Os silêncios de uma sinfonia pornográfica: A 2a temporada de Demolidor

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Uma crítica SEM SPOILERS.

Quando foi lançado em 2003, o filme do Demolidor tinha poucas referências de comparação. Eram os filmes do Blade (1998), X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), este último um “gabarito” que o filme do herói cego tentava emular. O resultado, tão ruim, maculou a imagem de seus dois protagonistas, o Demolidor e Elektra, por quase uma década.

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Para ficar mais claro: a qualidade do filme era tão baixa que qualquer chance de sucesso do Demolidor fora dos quadrinhos estava sepultada, algo visível para o mais tapado dos executivos da “indústria do entretenimento”.

Então, ano passado a inesperada parceria da Marvel com a Netflix produziu uma (ou a?) das melhores adaptações que um personagem dos quadrinhos já ganhou para outra mídia. Agora em sua segunda temporada, a série do Demolidor, em seu pacote completo, mais uma vez foi devorada (em poucas horas o/) por fãs incrédulos diante de tamanha qualidade da produção e da fidelidade ao material original.

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O Demolidor, que em 2003 foi sacudido nas mãos de uma indústria pouco fluente no que os quadrinhos têm de melhor, ergueu-se para um novo round – como gostaria o próprio Matt Murdock. Tecnicamente é fácil explicar. Fácil dizer que os elementos da produção – cenários, coreografias de lutas, figurino, som, iluminação – foram a base do sucesso. E de fato eles são excepcionais.  Cheira a cuidado de fã que teve a chance de botar a mão naquilo que ele mais gosta desde criança. Mas isso foi só a embalagem.

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Quase impecável, a 2ª temporada da série apresentou mais nuances que compõem a personalidade do herói de Hell’s Kitchen, seus amigos, e vilões. Como ficou claro em 2015, o coração do sucesso da série está nos roteiros, em diálogos caprichados que o elenco, visivelmente empenhado, explora com um enfoque quase teatral. Além das épicas pancadarias, a série brilha tanto mais quando os personagens secundários ganham o centro do palco.

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Quem, lendo dezenas de revistas em quadrinhos, alguma vez cogitou qualquer empatia sobre Wilson Fisk? Ou então, percebeu a frustração que Foggy Nelson poderia sentir com as constantes omissões do amigo e sócio herói? Quando foi que Stick, o sensei de Matt Murdock, foi algo além de um arquétipo superficial de professor exigente? Grande mérito da série: não há personagem menor que seja menos humano ou menos fascinante do que o próprio Demolidor em cada canto da tela. Na verdade, eles são até mais.

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Claro que os atores, alguns já conhecidos do sucesso, como Rosario Dawson, Vincent D’Onofrio e Scott Glenn, não precisam gastar mais além do talento que já carregam. Mas, qualidade rara que só um bom roteiro permite, eles e os atores “novatos” utilizam com delicadeza e moderação uma ferramenta frequente nos quadrinhos mas difícil de ser empregada na tela: os breves momentos de “silêncio”.

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Uma ausência tangível

“Mas como assim?”

Assim como sinfonias, que têm uma composição longa e complexa, recheada de incontáveis fatores e “obstáculos” tonais que precisam ser harmonizados para sua execução mais exata, a série conta com algumas pausas, omissões em que certos “ritmos” são traçados. Algumas vezes são os sinais da ausência negligente de Matt para com sua firma. Outros, da pulsação ausente dos ninjas da “Mão” (uma tradução que se absteve daquela tradicional nos quadrinhos, “Tentáculo”).

Ou então, o silêncio momentâneo, que serve como sinal do distanciamento que se abre entre Matt Murdock e Karen Page, quando descobrem ter diferenças de opinião fundamentais. Ou da tensão irresistível que marca duas existências tão polarmente opostas como a do Demolidor e Elektra. Ora, assim como a sinfonia, o silêncio é parte da melodia. Ela prenuncia o desastre aparentemente caótico. E a despeito da violência pornográfica em alguns episódios da 2ª temporada, o resultado final é solene, exato, harmônico.

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Os acréscimos do elenco trouxeram algumas gratas surpresas, outras, nem tanto. A atriz Elodie Yung fica devendo um pouco à gravidade que a Elektra dos quadrinhos exerce em todo o universo Marvel. Já Clancy Brown, o imortal Kurgan de Highlander, não precisa falar muito para impor o respeito e o peso que vai desempenhar na trama. Mas acima de tudo, Jon Bernthal foi o maior destaque desta 2ª temporada de Demolidor na pele de Frank Castle, o Justiceiro.

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Quando interpretava o razoavelmente canalha Shane de Walking Dead, Bernthal transmitia exatamente o que o personagem sintetizava: o perdedor alçado à condição de “macho-alfa” relutante diante da adversidade. Em Demolidor, o ator revelou uma complexidade devastadora – e surpreendentemente sublime – de Frank Castle, um efeito que tem o sotaque da humanização empregado por Vincent D’Onofrio ao interpretar Wilson Fisk.

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Castle, um arremedo da violência fascistóide transformada em heroísmo na década de 80, de um personagem raso e brutal que nenhum filme conseguiu disfarçar, se tornou um dos mais humanos heróis que a Marvel já produziu por meio da atuação de Bernthal. Aqui, grandes problemas trazem grandes complexidades.

Quem foi apenas assistir uma série acabou ganhando uma sinfonia.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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6 respostas para Os silêncios de uma sinfonia pornográfica: A 2a temporada de Demolidor

  1. Nerdbully disse:

    1. Eu gosto do Demolidor com o Ben Affleck e a Jennifer Garner.
    2. Melhor caracterização e interpretação da série: Elden Henson como Foggy Nelson.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      1. Fala sério, você gostava é da música do Evanescence. XD
      2.De acordo. Mas menções honrosas ao padre, à madame Gao e até o sujeito que vai descobrir que barulho era aquele no terraço do prédio.

  2. zlactus disse:

    Olha, realmente tiro o chapéu para a série. Desde a primeira temporada eu consegui sacar qual seria a da série. Afinal, fazer você se sentir próximo da dor de Wilson Fisk? Algo que me apaixonou. Agora na segunda temporada, conseguiram mostrar uma coisa que acredito eu, seja difícil de mostrar em ações violentas, no personagem de Bernthal: A dor da perda. O justiceiro é violento, mas ele é um dos poucos personagens que tem mais do que razões suficientes pra ser assim, pra fazer o que faz, eu fiquei preocupado se deixariam isso de lado, mas não… Realmente, parabéns.

  3. marco disse:

    Maravilhosa, explêndida, eu diria…

  4. Goos disse:

    Parabéns ótima crítica!!!

  5. Ainda prefiro Jessica Jones.

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