Conto: Filhote de Morcego

Ilustração de Mauricio “Picareta Psíquico” Zanolini

Inaugurando a seção Ficcioneiros!

 

 

 

 

 

 

 

Por Alex Xavier*

 

Meu pai é o Batman.

Pronto, falei. A classe inteira me olhando feito uns bocós. Só o chato do Duda tá rindo.

Rá, que tonto, agora cê é filho do Bruce Wayne, é?

Ai, que droga, já caíram todos na gargalhada. Ninguém riu quando ele disse que o pai corria na Fórmula 1 quando, na real, dirige Uber, todo mundo sabe.

Claro que ele não é o Batman da revista, seu trouxa, ele é herói daqui mesmo.

Então, cê é o Robin brasileiro, é?

Ixi, dessa vez até a tia Mari riu, ela escondeu, mas eu vi.

Duda, deixa o Bruninho explicar, ninguém riu quando você falou que seu pai era piloto.

Ela foi inventar da gente vir aqui na frente explicar o que os pais fazem, achei que a história do meu ia me dar uma nota legal, e tô precisando porque esqueci de fazer o trabalho de colagem na semana passada. Eu ia fazer, juro. Mas quando fui pegar a cola na garagem, acabei achando o uniforme do Homem-Morcego numa caixa velha de papelão. Não dá pra me preocupar com lição de casa depois disso, né? Pô, meu pai era super-herói.

Que história de Batman é essa, Bruninho?

Então, fêssora, meu pai esconde o uniforme na garagem da nossa casa, e ele não sai de lá, minha mãe até fica fula da vida, pede pra ele tirar o lixo, trocar a fralda da minha irmãzinha, levar o cachorro pra passear, e nada, o véio some na garagem dele.

Ok, por alguma razão que talvez eu não devesse perguntar, seu pai esconde uma fantasia e arrumou uma batcaverna pra ele, mas isso pode ter outra explicação, sabe?

Ela não entendeu. Não é o Batman-Batman, aquele que é rico pra caramba e não tem que pegar dois ônibus pra trabalhar num cartório. Olha lá, minha vizinha Emília levantou a mão, e agora?

Tia Mari, o Bruninho tá falando do homem que pegou um ladrão de carro na terça, lá na avenida do mercado.

Isso, até que enfim alguém me entende.

Eu vi na TV, fêssora, o bandido disse que um fantasiado bateu nele com um pedaço de pau.

É verdade, a vizinha da minha vó também falou que perto da casa dela tinha uns bandidos tentando estourar caixa de banco e ele usou um extintor de incêndio pra cima deles.

Rita, senta, não precisa gritar tanto.

A-há, agora ninguém tá rindo, nem a tia. Só o Dudu, mas ele é repetente.

E cê acha que seu pai é que tá saindo no jornal, rá, é muito idiota mesmo.

É sim, viu, ô mocorongo, ele não tava em casa nessas noites que o Batman combate o crime, tô ligado porque minha mãe fica dizendo que assim não dá, onde se meteu o safado do Valdemar, identidade secreta é assim mesmo, ele não pode dizer pra ninguém.

Que burro, cê acabou de contar a identidade dele pra todo mundo aqui, rá.

Hmmm, nisso o Dudu tá certo. Será que falei demais. Na dúvida, joguei o apagador na cabeça dele. Cabô risinhos. Agora a mãe tá lá, na sala da diretora, conversando com a tia Mari. O pai não veio. Deve tá salvando alguém agorinha mesmo e eu aqui, na secretaria, vendo o Dudu fazer careta pra mim, com um galo na testa.

Se ferrô, Burrinho.

Vô te provar, idiota.

Fecho o bico. A mãe sai da sala com aquela cara. Vô ouvir um monte, já vi tudo.

Vambora, seu desgosto. E pode esquecer videogame e gibi. Cê passou dos limites.

O pai cai na risada quando ouve a história toda. Tá lá no bar, de noite, torcendo pro Santos com o seu Adílson e o Volneyzinho. Os três rindo muito.

Por isso seu filho faz essas merdas na escola, fica vendo você e esses vagabundos aqui na esquina todo dia se comportando feito moleques.

Ô, Bruninho, se sair por aí espalhando que seu pai é o Batman os inimigos dele vão tudo bater aqui na porta pra tirar satisfação.

Inimigos ou cobradores? Hahaha Porque se acharem que ele é milionário…

Filhão, fica sendo segredo nosso, ok?

