É o fim dos filmes de Super-heróis??

Foram bons 13 anos. Alguns filmes de heróis foram excelentes, outros nem tanto. Mas talvez todos eles estejam perto do fim. Como saber? Bom, isso já aconteceu antes.

Blade, em 1998, pegou todos de surpresa, um sucesso que mostrou haver potencial cinematográfico nos quadrinhos. O segredo era evitar os erros de Batman e Robin (1997). Então veio 2001: o Homem-Aranha de Sam Raimi e X-Men de Bryan Synger arrebentaram nas bilheterias e inauguraram um domínio dos filmes de heróis nos últimos 13 anos.

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Películas de heróis foram uma presença tão sólida que não houve um só ano de lá pra cá sem um super-herói no cinema. Com a trilogia de Batman, de Chris Nolan e o arrebatador sucesso de Vingadores, fãs, críticos e bilheterias concordavam que os filmes de heróis eram produtos de excelente qualidade artística, conceitual e de execução. Com diretores fiéis ao material original, com grande liberdade criativa e imbuídos da confiança dos produtores de Hollywood, é certo afirmar que ainda temos uns 10 ou 15 anos de sucessos derivados dos quadrinhos.

Fora aqueles filmes já prontos e que estão para sair ainda este ano, da Marvel são previstos o Capitão América 2, O Espetacular Homem-Aranha 2, X-Men – Dias de um futuro esquecido, o reboot de Quarteto Fantástico, Os Vingadores 2, Homem-Formiga, Guardiões da Galáxia e talvez do Demolidor.

Da DC é bem seguro esperar o lançamento de Liga da Justiça, um novo Lanterna Verde, Flash, Mulher-Maravilha e sabe-se lá mais quantos filmes do Superman.

A presença destes heróis, hoje, parece irrefreável. Esse “imperialismo nerd” no cinema é calçado em lições de décadas anteriores. Foram gerações inteiras de filmes blockbusters, de filmes autorais, de filmes em que os atores eram tão importantes quanto os enredos.

Há 30 anos atrás, o sucesso de um filme blockbuster era garantido em sequências ou merchandising de brinquedos e derivados garantiam sucesso a longo prazo.

Há 50 anos atrás houve uma outra época, em que filmes autorais, de temas obscuros, introspectivos e anticlimáticos eram a regra do mercado. Foi a chamada Nova Hollywood que dominou o cinema americano até o fim da década de 70.

Há 70 anos atrás foi o tempo em que o sucesso de um filme era garantido pela presença de certos astros, leais a determinados estúdios em contratos exclusivos. Esta foi a era do Star System.

Se ficou confuso, em resumo:

O início e fim de cada “era” ou “estilo” são indicados em filmes que de certa forma são emblemas do contexto que inauguraram (e como a regra da casa é falar bobagem descomprometida, essa separação não tem rigor científico, aqui é só pra sustentar um ponto de vista – o meu).

Todos os períodos chegaram ao fim no momento em que seu estilo, modos narrativos ou técnicas de filmagem chegaram num ponto de saturação. A maneira mais segura que escolhi de indicar isso é o fracasso de bilheteria ou a escassez de espectadores.

O Star System, que virou um cânone com Casablanca ou …E o Vento Levou (ambos de 1939) é considerado a era de ouro do cinema americano, quando os estúdios faziam dos seus filmes verdadeiras plataformas para seus atores. Clark Gable, Elizabeth Taylor, Cary Grant, Humprey Boggart, Ingrid Bergman, e não seus filmes, eram o que interessava de verdade quando o público pagava pelo seu ingresso. O tema, o enredo ou ser um bom filme eram brindes quase secundários. O que importava eram os atores.

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Os cartazes não brincavam em serviço

Boa parte dos filmes de Western, os faroestes, foram produzidos durante o Star System. A parceria de John Wayne e John Ford eram um investimento seguro e praticamente sem risco para a MGM, Warner e Paramount. Mas os espectadores passaram pouco a pouco a assistir filmes na incipiente televisão ao invés dos cinema, o que significava prejuízo.

