Quadrinho é cultura?

Afinal, o que é cultura?

 

 

 

 

 

Por Beatriz Sequeira*

Em algum momento da sua vida você deve ter dado de cara com essa pergunta. É uma pergunta, a meu ver, impossível de responder, mas normalmente a resposta aparece da seguinte forma: música clássica é cultura, mas funk não é cultura; o filme do grande diretor europeu é cultura, mas o filme blockbuster hollywoodiano não é cultura; literatura é cultura, mas quadrinhos (como por muito tempo se disseminou) não é cultura. Entretanto, para aqueles que apreciam esses produtos considerados “inferiores” diante dos demais, eles são sim cultura.

E então, como responder a essa questão? Por isso, proponho um exercício: ao invés de questionar “o que é cultura”, questionaremos “quem definiu o que é e o que não é cultura”.

O mesmo problema, formulado de outro modo

O conceito de cultura, etimologicamente falando, deriva do conceito de natureza. Com o passar dos séculos, “cultura” foi recebendo diversas outras conotações: tendo suas raízes no trabalho rural, a palavra vai, primeiramente, significar “civilidade”. No século XVIII, torna-se o sinônimo de civilização, no sentido de progresso intelectual, espiritual e material, atrelada à ideia de desenvolvimento secular e progressivo, derivada do espírito iluminista

Entretanto, a noção de cultura como a conhecemos hoje foi estabelecida, segundo o pensador inglês Raymond Williams, a partir do século XIX: à época da Revolução Industrial, “cultura” passa a significar um corpo de trabalhos artísticos e intelectuais de valor reconhecido, juntamente com as instituições responsáveis por produzir, difundir e regular esses trabalhos, levando o termo a ser diretamente associado à ideia de “perfeição geral da humanidade” e “prática e estudo das artes”.

Com isso, criou-se o entendimento de que haveria uma “aristocracia espiritual”, ou seja, uma minoria educada e responsável que tivesse como meta definir e enfatizar os valores mais altos que uma sociedade deve almejar, tornando-os universais e ignorando qualquer outra forma de produção e consumo cultural. Essa ideia de uma elite formada para o bem comum da sociedade permanece, de acordo com Williams, até os dias de hoje. A cultura, dessa forma, passou a ser entendida como a antítese normal do mercado e sua noção passou a ser fortemente atrelada à erudição e às artes, restrita a uma pequena porção da humanidade.

Contudo, com o crescimento da população da Europa e das Américas e seu estabelecimento nos centros urbanos ainda no século XVIII, uma nova forma de cultura era necessária. Com a emergência dessa sociedade de massa e a inclusão da maioria da população na sociedade, um enorme mercado de entretenimento que conversasse com os desejos desse novo público surgiu: a “Indústria do Entretenimento”. Em outras palavras, foi apenas com o aparecimento desse novo público e com o avanço tecnológico, seguido pela queda na importância da elite e na diminuição da população das classes mais baixas, que o cenário cultural se modificou radicalmente e deu espaço, no início do século XX, ao que conhecemos hoje como cultura de massa.

Assim sendo, se a cultura, ao longo do tempo, se configurou como um fato aristocrático, de acesso limitado e possível apenas a uma pequena elite, a simples possibilidade de uma cultura partilhada por todos, que se adapta a todos e elaborada por todos, gerou uma pane na configuração. Para a elite, essa nova cultura que surgiu, assim como o acesso do homem de massa aos bens culturais que antes só ela podia consumir, significou a queda de seus valores e crenças e, por isso, deveria ser combatida. Na primeira metade do século XX, os críticos da cultura de massa trabalharam incessantemente para denegri-la e execrá-la, tentando assim reestabelecer os valores do grupo dominante. A história em quadrinhos, produto dessa nova cultura, talvez tenha sido a que mais sofreu com esse desprestígio.

Isso, porque a proliferação dos quadrinhos em larga escala, no início do século XX, caminhou lado a lado com a propagação das teorias críticas à cultura de massa. Antes da chegada da televisão, dos videogames e da internet, os quadrinhos serviram como o exemplo perfeito de tudo que estava errado com a nova cultura. O preconceito contra a história em quadrinhos, assim, também tem sua origem e consequências nas relações provenientes de uma visão racionalista e elitista: graças à sua estrutura industrial de grande escala, que envolve interesses econômicos, haveria o comprometimento do seu relacionamento mais dinâmico com a cultura e a despojaria de qualquer valor.

