STARK E O DILEMA DE NOBEL (ou de Santos Dumont, se você faz questão de ser nacionalista)

Alfred Bernhard Nobel (Estocolmo, 21/10/833 — San Remo, 10/12/1896)

Você dedica toda a sua vida (ok, nem toda porque espero que você pelo menos tenha uma infância mais saudável do que a desses caras) em pesquisas, experiências, mais pesquisas, novas experiências, tudo em busca de algo que mude positivamente a vida de milhares de pessoas, talvez da humanidade inteira. E você consegue! Parabéns! Muito dinheiro na sua conta bancária, entrevistas em todos os canais de notícia, pessoas pedindo autógrafos e fotos por onde você passa. E, acima de tudo, a sensação de ter feito algo bom pela humanidade. No dia seguinte, a grande notícia é que sua invenção mudou o modo de se fazer uma guerra. Aquilo que você criou para melhorar a vida das pessoas agora é uma arma extremamente eficiente. E a culpa é sua. Toda sua.

Alberto Santos Dumont (Palmira, 20/07/1873 — Guarujá, 23/07/1932)

Escrevo isso com dois ilustres inventores em mente: Alfred Nobel, criador da dinamite, e Alberto Santos Dumont, inventor do primeiro aeroplano com auto-propulsão (ok, os irmãos Wright realmente voaram antes dele, mas, se a aviação tivesse se restringindo à idéia inicial deles, todos os aeroportos precisariam de imensos estilingues e você não teria como ir muito mais longe do que a cidade vizinha — talvez fosse mais barato). Os dois viveram seus últimos anos em depressão. Nobel ainda usou sua fortuna para criar o prêmio internacional que leva seu nome, dado àqueles que contribuem para o engrandecimento do espírito humano (embora muitas das indicações do Prêmio Nobel da Paz sejam bastante discutíveis), mas considerava isso uma compensação muito pequena perto do mal que sua invenção provocava.
Nobel e Dumont são cientistas de uma época muito diferente da nossa. Apesar das inúmeras evidências em contrário, a Ciência ainda se pensava como um instrumento de promoção da bondade. Mas, como dizia meu pai, o ser humano é tão mau que ele sempre dá um jeito de fazer a coisa errada, mesmo que use uma coisa boa.

Iron Man #225, Dezembro/1987

Personagens reais com dilemas morais profundos geralmente rendem ótimos argumentos para histórias-em-quadrinhos. Tudo o que precisamos é de um bom roteiro e uma boa arte. Com roteiro de  David Michelinie e Bob Layton e arte de Mark D. Bright e Barry Windsor-Smith, Guerra das Armaduras é uma das minhas histórias favoritas do Homem-de-Ferro (o nome dele ainda era hifenizado quando comecei a ler e vou continuar usando assim — danem-se a nova ortografia e sua falta de lógica), talvez porque tenha sido publicada no Brasil na época em que eu começava a descobrir os quadrinhos heróicos. Pensando bem, foi o primeiro arco completo que li do herói. Mas, independentemente de todo o ar de nostalgia que essa história tem pra mim, é realmente uma boa história.
Tony Stark viveu o dilema de Nobel (ou de Santos Dumont) depois de sair do alcoolismo. Por conta de uma luta contra o Espião Mestre, descobriu que sua tecnologia tinha sido roubada e era usada por praticamente todos os heróis e vilões de armadura do universo Marvel. Principalmente vilões. O dilema dura só algumas páginas — claro!!! —, afinal, Stark é um herói (ainda com identidade secreta) e toma a única decisão aceitável: destruir todos os vestígios de sua tecnologia que não estejam sob seu controle pessoal e descer o pau (ou o metal) em todo o mundo que tentar impedi-lo.

Iron Man #228, março/1988

Guerra das Armaduras é uma história bem típica dos quadrinhos do final dos anos 80: muita ação, poucas palavras, situações e soluções previsíveis. O que faz dela uma boa história é o fato de que todas as pontas estão bem amarradas, de um modo que mesmo quem não conhecesse muita coisa sobre o Homem-de-Ferro (era o meu caso e na época não tínhamos internet para pesquisar esse tipo de coisa) conseguia acompanhá-la e se divertir com isso. Outro aspecto positivo da história é que vemos combates contra muitos heróis e vilões que não fazem parte do núcleo do Homem-de-Ferro, o que nos dá uma percepção mais clara do tamanho do universo Marvel (pensem como isso era divertido na cabeça de um moleque de 12 anos que ainda não sabia quase nada sobre quadrinhos heróicos). Finalmente, há o drama: nosso herói de armadura é obrigado a enfrentar um de seus melhores amigos, Steve Rogers — na época, chamado simplesmente de Capitão, sob a identidade visual que viria a ser do novo Agente Americano, já que o governo dos EUA tinha resolvido que ele não se adequava à função do Capitão América (sim, disseram que ele não estava à altura dele mesmo!!!), uma crítica bastante clara ao republicanismo da era Reagan-Bush.
Quando acabou, a Guerra das Armaduras deixou algumas conseqüências. A mais óbvia foi uma nova armadura, de volta ao vermelho e dourado. As mais promissoras foram o rompimento da amizade com o Capitão — mal-aproveitada, infelizmente (eu nem lembro como os dois reataram a amizade, de tão insignificante que foi o acontecimento) — e o fato de que os antigos aliados do Homem-de-Ferro sabiam que o verdadeiro assassino do Homem-de-Titânio estava vivo — ninguém nunca mais se importou com isso.

Iron Man #231, junho/1988

O que diferencia Stark de Nobel ou Dumont? Simples: Stark tem os meios para impedir que sua criação seja usada sem autorização. Mais que isso, tem o temperamento. Pacifistas por princípio, ninguém jamais imaginaria Nobel explodindo pessoas ou Dumont usando seu avião para destruir fábricas. Eles mergulharam na depressão simplesmente porque o único meio de impedir que a humanidade usasse suas criações para praticar a violência era usar mais violência. Stark já era um adepto da idéia da legitimidade da violência desde o início. Por isso, sua solução para derrotar uma arma poderosa é inventar uma mais poderosa ainda e que só ele pode usar. Simples, pragmático e tipicamente americano.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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2 respostas para STARK E O DILEMA DE NOBEL (ou de Santos Dumont, se você faz questão de ser nacionalista)

  1. Gazy Andraus disse:

    Interessante sua análise desse arco de histórias do Homem-de Ferro. Esta fase eu não segui, pois estava parando de ler HQs de heróis. Ainda assim, a relação com Nobel e Dumont foi pertinente. Continue suas análises desse tipo de HQs relacionando-as. Costumo fazer isso tb. Mas te convido a ler algumas de minhas análises aqui: http://classichqs.blogspot.com.br/

    • Quotista disse:

      Li seu blog e gostei do conteúdo. Pena que tenha poucos artigos. Imagino que a vida acadêmica realmente deixe pouco espaço para escrever. Eu mesmo abandonei meus blogs anteriores por falta de tempo e só mantenho este porque a parceria só exige que eu escreva uma ou duas vezes por mês.

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