Teocrasília: o Brasil como distopia

Conheça a hq de Denis Mello, agora pela editora Guará.

Em Teocrasília o Brasil “exorcizou o demônio do comunismo”, “expurgou a podre esquerda velha” e não existe mais um “ensino ideológico”, que “fazia lavagem cerebral”. Esse futuro foi alcançado por meio da Bancada da Palavra. As ruas são patrulhadas pela Legião do Altar e quem não se enquadra nos padrões pode ser levado para “Campos de Reconsagração”.

Mas nem tudo está perdido. Um grupo de amigos planeja fundar um outro lugar, algo muito próximo de uma utopia em relação à realidade apresentada na hq, onde seriam recuperadas liberdades perdidas, inclusive a liberdade de escolher a própria religião. O local se chamará Resola, Retiro Solidário Laico.

Esse é o início da história contada por Denis Mello, ganhador de diversos prêmios HQ Mix. O quadrinista leva o projeto desde 2016 e agora conta com a parceria da editora Guará. Você pode adquirir a hq clicando aqui.

É digno de nota que cenários distópicos têm se tornado cada vez mais comuns na produção nacional nos últimos anos em várias mídias. Destaco a série da Netflix, 3% (sobre a qual escrevi aqui), o livro Corpos Secos (onde o Brasil foi assolado por uma doença que transforma as pessoas em zumbis) e a hq Destro, ainda a ser lançada, onde, pelo que se sabe até o momento, o mundo todo curvou-se ao poder da esquerda, a ser salvo pelo herói da história, João Destro. Para saber mais veja o vídeo abaixo.

Essa proliferação de narrativas distópicas revela um descontentamento explícito com o status quo, afinal, como característica, as distopias são uma extrapolação negativa do estado de coisas atual, comumente com um caráter pedagógico e didático de alerta. É curioso notar que enquanto Teocrasília extrapola o presente status quo, Destro baseia seu futuro em teorias da conspiração difundidas principalmente nos meios de extrema direita, e, talvez, seja pertinente a pergunta se de fato poderia ser caracterizado como uma distopia, ainda que se apresente dessa forma.

Mas, voltando à Teocrasília, os temas escolhidos por Denis Mello (utopias, distopias e religião) mostram-se relevantes em um nível maior do que sua relação com o estado de coisas atual.

O Brasil foi inicialmente pensado como utopia. Uma das hipóteses para a origem do nome de nosso país é a mítica ilha celta de Hy Brazil. Também é com contornos utópicos que Pero Vaz de Caminha descreve estas terras. O espaço da colônia foi um espaço pensado como utopia para a metrópole.

Outro aspecto importante é a relação entre liberdade e religião na experiência das colonizações das Américas. Segundo o historiador Leandro Karnal, em História dos Estados Unidos, os “ingleses que vêm para a América trazem uma tradição cultural diversa da espanhola ou portuguesa. Os colonos ingleses, por exemplo, convivem com mais religiões. O senso relativo que a história inglesa ajudara a formar estabeleceria uma possibilidade de opção bem maior, uma visão de mundo mais diversificada para nortear as escolhas de vida feitas na nova terra” (p.37). O historiador americano Simon Schama, em O Futuro da América, vai ainda mais longe ao afirmar que

“em outras partes do mundo [talvez o Brasil?] o dogma sufoca o pluralismo – a coexistência de versões conflitantes do melhor caminho para a redenção – e lança mão do poder do Estado para eliminá-lo. Nos Estados Unidos, os Pais Fundadores acreditavam, em vez disso, que a verdade religiosa seria mais bem servida  mantendo-se o Estado fora da atividade de sua propagação; que o poder do engajamento religioso não somente sobreviveria à liberdade de consciência, mas seria sua mais nobre consequência” (p.175).

Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, segunda metade do século 19

Seria possível ver uma relação entre liberdade religiosa e liberdade política, tanto sob o aspecto cultural quanto jurídico e institucional, marcado aqui pela existência de uma religião oficial até 1891, onde institui-se o Estado laico. Porém, oportuno lembrar, nossa Constituição de 1988 foi promulgada “sob a proteção de Deus”.

É possível imaginar que a distopia de um Estado teocrático e totalitário como mostrado em Teocrasília seja a atual utopia para alguns grupos. A hq, como toda boa narrativa distópica, nos alerta para os perigos iminentes por meio de sua extrapolação. Nada mais importante para um momento em que o que há alguns anos chamaríamos de distopia agora é apenas mais uma segunda-feira.

Sobre Nerdbully

AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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Uma resposta para Teocrasília: o Brasil como distopia

  1. Bodi disse:

    Ainda bem que o preâmbulo da CF/88 não tem força de lei.

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