Beleza, pai, sei como é. Faz sentido ele nunca ter tempo de jogar bola comigo ou me ajudar a estudar. O homem tá ocupado caçando ladrão. De dia, trabalha no cartório. De noite, vigilante. Hoje deve ser folga, merece. E é mesmo, porque não apareceu notícia dele na TV hoje. Quarta-feira. Até a bandidagem para pra ver o futebol, acho. Pra quinta já tá tudo preparado. Nem consigo dormir direito.

Por que não segue ele de dia?

A Emília não entende nada de super-herói. Mas ela é legal. Ninguém mais veio me visitar no meu dia de castigo. E vai até me emprestar o celular com câmera da mãe dela.

O pai só é Batman de noite.

Ele tem adicional noturno?

Que que é isso?

Não sei, minha mãe que fala. É secretária de dia e garçonete de noite.

Tá, então o Batman tem adicional noturno.

A mãe vai se tocar que pulei a janela do quarto quando me chamar pra jantar. Tudo bem, depois que eu mostrar a foto do pai salvando alguém, ela nem vai ligar. Primeiro, ele para no bar e dá oi pros amigos. Deve ser pra ninguém desconfiar. Segue ladeira abaixo, vira pra esquerda, anda três quarteirões, pega a escadaria, segue pelo beco, cruza a avenida, mais duas ruas. Ainda bem que não tem um batmóvel. Como é que ia atrás? Tem só garagem, sem carro. Opa, entrou num mercado e sumiu lá dentro, não entendo. Vai comprar o que? Não vejo direito da outra calçada. Peraí, e se é lá mesmo que acontece a ação? Vai ver ele já sabe. É Homem-Morcego, pô, bem informado. Tem alguma coisa aí sim. Tipo aquele cara de macacão parado ali na porta, suspeito, fumando. Quem é que usa macacão? Que estranho. Cadê meu pai? Tiro o celular do bolso. Câmera ligada. Outro cara esquisito agora, tá de gravata borboleta e calça vermelha. Aquilo é uma espingarda? Vão roubar todo mundo no supermercado, já vi tudo. O que meu pai tá esperando? Mais um aparece, todo de azul. Que susto, merda de celular vibrando. Nem sabia que funcionava. Mensagem da Emília.

Deu na TV. Polícia matou Batman.

Quê?

Celular já era, espatifou no chão. Pai. Batman. Mas ele tá ali, na porta, com os bandidos, que colocam umas cabeçonas.

Atenção, que vai começar mais um Saldão de Verão. O gerente Rodney tá maluco. Descontos de até cinquenta por cento até a meia-noite. Chega mais, freguesia. Solta a música, DJ.

O Batman tava com um microfone. Agora faz dancinhas. Junto com o Capitão América, o Mickey e o Cascão.

Siga em frente, olhe para o lado, se liga no mestiço, na batida do cavaco…

Ai, caramba. Melhor não tirar foto nenhuma. O Duda não pode ver isso.

Vamos passo a passo outra vez, um, dois, três, vou por no remelexo vocês…

 Tem Batman demais por aí. Mas pelo menos, não tava mentindo. Depois de dez minutos daquilo, já ia voltar pra casa, quando começa o reboliço. O gerente tá bravo na frente do mercado. Batman disparou pela avenida atrás de alguém. Corro também. Virou a primeira esquina, de capa voando, rápido pra um morcegão barrigudo. Tá segurando alguém, uma senhorinha, ou parece senhora, mas é mais moça, só parece velha. O super-herói mascarado prende uma mulher magra como um cabo de vassoura, que chora e deixa cair uns pacotes de bolacha na calçada. Tô vendo o filme na minha frente. Batman contra a perigosa vilã esfomeada e sujinha. Que bosta de filme. Mas papai pega os pacotes do chão e devolve pra ela, que não se mexe, até ele largar seu braço. Corre, moça. Batman volta devagar pro mercado, fala qualquer coisa com os outros e volta pros passinhos deles. Pena, não posso mais tirar foto. Tudo bem, fica sendo segredo nosso, pai.

 

*Alex Xavier é um jornalista refugiado na ficção. Integrante do coletivo Discórdia, publica contos em revistas como Vacatussa, Subversa, Gueto e Escriva e participou da coletânea Eros Ex Machina. Você encontra outros textos dele no Medium.

 

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2 respostas para Conto: Filhote de Morcego

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