Copa, matemágica e os X-Men: a lenda de Askani

Vai Brasil!! Neymar! Neymar! Hexa! Hexa! Hexa!

Ok. Cumprido nosso maior dever cívico enquanto nação, vamos ao que interessa. Qual seja, quadrinhos, cerveja, matemática e mulher. Não necessariamente nessa ordem.

Se você, como eu, é uma porta em matemática e chegou à idade adulta apesar de alguns professores e não graças a eles, ponha tudo no papel:

Segundo canal oficial de divulgação do governo federal, o gasto executado (pago) com a Copa até agora foi de R$16.742.598.443,19 (dezesseis billhões e pico). Assumindo o dólar com o valor de R$2,40 isso significa US$6.976.082.684,66 (seis bilhões e pico em dólares).

Os funcionários do Metrô de São Paulo são um total de 9475. Por ano, a pasta de transportes do governo despende R$150.487.635,00 (cento e cinquenta milhões e pico) em pagamento de salários. Isso significa R$1.323,55 mensalmente por funcionário. Ou R$12.487.635 mensais (doze milhões e pico) para todos os 9475. Durante a greve das últimas semanas, os funcionários reivindicavam:

– 35% de aumento salarial, ou seja, um acréscimo de R$463,24 no salário, que chegaria ao total de R$1786,79 por pessoa. Isso significa R$16.929.835,25 (dezesseis milhões e pico) por mês para todos em gasto da pasta. Ou R$203.158.023 por ano.

– 8,7% foi o que a Corte do Trabalho definiu como aumento. Ou seja, de R$1.323,55, o salário dos metroviários passou para R$1.438,67 por pessoa/mês. Isso significa R$13.631.398,25 (cerca de treze milhões) por mês no total. Ou R$163.576.779 (cento e sessenta e três milhões e pico) por ano.

Agora pensando em quadrinhos.

Só nos Estados Unidos, em 2012 (os dados de 2013 ainda não foram totalmente compilados), o mercado de quadrinhos movimentou cerca de US$700.000.000,00 (setecentos milhões de dólares).

Em 1991, a revista X-Men vol. 2 (aquela do Jim Lee) vendeu, sozinha, cerca de 8 milhões de cópias a US$1.50. Foi o maior sucesso comercial na história dos quadrinhos. Isso significa US$12.000.000 (doze milhões de dólares) de lucro EM UMA ÚNICA REVISTA.

A própria

A própria

Eu tenho absoluta certeza que você abriu mão de entender algum desses números. Por que? Porque seu professor jumento esqueceu também de ensinar que sem proporção, os números não significam nada.

"Puxa Patick! Quantos colchões você acha que tem aqui?" - "Hm. Dez!" -"Legal."

– “Puxa Patrick! Quantos colchões você acha que tem aqui?”
– “Hm. Dez!”

Para fins de limpidez matemática, vamos usar dois critérios de comparação:

1. Um produto de amplo acesso, facilmente identificável e de suma importância, digamos, o barril de Heineken.

heineken

 

Em oferta numa rede de mercados facilmente encontrada em todo Brasil, ele está orçado em R$36,60 (ou US$15,25).

2. Um jato Boeing 737-800, orçado em cerca de US$75 milhões.

Esse

Esse

Assim:

– A Copa custou 457.448.044 (quatrocentos e cinquenta e sete milhões e pico) em barris de cerveja. Ou o equivalente a 37 aviões.

– Os funcionários do Metrô reivindicavam 5.550.765 (cinco milhões e pico) em barris de cerveja por ano, ou 1 avião. Mas ganharam apenas 4.469.310 (quatro milhões e pico) em barris de cerveja por mês, ou o equivalente a 0,9 de um avião, tipo, o avião inteiro, menos as asas.

– O mercado americano de quadrinhos movimentou 45.901.639 (quarenta e cinco milhões e pico) em barris de cerveja em 2012. Ou o equivalente a 9 aviões.

– A revista do Jim Lee gerou 786.885 (setecentos e oitenta e seis mil) em barris de cerveja em 1991. Ou o equivalente a 0,16 de um avião, tipo, a maçaneta da porta do avião.

E daí? Sobre Copa e greve do Metrô, deixo pros debatedores do Twitter e Facebook que é onde estão as pessoas mais inteligentes desde Aristóteles, Isaac Newton, Karl Marx e Adam Smith juntos. Meu canto é quadrinhos e nesse canto isso é importante pra dizer só uma coisa:

Nunca vai haver mulher como Askani, a heroína mais excepcionalmente heroica de toda a história dos heróis!

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A marreta do mercado impôs a necessidade da multiplicação de revistas em quadrinhos de sucesso no final da década de 1980. As revistas dos X-Men tinham tudo pra atender essa demanda. Muitos personagens nas mesmas edições, uma marca “X” facilmente identificável, enorme potencial de vendas. O marketing era simples. Estampa X na capa, contraste de cores cintilantes (muitas vezes azul e amarelo) = dinheiro no bolso. Era mais fácil que vender Bom-Bril ou Gillete.

Já falamos certa vez, nos quadrinhos dos anos 90 pipocaram personagens femininas com forte apelo sexual, dimensões pra lá de exageradas, pernas, seios e cabelos gigantes. Nenhum segredo, o modelo básico foi definido no trabalho do Jim Lee.

Normalmente um cara tão sutil

Um cara tão sutil

O que o número dos 8 milhões de cópias vendidas esconde é que aquela edição foi uma espécie de consagração da parceria entre o Jim Lee e Chris Claremont, redator que criou os melhores arcos de histórias dos X-Men, como Dias de um Futuro Esquecido e a Saga da Fênix Negra.

