Sob o telhado de Telhada: sobre os usos dos quadrinhos na política

Nos intervalos das 8as de final da Copa (vai Brasil!! Bora melhorar esse meio de campo porque quero chegar aos 50 sem cabelo branco!!), na última semana foi destacado nos sites de imprensa a publicação da revista em quadrinhos do ex-oficial da Polícia Militar de São Paulo, agora vereador, o Coronel Telhada.

telhada

Das fontes financeiras usadas para a produção das revistas, dos tipos de temas que elas trazem, ao verniz “heroico” que a revista imprime ao coronel, a polêmica do caso é inevitável.

Porque queremos oferecer algo mais que senso comum, é importante lembrar: a associação de quadrinhos e política ou figuras públicas não é algo novo. Longe disso.

wallace 3

Em 1960, o juiz do estado do Alabama, George Wallace, usou quadrinhos como meio de campanha para a candidatura dele como senador daquele estado. A plataforma de Wallace era clara: ele era um segregacionista declarado, tradicional defensor da “Jim Crow Law” nos estados do sul. Assim, ele era um crítico feroz do governo de John F. Kennedy e de seu Secretário de Justiça, Robert Kennedy.

DrLKxKennedy

Prof. Xavi.., digo, Dr. Martin Luther King e Bob Kennedy

Os irmãos Kennedy, pelo partido Democrata, se empenharam pela promulgação de leis federais em nome dos Direitos Civis. A polêmica era que estas suplantavam as leis estaduais do sul, que determinavam a separação de negros e brancos em ambientes públicos.

O próprio John F. Kennedy foi também retratado em histórias em quadrinhos. Mas diferente de Wallace, o presidente aparece como um colega de causa do Superman, alguém que o presidente pode contar em nome da justiça.

jfksuperman

Como se não bastasse, o Superman, para além das páginas de quadrinhos, foi o verdadeiro pivô para a  derrubada de células da Ku Klux Klan. Por meio dos programas de rádio do herói, todos os truques, codinomes, senhas e códigos secretos dos membros da Klan foram divulgados e ridicularizados por milhares de crianças nos Estados Unidos. Este episódio foi destacado no livro Freakonomics, do economista Steven Levitt e do jornalista Steven J. Dubner.

Freakonomics

Também no Brasil, a associação direta entre algum tipo de “propaganda” política e quadrinhos não é novidade. Muitas das revistas editadas por Adolfo Aizen, principal responsável pela publicação de quadrinhos americanos no Brasil, traziam vultos da política nacional, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubithschek e o General Henrique Teixeira Lott.

lott

Talvez a maior obra de referência já escrita sobre o assunto, A Guerra dos Gibis, do jornalista Gonçalo Jr., descreve essa não tão estranha associação entre política e quadrinhos, em minuciosos detalhes.

guerra

Como bem lembrou nosso Sidekick, uma imagem vale mais que mil palavras. Quadrinhos, no mais das vezes, tem como público alvo a faixa de leitores masculinos entre 10 e 20 anos. Por associação, é de se pensar que este seja o público pretendido por Telhada. O vereador, tal como Wallace, não escolheu escrever um livro, ou fazer um vídeo, ou compor uma música. Ele quer alcançar o público jovem leitor de quadrinhos.

telhada2

Não há a menor sombra de dúvida que este quadrinho, como outros no passado, serão esquecidos em mais ou menos tempo. O diferencial aqui é que Telhada, ou seus colaboradores, tentaram objetivamente vincular um sujeito real (o ex-oficial da PM, dotado de todas as características demasiadamente humanas) ao simbólico e subjetivo conceito de “herói”. Não só as intenções, as filiações partidárias do “autor”(es) são abertas e declaradas.

Mas a questão é, os demais quadrinhos, das grandes e pequenas editoras, da Marvel e da DC ou sei lá mais quantas, são diferentes? Como? Algumas vezes já arriscamos alguns palpites.

A História está aí, à disposição. Você pode ignorar. Ou você pode aprender com ela. 

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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3 respostas para Sob o telhado de Telhada: sobre os usos dos quadrinhos na política

  1. Direito de Resposta:
    Incrível como quem trabalha sério e com honestidade incomoda pessoas mal preparadas e mentirosas.
    Muitas matérias tem sido escritas e compartilhadas, em diversos sites de notícias, lançando, de forma leviana, suspeita sobre o lançamento da revista Coronel Telhada em Quadrinhos insinuando o uso de verba pública na sua produção.
    Por isso tenho a obrigação de vir a público para esclarecer e afirmar que a Gráfica K-9, contratada para impressão da revista, já realizou vários trabalhos para meu Gabinete e só o fez porque sempre ofereceu os melhores serviços pelos menores preços do mercado. A empresa contratada presta serviços não apenas ao meu Gabinete, mas a outros órgãos públicos e privados com qualidade e eficiência.
    Ao fazer a divulgação de matéria com título dúbio, insinuando a prática de ações ilícitas, sem apresentação de provas, concluindo de forma irresponsável, mais uma vez o UOL, não faz a divulgação precisa e correta e pretende, desta forma, colocar em cheque as ações do meu gabinete que sempre pautou pela legalidade e transparência em suas atividades.
    Comparar dados isolados sem contemplar o contexto de apresentação das contas é prática de principiantes ou de pessoas mal intencionadas.
    Desde o início não escondemos o formato de contratação da gráfica da revista que, aliás, NÃO ENVOLVEU UM CENTAVO DE DINHEIRO PÚBLICO, pois foi patrocinado pelas empresas anunciantes que acreditam em nosso trabalho e dedicação.
    Grande abraço a todos e a revista continua nas bancas.
    Coronel Telhada

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Prezado vereador,

      de acordo com os artigos 1º e itens II, III e especialmente do item I do Título I – Disposições Preliminares da Lei Orgânica do Município de São Paulo,
      http://www2.camara.sp.gov.br/Lei-Organica/Lei-Organica.pdf

      cientes dos itens I a XII do Artigo 7º da Sessão II, e dos itens I, II, IV e V, do Artigo 8º da Sessão III do Regulamento Disciplinar da Polícia Militar de São Paulo,
      http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei.complementar/2001/lei.complementar-893-09.03.2001.html

      e acima de tudo, de acordo com o Artigo 220, parágrafos 1º e 2º do Capítulo V da Constituição Federal Brasileira, que versa sobre a livre manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação,
      http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

      o seu direito de resposta, assim como a expressão das opiniões dos Quadrinheiros, terá neste blog todo espaço garantido e fielmente observados pelas leis que regem nossa grande nação, caracterizada pela democracia, esta extraordinária forma de organização que acolhe, respeita e incentiva todas as diferenças de opinião, até mesmo das quais discordamos. Somos confiantes na maturidade de nossas melhores mentes, na retidão daqueles que erram e aspiram melhorar e reconhecemos na livre fluência de idéias a verdadeira marca de um impávido colosso.

      Nós, Quadrinheiros, temos absoluto orgulho de fazer parte de um país em que seus cidadãos, uniformizados ou não, funcionários públicos ou não, são agora e sempre ávidos defensores da democracia.

      Nossos votos de boa sorte.

  2. Pingback: A voz do dinheiro: Alan Moore, feitiços e sacrilégios | Quadrinheiros

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