A TV está preparada para John Constantine?

Semana passada foi noticiado que a rede americana NBC de televisão vai produzir uma série baseada em Hellblazer, a HQ protagonizada por John Constantine. A produção, diz a Rolling Stone, contará com os roteiros de David S. Goyer, respeitado pelos fãs de quadrinhos por ser o roteirista da trilogia de Batman de Chris Nolan. Especulação de elenco não demorou. Difícil não ficar empolgado.

Pra quem só conhece a versão do filme de 2005 com Keanu Reeves, verdade seja dita: John Constantine pode ser um protagonista, mas ele não é um herói. Longe disso…

Criado em 1985 como coadjuvante das histórias do Monstro do Pântano, Constantine era um cínico empolado, tentava tirar vantagem das desventuras de Alec Holland (ou a planta consciente que por algum tempo acreditou ser Alec Holland). Ideia bem descomprometida de Alan Moore e John Totleben, John Constantine era a imagem e semelhança do cantor Sting.

John_Constantine

Nas páginas de Saga of Swamp Thing, Constantine era um arrogante desprezível, mas estava no auge. Ao voltar para Londres, seu habitat natural (e ganhar a própria revista), foi um buraco sem fundo. Foram 24 anos de queda, de 1988 até 2012, na última edição de Hellblazer.

Nesse tempo ele mentiu, traiu, matou, enganou, perverteu, quebrou, fodeu, ignorou, esqueceu, esnobou, xingou, bateu, insultou e blasfemou quase tudo ou todos que por algum azar do destino cruzaram o caminho dele. E não havia culpa que durasse mais do que um copo de cerveja com Chass, seu melhor (único) amigo.

John_Constantine_0022

Lá pelos anos 80 os heróis tinham que ostentar alguma falha de caráter (quase uma regra). Alcóolatras, neuróticos, paranoicos, violentos, tudo embalado em barba mal-feita, dentes cerrados e um ar de ressaca. Pense-se Wolverine, Venom, Lobo… No mais das vezes esses personagens foram tidos como “anti-heróis”. Tremenda bobagem.

Consultando vasta bibliografia, é possível reconhecer as primeiras ocorrências de anti-heroísmo em Lord Byron (pessoas de Letras, ajudem). Mas a referência mais frequente à designação  do termo é quase sempre “o homem sem-nome”, personagem de Clint Eastwood na na “Trilogia do Dólar” de Sergio Leone. Nessa situação o termo parece válido: trata-se de um cara que é essencialmente egoísta e esse é o ponto.

Se o herói é aquele que se sacrifica por algo maior, o anti-herói é aquele que sacrifica a todos em volta para atingir seus objetivos (que são os mais egoístas possíveis).

Hellblazer-cancelled

 Constantine consegue ser pior. Vai além, ele extrapola o conceito de “anti-herói”. Aos fatos:

– ele enrolou John Kennedy e mandou a irmã do Papa Midnite pro inferno pra se mandar do limbo;

– ele matou o próprio irmão gêmeo;

– ele mandou a alma do próprio pai pro inferno;

– ele conjurou Sid Vicious pra um show ficar mais legal e o Monstro do Pântano no aniversário pra produzir um baseado de maconha;

– ele deu um bisgui na Kit Ryan (namorada do amigo dele que morreu),  na Abigail Cable (namorada do Monstro do Pântano – fingindo ser o Monstro) e em uma sucubus um dia antes de se casar;

– ele deu um soco na cara dele mesmo com 17 anos porque a versão jovem deu um bisgui na namorada da versão mais velha dele (viagens do tempo são complexas);

– ele provocou a morte de quase todas as namoradas;

– ele provocou uma guerra civil no inferno pra poder continuar fumando;

– ele transformou um poço de água benta em um poço de cerveja benta (e deu um copo pro capeta);

– ele cortou as asas do anjo Gabriel por vingancinha;

– ele espancou dois garotos e jogou uma maldição no namorado da sobrinha simplesmente porque estava de mau-humor;

– ele não quis morrer porque iria pro Céu.

constantine

Diferente de vários heróis de quadrinhos, não há nada de extraordinário em John Constantine. Seu único valor é um total desprezo pelo solene, pelas regras do Céu ou do Inferno. Na melhor das hipóteses ele é volúvel nas lealdades.

Trazer Constantine para o cinema foi um risco. Engessá-lo num formato despido de cinismo, tabagismo suicida ou puro mau-caratismo implicou num fantoche oco e insípido do que compõe o personagem original. Alguém discorda que foi esse o produto que Keanu Reeves entregou?

Situação diferente é a televisão, que nos últimos anos tem produzido séries como House, The Shield ou Breaking Bad, onde as flexibilidades morais dos protagonistas são o motor dos enredos. O único princípio que governa John Constantine é a própria vontade de se satisfazer. Anti-herói é um eufemismo. Vamos ver se a TV  vai fazer o que o cinema não conseguiu. Os tempos para isso parecem promissores.

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7 respostas para A TV está preparada para John Constantine?

  1. Cher Lopes disse:

    Nem House, nem WW chegam aos pés do que Constantine é e faz, e a TV nunca vai mostrá-lo como os quadrinhos mostram. Aliás, sou de Letras e Byron tbm foi fichinha, perto de Constantine. Acho que ele só sobrevive, incólume, n HQ.

  2. Marcelo Rua disse:

    Seria heroísmo enganar o diabo com água benta e anti-heroísmo provocar uma guerra no inferno só para continuar fumando (Hábitos perigosos, capítulos 5 e 6) mas mandar a alma dos outros pro inferno sem merecer não faz dele nem uma coisa nem outra, faz dele um vilão…

  3. Loituma disse:

    Acho que dificilmente um filme conseguiria traduzir a real personalidade do Constantine dos quadrinhos, porque até que a pessoa conseguisse absorver a sua natureza, o filme já teria extrapolado o limite de tempo e nada sobraria para a trama e outros personagens. Francamente acho que foi um ganho de dinheiro em cima de fãs curiosos. Ingenuidade seria pensar que esse tipo de personagem possa ser traduzido no cinema. O que é dos quadrinhos é dos quadrinhos. Assim como tem uma infinidade de filmes sobre livros que mais ofendem do que satisfazem os fãs.
    E acho que não vai ser diferente em uma série, cujo investimento geralmente é menor por conta da rotina criada quando se propõe fazer uma série. Com pouquíssimas exceções.

    Bom texto, gostei de conhecer um pouco mais desse personagem.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Então, as interpolações de mídias exigem uma fluidez dos personagens… O mesmo vale para mudanças de autores de personagem. Nessa acho que vale o que diz o careca Morrison, personagens são como instrumentos musicais. Cada autor (ou mídia) toca de um jeito. Algumas dão certo. Outras nem tanto. Imagine se o Stan Lee continuasse escrevendo o Homem-Aranha desde a década de 60.

      E mira a blasfêmia, até que curti assistir o Constantine do cinema. Não era o Constantine que gosto dos quadrinhos, mas me fez passar a tarde razoavelmente contente.

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