The Boys: Os Super-Heróis precisam de controle?

the-boys-1Se você consegue desviar de balas, ou correr mais rápido do que táquions, […] você tem coisas melhores pra fazer do que salvar o mundo toda a hora. – Billy Carniceiro

Século XXI. Os super-heróis não são mais os mesmos. Novas roupagens e significados foram dadas àqueles que em definição foram criados para proteger a humanidade. Se na Era de Ouro tínhamos quadrinhos que valorizavam os super-heróis, engrandeciam seus atos heroicos, nos tempos atuais vemos várias HQs que fazem o contrário, colocam os supers em posição de vulnerabilidade, indecisão, em que são imorais e cometem atos hediondos de corrupção. E em The Boys escrita por Garth Ennis (Preacher) e desenhada por Darick Robertson (Transmetropolitan) temos justamente uma visão pessimista dos super-heróis, de que eles são mesquinhos e precisam ser vigiados. Será que eles realmente precisam ser controlados?

The Boys é um grupo de agentes que trabalham para a CIA com a finalidade de vigiarem, controlarem e, se necessário, exterminarem super-heróis que saem da linha, que ultrapassam os limites da lei. O grupo é formado por Billy Carniceiro (o líder), Leite Materno, O Francês, A Fêmea e o recém admitido Hughie Mijão, que perdeu sua namorada de forma cruel decorrente de uma batalha entre dois supers. É esse pessoal que será responsável por manter a ordem na sociedade.

Da esquerda para a direita: Carniceiro, Leite Materno, A Fêmea, Hughie e O Francês.

Da esquerda para a direita: Carniceiro, Leite Materno, A Fêmea, Hughie e O Francês.

Garth Ennis coloca os super heróis numa realidade que seja a mais próxima possível da nossa, usando de piadas pesadas, cenas escatológicas e violência explícita (e os desenhos de Robertson contribuem muito pra isto), realizando uma analogia para mostrar como os supers representariam um grande perigo se existissem em nosso mundo e abordando os defensores de capa e collant como pessoas infantis, arrogantes, irresponsáveis, que usam seus poderes para beneficio próprio. E a questão de os super heróis precisarem de controle é sempre colocada em discussão na HQ.

Já tivemos discussões semelhantes em outros quadrinhos, como por exemplo, Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, onde a conduta dos heróis é questionada, se realmente eles estão protegendo o povo ou apenas impondo controle às massas. A famosa pergunta presente na HQ “Quem vigia os vigilantes?” reflete bem isso. Nos últimos anos tivemos o lançamento da Guerra Cívil de Mark Millar e Steve McNiven, onde também é discutida a questão do controle dos supers.

Outro exemplo interessante e que decorre de Guerra Cívil é a HQ ThunderboltsFé em Monstros, onde super-vilões sob comando de Osman Osborn são recrutados com a missão de caçarem heróis não registrados. Para que os Thunderbolts não saiam da linha Osman implanta em cada membro do grupo um dispositivo capaz de disparar altas descargas de choque inutilizando os movimentos corporais. Isto fazia com que os vilões pensassem duas vezes antes de qualquer rebeldia.

Os Thunderbolts.

Thunderbolts.

O excêntrico Burroughs

O excêntrico Burroughs

William Burroughs, famoso escritor que tem grande influência entre roteiristas de HQ como Alan Moore e Grant Morrison realizou pesquisas interessantes sobre controle social. Em seu estudo Os Limites do Controle Burroughs aborda no seguinte trecho uma situação de controle que ocorre de forma semelhante em The Boys:

Considere uma situação de controle: dez pessoas em um barco salva-vidas. Dois autointitulados líderes armados forçam os outros oito a remarem enquanto os líderes dispõem do alimento e da água, mantendo a maior parte para eles e distribuindo apenas o suficiente para manter os outros oito remando. Os dois líderes agora precisam exercer controle para manter uma posição vantajosa que não poderia manter sem isto. Aqui, o método de controle é a força – a posse de armas. Descontrole seria efetuado pelo desgoverno dos líderes e a tomada de suas armas. Feito isto, seria vantajoso matá-los de uma vez. Logo que iniciado uma política de controle, os líderes iriam continuar com a política por uma questão de autopreservação. Quem precisa controlar os outros, a não ser aqueles que resguardam, com tal controle, uma posição de vantagem relativa? Por que eles precisam exercer o controle? Ora, eles precisariam controlar porque se eles resignassem ao controle eles teriam, imediatamente, perdido a posição de vantagem e, em muitos casos, teriam também perdido suas vidas.

Na HQ de Ennis e Robertson em muitas situações os super-heróis apenas querem realizar os seus prazeres mais mundanos, e como conseguem isto? Utilizando de seus poderes ou através do medo que geram por serem poderosos que seriam como as “líderes armados do barco” citados por Burroughs.

Mas em The Boys existe um contraponto, um fator que balanceia o jogo de poder, os super-heróis não são os únicos que detêm superpoderes, o grupo The Boys usam da força para intimidar, também são poderosos e servem ao Estado, enquanto que os supers usam como justificativa para suas ações a luta pela justiça e a defesa a serviço do povo.

Temos então uma briga de gato e rato, onde o controle do mais forte é exercido sobre o mais fraco, onde super-heróis têm poder sobre as pessoas, mantendo privilégios, mas precisam estar atentos aos The Boys que querem exercer o controle sobre eles. A posição de “líderes armados do barco” sempre está alternando e isto garante um certo equilíbrio.

The Boys fazendo o que sabem fazer de melhor… bater em supers.

Outro ponto na HQ é a questão dos jogos de interesse, pois o governo americano tem medo da ameaça que os supers representam para eles e por isto usam dos The Boys para entrarem em ação e colocarem a casa em ordem. Porém o interesse do Estado é de combater essa ameaça dos heróis, mas com o propósito de manterem seus próprios privilégios, o povo nesse cenário caótico fica apenas como uma desculpa para viabilizar as ações de controle. O grupo The Boys é apresentado certas intenções em contribuir para a sociedade com suas ações, mas devemos lembrar que eles servem forças maiores nessa luta que têm pontos de vista um pouco diferentes.

A ideia de super-heróis e de como poderiam vir a existir em nosso mundo já vem sendo questionada há algumas décadas, porém nos últimos anos tem sido debatida de forma mais recorrente. The Boys oferece uma abordagem mais cômica, mais visceral e não poupa o estomago dos leitores ao falar dos atos vergonhosos dos super-heróis durante a história. Este é um quadrinho que não é recomendado para menores de 18 anos por conta de sua brutalidade sem censura, mas em contrapartida é uma HQ que também rende boas discussões ao conter temas relevantes que questionam muito o papel que os supers teriam nos dias atuais, se ainda são importantes para nós e se ainda podemos contar com eles…

Você acha que os super heróis precisam ser controlados?

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Sobre Goes Murdock

Teve suas faculdades psíquicas ampliadas ao entrar em contato com as Luzes Captológicas. Nos bares de São Paulo, entre um vinho e outro, não se cansa de dizer aos amigos o poder transformador dos quadrinhos. Ler e escrever é uma necessidade diária assim como comer, e mesmo rodeado de cardápios culturais sente fome de conhecimento.
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