Tudo isso já aconteceu antes e vai acontecer novamente: o conflito de gerações na cultura pop

Tudo isso já aconteceu antes e vai acontecer novamente porque a natureza humana é imutável. Se existe algo universal é o conflito de gerações.

Nossos adolescentes atuais parecem amar o luxo. Têm maus modos e desprezam a autoridade. São irrespeitosos com os adultos e passam o tempo vagando nas praças, mexericando entre eles. São inclinados a contradizer seus pais, monopolizam a conversa quando estão em companhia de outras pessoas mais velhas; comem com voracidade e tiranizam os seus mestres

A frase acima poderia ter sido escrita nos dias de hoje, mas não foi. Ela é de Sócrates e vemos que 2.500 anos não foram suficientes para que ela perdesse sua atualidade. Desde a Grécia Antiga parece que os mais jovens tem o poder de incomodar os mais velhos.

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Outro exemplo desse conflito de gerações é a Questão Coimbrã, que você deveria ter estudado no colégio, quando a inconformidade da juventude acadêmica de Portugal se choca com os valores do status quo e culmina com o célebre panfleto Bom Senso e Bom Gosto, escrito por Antero de Quental, que coloca a geração anterior em seu devido lugar, abrindo espaço para a novidade trazida pelos jovens.

As gerações mais novas possuem a potência da crítica em suas veias. Essa potência é apenas uma insatisfação, o mundo criado pela geração anterior não é aquele esperado ou desejado pela nova. A insatisfação, apurada, refinada, transforma-se em crítica, a crítica em reforma, a reforma em status quo e o ciclo está fadado a repetir-se ao infinito. É isso o que permite uma sociedade renovar-se.

Hoje é diferente, há um problema. Temos uma geração bastante adaptada ao mundo criado pela geração anterior. Satisfeitos com as benesses do mundo moderno e da tecnologia, essa geração não tem motivo para crítica e simplesmente se encaixa, ou – o que dá na mesma – essa insatisfação encontra uma válvula de escape dentro do que é esperado e previamente arquitetado para amortecer todo desconforto. Indignado com a pobreza no mundo? Faça trabalho voluntário. Seu emprego é uma merda? Sem problema, pelo menos você é um Paladino nível 200 mil em um jogo online qualquer. Na pior das hipóteses há sempre a indústria farmacêutica (legal ou extra-legal). No fim das contas é a geração anterior que parece estar insatisfeita com sua prole, que demanda renovação no próprio mundo por ela criado.

Desde o início desse blog é impressionante a quantidade de comentários que são variações de “a cultura pop é mesmo para ser consumida e esquecida, cobrar que vá além disso é inútil”. Membros de uma geração imersa na cultura pop, eles carecem de outra referência de bens culturais. Adaptados que estão, são incapazes de exigir nada além daquilo que o mercado lhes impõe e mesmo algumas coisa mais complexa dentro desses moldes provoca insatisfação.

Uma geração acostumada a ler livros, sem dúvida. Em sua estante, Harry Potter, Eragon, Crepúsculo, Jogos Vorazes. Um Tolkien tiraria uma alma do purgatório e foi preciso Peter Jackson para tornar essa clássico da literatura mundial palatável a essas novas gerações cuja maioria passou longe de seus livros, e lembremos que Christopher Tolkien já disse que Peter Jackson perverteu totalmente o sentido da obra de seu pai.

Essa geração lê quadrinhos, mas não passou pelos clássicos da 9ª Arte. O sucesso das animações da DC  entre os mais jovens pode ser explicado dessa forma: colocando clássicos como O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um num formato para uma geração que de outra forma só tomaria conhecimento deles por uma pesquisa no Google – e que provavelmente se resumiria a três linhas – a DC garantiu o sucesso entre um público que não estabelece uma comparação com a obra original (mas, no geral, até que são bem fiéis, diga-se de passagem). Lembrem-se que a molecada adorou os Novos 52, quem ficou de mimimi foi o pessoal antigo, ou seja, quem lembrava ou se importava com uma noção hoje toda ferrada pela DC chamada de continuidade ou cronologia.