O lançamento de Ama-me Com Ternura, de 1956, talvez tenha lançado o último representante do Star System, o então ídolo adolescente, Elvis Presley, que recebia polpudos cachês por sua presença. O estilo otimista, musical e “final feliz”  dos filmes da velha Hollywood chegariam ao fim uns dez anos depois quando tamanho gasto não compensava o investimento.

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Numa jogada arriscada, os estúdios passaram a apostar em novos talentos, diretores e roteiristas jovens, como Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola, Woody Allen e Roman Polansky. Esta era a Nova Hollywood. Seus diretores eram inovadores e traziam um repertório político/literário mais denso nos seus trabalhos.

A Nova Hollywood virou cânone com filmes como Taxi Driver ou  O Franco Atirador. Neles, os clímaxes eram diluídos, os diálogos mais longos, os temas eram mais sóbrios ou até pessimistas. Sexo, até então apenas aludido nos velhos filmes, era parte integrante dos enredos. Os atores eram brindes quase secundários. O que importava era a técnica de filmagem, com enorme influência do cinema europeu e principalmente o conteúdo da história contada.

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A Nova Hollywood começou com filmes como Bonnie e Clyde, de 1967, em que cenas de desconcertante violência eram intercaladas por breves tiradas cômicas ou tórridas cenas de amor entre os protagonistas. Inicialmente o risco para os produtores era mínimo, na medida em que a produção deste tipo de filme tinha custos baixos. Mas, com o sucesso, o investimento aumentava. Foi a Nova Hollywood que produziu filmes como Rocky, O Bebê de Rosemary, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e O Poderoso Chefão.

O lançamento de O Portal do Paraíso, de 1980, talvez tenha sido o último exemplar da Nova Hollywood. Um faroeste romântico, o filme foi dirigido por Michael Cimino, famoso após O Franco-Atirador. Na produção diz-se que ele destruía sets e demitia funcionários em arroubos furiosos de perfeccionismo. Milhões haviam sido gastos num filme que frustrou os espectadores, confusos diante de uma mistura de gêneros pretensiosa e desajeitada. A produtora, United Artists, foi à falência por causa do filme.

Numa jogada arriscada, o antídoto para esse tipo de desastre estava nas mãos de um outro grupo de diretores que valorizavam sua integridade artística. Gente barbuda e egocêntrica que gostava de total controle sobre o que faziam. Novamente se arriscando, milhões dos bolsos da Universal Pictures e da Fox foram colocados nas mãos de Stephen Spielberg e George Lucas.

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A Era dos Blockbusters virou cânone como filmes como Tubarão, de 1975, e Star Wars, de 1977. Juntos, eles redefiniram completamente o modo como Hollywood conduz a produção cinematográfica.

Passados quase 40 anos, ainda não há distância histórica que esclareça com exatidão a influência desses filmes em tudo que veio depois ou a intensidade de sua importância. Seja como for, Spielberg e Lucas fundaram um verdadeiro modelo. Os enredos eram quase brindes secundários, desde que fossem simples. O que importava era a intensidade das sensações provocadas pelo filme: maior, mais explosivo, mais colorido, mais assustador.

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A fórmula do Blockbuster é simples: são roteiros originais para cinema, narrativas lineares, masculinas, com começo, meio e fim, preferivelmente com toques míticos, mágicos ou inexplicáveis, mas com temas fundamentalmente humanos. Crescer, amadurecer, exceder, retornar, superar. Se possível, estender a conclusão da narrativa por dois ou mais filmes, tanto quanto possível. Foi a Era dos Blockbuster que trouxe filmes como Duro de Matar, RoboCop, Predador, Rambo, Conan, O Exterminador do Futuro, Soldado Universal, De Volta para o Futuro e Indiana Jones.

