Wolverine Imortal: o mundo precisa de um Ombudsman! (com spoilers)

Direto ao ponto.

X-Men Origens: Wolverine (2009) foi uma atrocidade de ruim? Claro. Wolverine Imortal é melhor? Sem dúvida. Quanto melhor? Tipo uma unha.

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Pronto? Passou? Vamos em frente.

Convenha-se que não é nenhuma surpresa. Um personagem cuja importância é condicionada ao vulto dos X-Men, não é de espantar que segurar o rojão sozinho desague em fracasso – apesar dos esforços honestos de diretor James Mangold, roteiristas e especialmente de Hugh Jackman (que deve sua carreira ao personagem). O filme só se fez valer por conta de uma mísera cena pós-crédito que reinsere o herói junto aos X-Men. Assim o filme não passa de um desnecessário preâmbulo de duas horas para um minuto de recontextualização.

Agora, o que espanta, sim, é a crítica, tanto a especializada como imprensa em geral, em saudar Wolverine Imortal como uma reconciliação com o público (depois de fracassos como X-Men 3 e o próprio Origens) ou como uma restauração da dignidade do herói numa narrativa “contida e centrada nos personagens”.

Não esperava algo diferente da Isabela Boscov. Embora eu considere muitas das suas críticas superem as do NY Times e do Guardian, ela não é uma especialista em quadrinhos. Contudo, críticas positivas sobre Wolverine Imortal feitas por nossos patrícios nerds em alguns sites causa um sentimento de… “lesa-majestade”. Lesa majestade nerd, dos quadrinhos, lesa o que nos faz gostar da ficção, do cinema e dos heróis que admiramos. Há uma sensação de desamparo daquelas referências que julgamos confiáveis.

Ora, vá lá, há seus méritos no filme. Há o cenário de depressão e desorientação que Wolverine criou para si nas montanhas do Canadá (algo que Jackman invoca vigorosamente no início do filme), duas boas sequências de ação (o velório do velho Yashida e a perseguição num trem bala) e um colírio pro público masculino, a atriz Tao Okamoto, sublime – e apagada – como Mariko Yashida. E só.

Os quadrinhos japoneses são os mais violentos que já vi, mas eu não reconheci uma exaltação dos criminosos – principalmente porque eu não consigo ler quadrinhos japoneses e não sei quem são os criminosos! A violência ali é honesta. Eles querem ser violentos e admitem que é isso que eles querem na ficção deles.

Quando Frank Miller soltou essa, em 1981, subia à fama feito um foguete. A HQ que o deixava célebre naqueles anos Eu, Wolverine, enredo sobre o qual o filme Wolverine Imortal foi inspirado, foi uma tentativa de harmonizar o lado violento do herói com algo mais solene, a imagem simbólica do samurai. Foi a mesma artimanha já utilizada por Miller quando transformou o demolidor Demolidor em “ninja”. Quando Chris Claremont assumiu o projeto de quatro edições de Wolverine, em 82, Miller foi o cara convocado para dar substância ao herói.

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Porém, achar que o Frank Miller (ou criar um filme a partir de uma história dele) é o sujeito mais adequado para divulgar o que é “típico” ou “natural” da cultura, hábitos e códigos japoneses é a mesma coisa que me pedir para falar sobre os hábitos sexuais das abelhas ugandenses. Maior que seja meu empenho, ajudarei apenas a reforçar uma imagem carregada de estereótipos. O que deve ser repleto de rituais e sentidos, transformarei em um significado pobre, fetichizado e esquecível. Além disso elas ficarão muito putas de me intrometer na intimidade delas.

Agora um exercício. Pense com o velho aqui:

A = edificação e estabelecimento de milênios de códigos, hábitos e cultura japonesa;

B =  representação simbólica de A nos mangás;

C = interpretação do Frank Miller/Claremont sobre B;

D = filme do James Mongold sobre C;

E = representação simbólica de Wolverine, cultura e honra japonesa sobre D.

A partir de agora, o “E”, quase sem outro rival, será a referência para quase tudo que o Wolverine representa para muitas pessoas nos próximos anos. Me chame de velho, mas é um saco ter que justificar que esse filme não faz justiça ao herói que admiro desde fedelho.

Ok, tudo é uma cópia, o venerável Picareta já nos ensinou. Mas não sou obrigado a fazer um juízo positivo sobre esta cópia em particular. Acho que esse filme é um desserviço para quem curte heróis e quadrinhos.

E você?

PS-  Nós, quadrinheiros, proletas cansados e humanos, ao sair do cinema saímos com uma dúvida. Não lembrávamos se a Yukio era a Lady Letal eram a mesma pessoa.

Não, não são. A Lady Letal é a Yoriko Oyama, filha do Lorde Vento Negro, o cara que bolou a técnica de oesteointegração adamantina.

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A ninja Yukio, além de agregada do clã Yashida e que dava uns pegas no Logan debaixo da escada, era membro de uma operação secreta do prof. Xavier para promoção da coexistência pacífica de humanos e mutantes.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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6 respostas para Wolverine Imortal: o mundo precisa de um Ombudsman! (com spoilers)

  1. Quotista disse:

    Só uma besta como o Frank Miller poderia tirar conclusões sobre uma cultura quadrinhística sem conseguir entender uma palavra do que está escrito ali e achar que essas conclusões são legítimas.

  2. Discordo. O filme tem seus méritos. Não é uma obra-prima, mas acerta em muitos pontos. Para mim, dentro da mítica que eles já haviam estabelecido para o personagem, foi um jeito razoável de adaptar o arco “Eu, Wolverine”, não a história em si, mas um pouco da temática e do espirito da coisa. É um filme que passa de ano, com a média + uma gordurinha, tipo 6,5-7,5. Anos luz à frente do seu antecessor…

  3. Nerdbully disse:

    O filme é ruim, não só como adaptação, mas como filme mesmo. O Logan avisa a Mariko que ir para a casa da família é um erro e mesmo assim eles vão para lá; motivações no mínimo discutíveis de todos os personagens (não vou entrar em detalhes para não escrever outro texto aqui). Teve gente comparando a atuação do Jackman com a do Christopher Reeve! Em tempos medíocres um filme medíocre é aceitável, infelizmente. Na minha matéria ia reprovar sem dúvida.

  4. Luiz André disse:

    Filmes como este e opiniões que recaem em apontar este ou aquele produto midiático como “a melhor coisa dos últimos tempos da última semana” estão se tornando uma constante quando lemos resenhas e críticas de pessoas que não buscam o material original nem a referência que inspirou o artista a criá-lo. É nestas horas que o título daquele filme dos irmãos Coen cai como uma luva para velhos nerds como nós: “No country for old men”. E viva a mediocridade.

  5. Pingback: As três mortes de Wolverine | Quadrinheiros

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