Dessa forma, os quadrinhos acabaram considerados como “baixa cultura”, opondo-se assim aos grandes objetos da chamada “alta cultura” que deveria, segundo seus defensores, determinar os gostos e comportamentos dos homens. Essa visão, impulsionada pela publicação do livro A Sedução dos Inocentes, de Fredric Wertham, que afirmava que os quadrinhos seriam um caminho para a delinquência juvenil, acabou relegando aos quadrinhos à condição de “subproduto da cultura”.

Os quadrinhos, então, acabaram ganhando a fama que os perseguiu durante décadas: “coisa de criança”, “de analfabeto”, “literatura ruim” e tantos outros adjetivos pejorativos foram dados às HQs ao longo dos anos. Por isso, segundo Sônia Luyten no livro O que é história em quadrinhos, apesar dos inúmeros desenhistas que levaram à frente um pensamento mais amplo, criando histórias que retratam, por meio do humor e da crítica social, cada época, cada momento da vida do ser humano da maneira mais direta possível, marcando, definitivamente, os acontecimentos do século XX, os quadrinhos sofreram muito no que diz respeito ao desprestígio por parte de intelectuais e educadores.

Mesmo quando levamos em consideração, como afirma Luyten, que os quadrinhos “ultrapassaram a condição de instrumento de consumo para tornarem-se símbolo da civilização contemporânea”, as histórias em quadrinhos foram, durante anos, ignoradas como forma digna de discussão e como um objeto cultural legítimo, indignas de dividirem o espaço das grandes e já legitimadas formas de arte.

Entretanto, se por muito tempo os quadrinhos não receberam o devido reconhecimento como um produto cultural de grande valor, nos últimos anos eles parecem ter virado a página do preconceito e se preparado para a aceitação plena. Artistas, leitores e críticos vêm desenvolvendo uma maior confiança na capacidade dos quadrinhos não só como objeto de disseminação cultural, mas também como instrumento de ensino e agregador de valor intelectual. As histórias em quadrinhos passaram por um processo de legitimação cultural que, mesmo que com certo atraso, as incluíram no panteão dos grandes campos de produção cultural.

Mas, no final das contas, esse processo de legitimação apenas reforçou algo que muitos de nós já sabíamos: quadrinho é sim cultura!

* Com cabeça e paladar dignos de uma criança, é viciada em desenho animado e açúcar. Inclinada à reclusão, passa os finais de semana em casa vendo filme velho e comendo froot loops. Enquanto se graduava em Ciências Socais, leu uma tal de Maus. Gostou tanto da coisa que acabou fazendo das Histórias em Quadrinhos seu objeto de pesquisa e sua paixão pra vida. Conheça sua dissertação de mestrado aqui. 

*

Se você curtiu o texto, veja a entrevista da Beatriz ao Cult de Cultura no vídeo abaixo e também sua participação no podcast HQ Sem Roteiro. 

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3 respostas para Quadrinho é cultura?

  1. Stefano disse:

    Sim, é cultura. Infelizmente essa arte foi mal vista por pessoas com visão limitada. 1 pena.
    Ah, uma sra. japonesa (radicada no Brasil) me disse nos anos 50 e 60 o mangá era mal visto no Japão, pois os críticos alegavam que distraía as crianças e jovens e prejudicava os estudos.
    Apesar de tudo, o Japão não teve um “Wertham”.

  2. Belo texto, e melhor ainda o vídeo. Percebo essa mudança de percepção em mim mesmo, que só voltei a me interessar por essa forma de arte depois de 20 anos (parei de ler por volta dos 11).

    Aliás, quando a gente fala no que é ou não cultura, no fundo a pergunta é o que ou não arte. E o primeiro passo parece mesmo ser reconhecer cada meio como tendo as suas próprias particularidades. Nesse sentido, o que você falou no vídeo, sobre evitar comparar quadrinhos como literatura, casa muito bem com o que ouvi Alan Moore dizer certa vez (no caso dele, a comparação foi com o cinema).

  3. Nei Teixeira disse:

    HQ é cultura sim, e de bom tempo! Não a toa intelectuais europeus nos anos 60 já lhe designavam como a “nona arte”. Muito boa explanação e excelente entrevista da Beatriz. A propósito, acho que ela curtirá o seguinte texto na Net: Quadrinhos na educação e filosofia1 😉 (moderação: favor desconsiderar o post anterior – com link)

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