Quando da publicação de X-Men Vol. 2 em 1991, já era claro que havia um potencial de milhões de dólares mensais se as editoras seguissem a mesma fórmula. A Marvel passou a contratar todo e qualquer desenhista capaz de copiar aquele estilo. Alguns eram muito bons, colaboradores do artista como Scott Williams e Whilce Portacio. Mas veio também o Rob Liefield.

O autor disso

O autor disso

dentes A falta de talento de Liefeld era rivalizada apenas com a ausência de criatividade. Isso levou à evolução do que virou o “estilo” do desenhista. Expressões faciais idênticas em toda revista, cinturas femininas finíssimas, seios “infláveis”, mil dentes por mandíbula, bazucas, granadas, metralhadoras, lança-chamas e tudo mais que fosse “possível” pendurar nas costas de um personagem. A “obra-prima” do artista foi o Cable, em 1990.

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Cable nasceu pra ser uma espécie de oposto do Prof. Xavier (um dos nomes descartados pro herói era “Commander X”). Em termos narrativos isso era um problema. Cable deveria ser muitas coisas ao mesmo tempo. A presença dele gerou um nó difícil de desatar (mercenário, ciborgue, mutante, viajante do tempo, líder político, militar…). Uma presença tão convulsionada exigia enorme jogo de cintura dos autores e maior ainda boa vontade (ou cumplicidade) dos leitores.

 

A solução? Ela.

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Quando Askani surgiu nas histórias do X-Factor, nenhuma informação foi desperdiçada. Tudo que se precisa saber era despejado em densas 22 páginas. Ela é membro de uma ordem religiosa/militar do futuro inspirada nos X-Men, os Askani. A viagem no tempo significava uma sentença de morte, o que ela aceitou voluntariamente, mesmo aterrorizada.

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A única missão de Askani era salvar o filho de Ciclope e Madelyne Pryor, o bebê Nathan Christopher Summers. Nathan morria infectado com o vírus tecnorgânico inoculado pelo vilão Apocalipse quando este atacava a gigantesca nave que servia de lar para os heróis.

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Askani vem, aniquila facilmente cada um dos inimigos do X-Factor. E dá a Ciclope a opção: ou entrega o filho pra ela, uma desconhecida kamikazi quase tão poderosa quanto a Fênix, ou a criança morreria ali, nos braços do líder mutante. A solução era óbvia.

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Ela se foi, com o bebê. Ciclope cai de joelhos, em desespero e lágrimas. Fim. Sem mais. Você fechava a revista assombrado com a intensidade do que acabou de ver.

Askani foi um golpe de mestre usado por Chris Claremont, Jim Lee e Bob Harras para amarrar dezenas de pontas soltas que se multiplicavam nas revistas X, onde Cable era símbolo máximo.

Ora, de repente tudo ficou simples: Cable era o filho perdido de Ciclope, levado por Askani para o futuro, onde ele foi treinado nas guerrilhas contra Apocalipse e inspirado nos ideais de pacifismo e tolerância defendidos pelos X-Men. Ele foi salvo quando bebê, mas metade do corpo dele ficou metalizado, um resíduo do vírus que o contaminou e reduziu seus poderes mutantes obrigando o herói a usar um baita arsenal.

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E um herói genuinamente interessante

Não só dava margem para a exploração de dezenas de outras histórias (e milhares de dólares em revistas), aquela monumental cagada que foi a criação de Cable gerou uma das mais sublimes heroínas dos quadrinhos. Mas é pra tanto?

Gosto de acreditar que sim. Diferente de muitas heroínas de quadrinhos, Askani não tinha como principal atributo o apelo sexual, como uma Power Girl ou Witchblade, que andam quase nuas. Bastou um pequeno episódio para caracterizar uma personagem profunda, complexa, instigante, forte e independente. A beleza visual dela, um tanto melancólica (ela tem várias próteses pelo corpo), é o aspecto mais secundário da personagem.

É impressionante considerar que as imposições do mercado, frias e inquestionáveis, obriguem pequenas ações criativas, sendo que algumas delas passam incólumes, habitando apenas a breve memória de alguns. Já outros, como Parallax, que foi criado na DC por razões parecidas, ocupam um espaço permanente no cânone dos Lanternas Verdes e que gerou enorme sucesso de vendas nos últimos dez anos. O que define o sucesso de um ou outro?

Parallax

Medoooo

Na última década, os quadrinhos de super-heróis foram muitas vezes acusados de alimentarem uma imagem objetificada da mulher, ou das personagens femininas serem sempre secundárias ou “escadas” em relação aos heróis masculinos, reflexo de uma sociedade patriarcal e misógina. Nós (eu) realmente achamos que isso é uma bobagem, especialmente se pensarmos nos X-Men.

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A personagem Askani jamais ocupou nenhum espaço como protagonista em outras histórias que vieram depois. Houve mais uma personagem com esse nome, alguns traços similares, mas não era a mesma.  

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Askani se tornou uma lenda nos quadrinhos. Não só porque é uma personagem fascinante. Mas talvez porque definiu um patamar difícil de outras personagens alcançarem, mulher e heroína, e acima de tudo, humana.

E não é isso que admiramos no futebol?

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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3 respostas para Copa, matemágica e os X-Men: a lenda de Askani

  1. David Saraiva disse:

    Republicou isso em O Blog do Seu Saraivae comentado:
    Leia todos os números divulgados no texto e tire suas próprias conclusões com a sentença final.

  2. David Saraiva disse:

    É o tipo de conteúdo abordado da maneira que quero ver no Tapioca Mecânica.

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