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Mas o verdadeiro diferencial do Blockbuster não era apenas o filme, mas o consumo, aberto e descarado dos produtos que ele gerava. Brinquedos, pôsteres, lençóis, roupas, revistas em quadrinhos, escovas de dente ou o que mais fosse possível inserir a marca dos filmes.

O lançamento de Matrix Revolutions, de 2003, talvez tenha sido o último exemplar da Era dos Blockbusters. Último capítulo de uma saga que devia ter sido encerrada em seu primeiro (e perfeito) episódio, extorquiu a paciência e dinheiro dos espectadores da obra criada pelos irmãos Wachowski numa desnecessária continuação.

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Numa jogada arriscada, os produtores de Hollywood se voltaram àquela fonte que anos antes haviam gerado um desastroso prejuízo, os quadrinhos, com Blade, X-Men, Batman Begins…

Passada mais de uma década, o gênero super-heróis apresenta um tímido desgaste. Alguns filmes anteriores foram tratados pela crítica como provas irrefutáveis do fim como Watchmen e Liga Extraordinária. Talvez haja um exagero aí. Mas o fato de Homem de Ferro 3 não ter sido um sucesso unânime nem mesmo entre os fãs mais fiéis é um indicador bastante ruidoso.

É seguro apostar no sucesso financeiro de Man Of Steel ou X-Men, mas seria ingênuo ignorar certas lições de história. O fim da Era dos Super-Heróis no Cinema é certa. A única questão é quando. Agora, as especulações para o futuro, cabe a você ponderar.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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5 respostas para É o fim dos filmes de Super-heróis??

  1. Leonard disse:

    Como em qualquer outra área de entretenimento, a moda passa e novas idéias surgem. Eu particularmente não ligo muito pra isto. Se saísse um Matrix 4 ou De Volta Para o Futuro 4 eu pagaria para assistir do mesmo jeito. Talvez pelo saudosismo, talvez pela curiosidade em saber como o diretor explorou a franquia. Eu arrisco dizer que mesmo chegando ao “fim”, uma era nunca morre, ou seja, o fim acaba sendo preocupação quase que exclusiva dos estúdios. Enfim, eu não compreendo esta senoide de estilos da industria de entretenimento, mas se esta era terminasse hoje, eu esperaria ter saúde para poder assistir os remakes e poder dizer: “os da minha época eram muuuuuuuuuito melhores…” hehehehe!

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Duas ressalvas importantes que não falei no texto:

      1- os “estilos” de cinema não são superados e eliminados quando surge outro, só apontei (de modo bem grosseiro e sem muitas evidências) que deixam de ser tão frequentes em detrimento de outro estilo;

      2- de modo algum quis dizer que os filmes blockbusters (ou do Star System, ou New Hollywood, ou noir, ou indie, ou nouvelle vague ou sei lá mais quantos estilos que ignoro) são ruins. Curto pacas todos eles!

      Crescido na década de 80, é natural que meu gosto seja balizado pelos filmes produzido naquele período. Tal como você eu pagaria rios de dinheiro semvergonhamente pra assistir De Volta para o Futuro 5, 7 ou 20. (Só preferia que deixassem o velho Indiana Jones em paz). Barato de ser velho é saber, sem ter que provar porra nenhuma pra geração Justin Bieber, que os da nossa época eram muito melhores.

      E usar “senóide” numa frase. Velhos, elegantes e de vasto vocabulário.

      XD

  2. O interessante, que mesmo que desgaste e eles passem para a próxima “era” a lição será aprendida e vez ou outra teremos um filme nesse estilo para matar a saudade dos velhos tempos atuais. Mas creio que demorará uns 6-8 anos, pois ainda tem umas historinhas a serem contadas.

  3. Pingback: Quadrinhos na História: bibliografia quadrinheira | Quadrinheiros

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