns anos antes da série original, nos primórdios da guerra entre os Klingons e a Federação de Planetas Unidos. A protagonista é a Comandante Michael Burnham, irmã adotada de Spock.

Impaciente, ela se amotina contra a inação da sua capitã, Philippa Georgiou. Após a morte dela, Burnham encontra em Gabriel Lorca, seu novo capitão, a validação para reagir à hostilidade Klingon. O problema é: Lorca vem do universo espelho e, pra ele, só a força leva à civilização. Assim, seria a Federação tão diferente do Império Terrano, de onde vem Lorca?

– Na 2ª temporada Burnham e a tripulação da Discovery buscam conter uma nova forma de vida artificial, chamada de “Controle”. Uma entidade transtemporal, Controle deseja assimilar os recursos da Discovery, fincar raízes naquele ponto do tempo e, assim, garantir a própria existência futura. O ônus é a eliminação de toda vida orgânica da galáxia. Com a ajuda do Capitão Pike, Spock e da Enterprise, a saída era uma só: disparar para o futuro, tirando do alcance a chave para do sucesso de Controle. Burnham, equipada de um traje capaz de descolamento temporal, seguida pela Discovery, garante o curso “normal” do tempo.

Mas não antes da maior batalha de tiro no espaço já vista em Star Trek!

Logo de cara na 3ª temporada descobre-se que a Comandante Michael Burnham foi parar mil anos no futuro. Em 3188 a Frota Estelar não existe mais. A unidade que antes existia na galáxia se perdeu. Ao que parece, tudo que restou da Federação e da Frota é a crença de alguns poucos fiéis nos ideais que ela representou um dia.

Ao longo de um ano, Burnahm, ao lado do contrabandista Book, reúne as parcas informações sobre o que aconteceu. Cerca de 100 anos antes dela chegar, não se sabe por qual razão, todas as naves da Frota Estelar, estações de comunicação e postos avançados movidos a cristais de dilithium explodiram simultaneamente. É o que eles chamam de “The Burn”.

Não se trata apenas de um acidente ambiental, um Chernobyl galáctico. Este incidente levou ao isolamento dos cerca de 300 planetas que faziam parte da Federação. Afinal, sem cristais de dilithium, sem chance de comunicação, nem viagens com motor de dobras espaciais. A galáxia se tornou uma terra de ninguém, de povoados pouco habitados, planetas murados e governos xenófobos.

A Discovery e sua tripulação chegam um ano depois de Burnham ao futuro. Felizmente a Discovery está equipada com uma forma alternativa de deslocamento, que não depende dos motores de dobra. Pode ser a salvação da lavoura para o que resta da Federação, um punhado da naves camuflado no espaço e sob um comando precário.

Ora, o que a Discovery traz do passado é a mais autêntica esperança. Nas palavras de Saru (alçado ao posto de Capitão) para o comandante desta debilitada Frota Estelar, a Discovery é capaz de restaurar algo há muito perdido.

– Almirante, você conhece o pintor Renascentista, Giotto?

– Aonde você quer chegar?

– O período anterior à Renascença é conhecido como Idade das Trevas, um tempo de medo. A humanidade estava sitiada pela guerra, pragas e, bem, estava perdendo seu rumo. Giotto ajudou a despertar a Renascença quando, com sua arte, ajudou a criar a perspectiva em três dimensões.

– Ele viu profundidade.

– Ele viu totalidade. E ofereceu o que viu para o mundo. Ele fez a diferença. Pela primeira vez em muito tempo a humanidade olhou para o alto. A Discovery está a serviço da Federação, mas eu acredito que nossa perspectiva singular de um tempo reverenciado possa nos ajudar a olhar para o alto.

A Lamentação, c.1303-05, afresco, 182 x 182 cm, Giotto di Bondone, Capela Arena, Pádua, Itália.

A alusão ao pintor florentino, Giotto di Bondone, que viveu entre 1267 e 1337, não podia ser menos sutil. O Renascentismo foi imensamente favorecido por uma necessidade crescente de trocas. Permutas de conhecimentos, de mercadorias, de comunicação, de diálogo e revelou a fundamental importância da diplomacia. Projetar esse ambiente no futuro, potencializado com referenciais galácticos é uma provocação intelectual refinada, na mais pura tradição de Star Trek.

Numa analogia, as aventuras de Kirk, Spock, Picard, Sisko e Janeway são como o auge da Civilização Romana. Eles foram heróis no ápice da expansão da Frota Estelar, praticantes da cooperação intergaláctica, da busca pelo aperfeiçoamento dos indivíduos e sociedades. Mas, quem é fã bem sabe, esse universo não era perfeito; racismo, xenofobia e corrupção eram epidêmicos na Federação. Mas, por conta de algum desastre ainda inexplicado, Burnham chegou no momento onde estes eventos são reverenciados, “higienizados” de suas inflexões e contradições.

Pense bem: imagine-se um sujeito que se sentou à mesa na última ceia. E, subitamente, ele cai de páraquedas na véspera em que a Igreja Católica se reúne para o Concílio de Trento*!

Em mil resenhas de mil episódios de séries ou filmes já foi dito, Star Trek é uma das mais formidáveis criações da ficção científica. Aqui a razão é por relembrar como uma sociedade pode se transformar – para a melhor – a partir de um enorme obscurantismo, das trevas da comunicação, da técnica, da alteridade e da empatia. Essa transformação começa com passos breves, das formas mais sutis. Para começar, basta olhar para o passado.

* Pra quem não sabe, em linhas gerais, o Concílio de Trento foi a reunião dos cardeais e bispos cristãos entre 1545 e 1563 para fixar os dogmas da Igreja Católica diante do avanço do Protestantismo. Para saber um pouquinho mais consulte em ANDERSON, Perry. Civilização Ocidental – Uma História Concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985. pp. 289-312.

 

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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