Também é conhecido esse pequeno trecho de Oscar Wilde:

Para recuperar a minha juventude era capaz de fazer tudo no mundo, exceto ginástica, levantar-me cedo, ou ser respeitável. A Juventude! Não há nada que se lhe compare. É absurdo falar da ignorância da juventude. Hoje em dia só tenho algum respeito pelas opiniões das pessoas muito mais novas do que eu. Parecem-me estar à minha frente. A vida revelou-lhes a sua última maravilha. Quanto aos velhos, contradigo-os sempre. É uma questão de princípio. Se lhe pedirmos opinião sobre uma coisa que aconteceu ontem, eles dão-nos solenemente as opiniões correntes em 1820, quando as pessoas usavam golas altas, acreditavam em tudo e não sabiam absolutamente nada.

Wilde atentava para o fato de que as pessoas tendem a pensar como pensavam quando jovens, e, se esta opinião tornou-se conservadora, é justamente porque esses jovens de antigamente adaptaram o mundo de acordo com suas aspirações. Os jovens atuais – insatisfeitos – poderiam dar uma opinião livre dos preconceitos. Mas como isso vai acontecer num mundo de jovens entorpecidos?

Mas alguns podem argumentar que essas características não são apenas dos “jovens”. E isso é verdade. Antes as gerações eram contadas de 25 em 25 anos, mas com as tecnologias modernas e a “aceleração” do tempo esse intervalo diminuiu para 10 anos. Alguns interpretam isso como a convivência de pessoas com perfis diferentes, mas a verdade é que o comportamento das pessoas – do ponto de vista psico-histórico – não varia tanto assim. O que está acontecendo é uma comunicabilidade maior entre as gerações, uma contaminação. Alguns psicólogos já utilizam o termo adultescência para descrever um certo tipo de comportamento que mescla as liberdades do adulto com a inconsequência de juventude e dizem que – pasmem – isso dura até os 30 anos, talvez mais. Portanto, quando digo “essa geração” é qualquer coisa entre as pessoas de 35 (talvez 40) e 15 anos.

Sem referências e referenciais essa geração segue perdida achando genial todo e qualquer best-seller, insuperável qualquer blockbuster e incomparável qualquer que seja a última coisa que tenham visto. Falta-lhes um Antero de Quental, bom senso e bom gosto.

Nota: Tendo como base o acima mencionado, de acordo os cálculos psico-históricos dos Quadrinheiros agora tornados públicos entramos numa fase de estagnação da cultura pop e nerd que duraria 1000 anos. Como já tomamos as devidas providências para diminuir esse tempo de estagnação – sendo a criação desse blog um deles – ela durará apenas 100 anos. Infelizmente não posso dizer mais nada a respeito sob o risco arruinar os cálculos psico-históricos já realizados, porém você pode nos ajudar propagando esse texto pela net e conclamado as exceções dessa nova geração – aqueles que efetivamente conhecem Tolkien  e Game of Thrones, Asimov e Jogos Vorazes,  Os Livros da Magia e Harry Potter, Bram Stoker e Crepúsculo; aqueles que têm na sua prateleira não só quadrinhos, mas livros de História, Filosofia, Filosofia, Física Quântica; que reconhecem a beleza em Os Vingadores e Metrópolis, The Dark Knight e Laranja Mecânica – para nos ajudar nesse esforço.

 

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Sobre Nerdbully

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7 respostas para Tudo isso já aconteceu antes e vai acontecer novamente: o conflito de gerações na cultura pop

  1. Olavo Lima disse:

    os novos 52 continuam uma merda e o pessoal da nova geração está perdendo o interesse por isso as vendas estão caindo na Dc então…

  2. Bom e o que voces deste blog tem a dizer das manifestações em são paulo e em outras cidades por acaso são os jovens que estão indo a luta!!

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