Os erros malthusianos de Thanos

Vilões inesquecíveis são aqueles com as motivações mais convincentes e nesse quesito Thanos talvez seja o melhor vilão do Marvel Cinematic Universe.

 

 

 

*** Spoilers de Vingadores: Guerra Infinita à frente. Siga por Sua conta e risco. ***

 

 

 

Em Vingadores: Guerra Infinita conhecemos a verdadeira motivação de Thanos. Vendo seu planeta natal condenado ao colapso devido à escassez de recursos frente ao excesso populacional, o vilão vislumbrou uma saída fácil, rápida e imparcial: dizimar metade da população, o que resolveria o problema do desequilíbrio entre produção e população.

Thanos não pôde salvar seu planeta, mas pretende salvar o universo do mesmo destino, sacrificando até a própria filha para isso. Não se pode negar a determinação e convicção de Thanos, mas aqui já é traçada uma primeira linha entre heróis e vilões: os primeiros não trocam vidas.

Mas estaria Thanos certo? Para Thomas Malthus (1766-1834), pensador que se destacou por sua contribuição no campo da Economia, sim.

É conhecida a afirmação de Malthus em seu Ensaio Sobre a População (1798):

“A população, quando não controlada, cresce numa progressão geométrica. Os meios de subsistência crescem apenas numa progressão aritmética”.

Ou seja, de acordo com Malthus, sempre existirá um desequilíbrio entre população e produção, gerando pobreza. A desigualdade não está só explicada, está também justificada. Na época em que Malthus escreveu não era possível ter evidências empíricas suficientes para fazer uma afirmação tão categórica, mas ela foi elevada à categoria de princípio, de ciência, principalmente por sua utilidade.

 Afinal, se a afirmação de Malthus é uma lei, tão evidente quanto a da gravidade, não seria possível a eliminação da pobreza, mas seria possível a eliminação dos pobres. Ao menos Thanos já marca sua distância em relação ao pensador inglês: para o vilão, a eliminação deve ser indistinta.

Malthus não vislumbrou a possibilidade do desenvolvimento tecnológico garantir uma produção que pudesse acompanhar a demanda. Mas mais que isso, tirou de sua equação o problema da distribuição.

Essa foi precisamente a contribuição dos pensadores socialistas, especialmente de Karl Marx, que observou que com o modo de produção capitalista haveria finalmente a possibilidade de uma produção para atender toda a demanda, se a produção fosse distribuída igualitariamente.

Talvez o planeta natal de Thanos não tivesse chegado num nível onde o problema da desigualdade fosse resolvido com uma melhor distribuição. Talvez em Titan realmente houvesse uma escassez de recursos tamanha que seria impossível a eliminação da pobreza.

Mas será que com a Manopla do Infinito ao invés de destruir metade da população do universo, não seria possível aumentar a produção para atender toda a demanda? Ou Thanos é tão cego em seus princípios que nem a Joia da Mente foi capaz de fazê-lo enxergar algo tão óbvio?

Thanos está convencido de que seus princípios estão corretos, portanto é capaz de atos imorais e antiéticos para realizá-los. Seu poder só pode ser comparável à sua ignorância, sobretudo em relação àquilo que nega seus princípios.

Convicto e ignorante. Não poderia existir um vilão melhor.

***

Para saber mais sobre Malthus e seus equívocos, recomendo:

Algumas considerações sobre a contribuição de Malthus ao Pensamento Econômico

A volta do espectro de Malthus

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Sobre Bruno "Nerdbully" Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série do Batman estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Historiador e professor de História. Mestre em Ciências Socias e em Zen Nerdismo.
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3 respostas para Os erros malthusianos de Thanos

  1. Luis disse:

    Pena que os últimos 200 anos desmentiram Malthus né? A população mundial cresceu vertiginosamente porém nunca a humanidade teve tanto desenvolvimento e tão pouca fome. Antes que algum esperto venha dizer bobagem, compare a % a população que passa fome hoje e a que passava fome antes da revolução industrial. O aumento de qualidade de vida foi inegável, em todos os aspectos.

  2. Embora eu também tenha muitas ressalvas ao neomalthusianismo, acredito que ele levanta algumas questões relevantes. Como o Jeffrey Sachs ressalta no texto que você linkou, não é só uma questão de obter recursos, mas também de fazê-lo de forma sustentável.

    Por outro lado, também é importante reparar naquelas coisas que podem exacerbar essa percepção de escassez. Essa semana mesmo estava ouvindo uma entrevista com um cara chamado Tristan Haggard – um empreendedor americano que, com sua esposa, resolveu se mudar pro Andes equatorianos –, que fala uma coisa interessante: quando se vive numa cidade grande é muito fácil ter a impressão de que é cada um por si.

    E é claro que é igualmente importante considerar as consequências de um neomalthusianismo acrítico. E aí, pensando aqui comigo, acho que isso ajuda muito a explicar essa tendência neoconservadora dos últimos anos, principalmente no que se refere às reações antimigratórias.

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