MEMÓRIAS QUADRINHEIRAS: Gibi de férias

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Férias. Desde muito cedo, uma espécie de sinônimo para gibis. Claro que não era a única época do ano em que eu lia gibis, mas, por muito tempo, era quando eu ganhava gibis novos. E gibis grandes, cheios de histórias! Fazia parte da estratégia dos meus pais para me manter ocupado (e calado) nas horas em que eu me cansava de brincar de qualquer outra coisa. Livros também, mas isso eu ganhava o ano todo. Gibis novos e grossos, só nas férias mesmo. (Também ganhava gibis de segunda mão ao longo do ano).

de001Embora eu me defina como monicólatra hoje, meus gibis de férias sempre foram Disney, especificamente a série Disney Especial. Por um motivo muito simples: a quantidade de histórias. As histórias de Mônica e companhia sempre me agradaram, mas os gibis eram finos demais para que valessem como gibis de férias. Uma edição de Disney Especial podia me manter sossegado por algumas horas (ou menos — sabem como é percepção de tempo de criança, né?). E, além do gibi novo, eu sempre levava alguns velhos na mala. Então, meus pais realmente tinham chance de descansar um pouco. (Pelo menos da minha bagunça, porque meus irmãos eram mais agitados).
de180Disney Especial foi publicado pela Abril de junho de 1972 a outubro de 1999 com periodicidade variável, totalizando 180 edições (incluindo 4 títulos de reedição já no final da série). Entre agosto de 1980 e dezembro de 1998, 107 títulos foram republicados com o selo Disney Especial Reedição, paralelamente à série original. Com quase 300 páginas e uma média de 25 histórias (depois reduzida para 20), cada revista apresentava um tema e reunia histórias produzidas nos vários estúdios licenciados espalhados pelo mundo. E com uma grande vantagem em relação aos almanaques de férias: sem passatempos. (Eles até eram divertidos, mas tinham o defeito de só poderem ser resolvidos uma vez.)

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Não acredito que aprendi algo importante, fora aprimorar minha velocidade de leitura, mas guardo algumas das histórias com carinho na lembrança. A Patópolis ultra-tecnológica projetada pelo Prof. Pardal em As Máquinas (abril, 1975); os apuros de Mickey para controlar os danos do selvagem Quarta-Feira em seu primeiro contato com a civilização em Os Amigos (março, 1982); Tio Patinhas em uma luta de robôs gigantes para proteger sua caixa-forte ou Carlinhos Crânio-de-Aço, o robô inventado pelo Pateta (???!!!) que podia prever o futuro (???!!!)² em Os Robôs (março, 1980); Mickey, Pateta, Donald e Pluto recrutados pelo BFI (Bureau Federal de Intrigas) para impedir Mancha Negra de causar uma guerra em Os Espiões (agosto, 1976); fora as adaptações de filmes como Se meu Fusca falasse, O passo do tigre, O cavalo sem cabeça, O maior atleta do mundo, etc.

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Mas é claro que existe uma que é mais especial: História e glória da dinastia Pato (#100, maio, 1987). Produzida na Itália em 1975, a saga de 2500 anos da família Pato é contada desde o Antigo Egito até o tempo presente, mostrando que sempre houve um pão-duro, um esquentado, um sortudo e três garotos geniais em cada geração. As várias histórias da série foram publicadas em revistas soltas e reunidas pela primeira vez na icônica centésima edição de Disney Especial.
2qbawxtSó anos mais tarde eu soube que a arte e o roteiro foram mutilados por causa da censura. Em 1987, já sob governo civil, mas ainda com um forte presença do espírito da ditadura, a versão editada foi publicada pela última vez. Com o corte de quase 18 páginas da saga original, o roteirista e desenhista Euclides Miyaura foi escalado pela Abril para criar uma história extra e não deixar logo o número 100 de Disney Especial com menos páginas. O resultado foi A Quinta Mosqueteira, estrelada pela Margarida, que, a despeito das circunstâncias lamentáveis em que ela surgiu, é uma das melhores histórias da saga. (Em 2009, a saga completa e sem cortes foi republicada em 2 volumes, sem a história brasileira e com uma história extra italiana, que destoa bastante da arte original, mas você pode ler a versão brasileira de 1987 aqui).
Digitalizar0135História e glória da dinastia Pato foi minha primeira experiência com uma saga em quadrinhos, muito antes dos gibis heróicos entrarem na minha vida. Não tenho dúvidas de que ela ajudou a preparar o caminho para os roteiros mais densos e longos que hoje fazem parte da minha rotina de leituras. Meus pais não sabiam, mas, ao buscarem alguns momentos de sossego nas férias, eles ajudaram a formar um grande leitor. E não só de gibis. A Abril ainda lança edições temáticas, mas não mais como coleção. De vez em quando compro uma para matar a saudade.

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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Uma resposta para MEMÓRIAS QUADRINHEIRAS: Gibi de férias

  1. alessandro disse:

    Um dos meus favoritos era a d.e. os milionarios. Alem de trazer estorias com lições de economia e da propria origem do dinheiro, há uma em q o patinhas arrisca toda sua fortuna para salvar um cachorro reumático. mais de vinteanos depois, ainda me lembro de algumas cenas em q o pato demonstra nao ser tao avarento…

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