Before Watchmen: um teste de vaidade para Alan Moore

Sobre Before Watchmen, série atual da DC que visita o universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons em 1987, o barburu inglês foi taxativo:

As for the readers, I have to say that if you are a reader that just wanted your favorite characters on tap forever, and never cared about the creators, then actually you’re probably not the kind of reader that I was looking for.  I have a huge respect for my audience.  On the occasions when I meet them, they seem, I like to think, to be intelligent and scrupulous people.  If people do want to go out and buy these Watchmen prequels, they would be doing me an enormous favor if they would just stop buying my other books.”

(se você faltou na aula de inglês, aqui vai a tradução omeletada: “Se você é um leitor que só quer ver seus personagens prediletos eternamente à sua disposição e não dá a mínima para quem os criou, provavelmente você não é o leitor que eu quero. Tenho um respeito imenso pelo meu público. Sempre que encontro estas pessoas, presumo que seja inteligente, com escrúpulos. Mas quem quiser comprar esses prelúdios de Watchmen estará me fazendo um grande favor se parar de comprar minhas outras obras.”)

Como o Gordo que teve que confessar tudinho pra não ser trucidado pelos Fratelli, devo dizer: eu li Before Watchmen.

“Empurrei minha irmã da escada e joguei a culpa no cachorro!”

As edições Before Watchmen – Minutemen n. 1, de Darwyn Cooke, e Before Watchmen – Silk Spectre n. 1 de Darwyn Cooke e Amanda Conner, não são mais do que sombras do Watchmen original; e em nenhum momento se pretendem algo além disso.

A dupla criativa já tinha uma afetuosa reputação com os leitores, muito por causa de seus trabalhos anteriores.

No caso de Cooke, é reflexo da sua visão retrô em DC: A Nova Fronteira (2003-2004). No caso de Amanda Conner, ela ganhou a estima da molecada nas 12 edições de Power Girl (2009-2010), mostrando que atrás de um decotão tem um coração maior ainda (o decotão é recurso tático na hora da briga, dizem os gibis).


BW – Minutemen n. 1 versa sobre aspectos mencionados, mas não mostrados, no passado de Watchmen, como o início da carreira do honesto Coruja, idealista Capitão Metrópolis e obstinado Justiceiro Encapuzado.

BW – Silk Spectre n. 1 mostra o cotidiano de uma mãe e filha, as heroínas Sally Jupiter 1 e 2, sozinhas, legadas à própria sorte (e fofocas) da vida num subúrbio americano na década de 60.

Não há nas duas revistas nada além de enorme cuidado e respeito pela obra original de Moore e Gibbons. É aí que está o problema (especialmente no caso de Minutemen): elas carecem de originalidade.

Arapuca montada pelo próprio Alan Moore, Watchmen é uma série de 12 edições fechadas, com começo, meio e fim. Qualquer ramificação daquela história é “suitagem” (no jornalismo , “suitar” é algo como “forçar a barra”, pegar aspectos ou temas semelhantes de uma notícia principal, de grande visibilidade, e fazer outras matérias menores de forma a vender jornal ou atrair leitor ).

Mas o apelo aos escrúpulos do leitor feito por Alan Moore, embora evoque integridade e respeito, não pode ser seguido. E com isso não quero justificar a ganância capitalista da DC (mesmo que seja seu resultado mais evidente).

Impedir o leitor de conhecer outras interpretações de ícones, sejam eles quais forem, repercute gera a mais pura idolatria. E idolatria é o caminho mais curto pra cegueira intelectual. Verdadeiro retrocesso mental.

“Galera, sou o único que não se sente confortável com isso?”

Minha reverência por Alan Moore é imensa; mas bem sei que o cara é dado a chutar o pau quando o assunto é propriedade artística.

Numa coletiva de imprensa em São Paulo, em 2007, lembro do David Lloyd, co-criador do V de Vingança junto com Alan Moore, dizer que o criador de Watchmen tende a ver coisas nos contratos de trabalho que não estão lá (por exemplo, exclusividade de direitos em personagens que são da editora).

Agora, como bem resumiu O orientador lembrando de Oswald de Andrade, “quando um autor publica certo texto de que gosta é por pura vaidade. Quando ele não publica algum texto, também é.”

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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2 respostas para Before Watchmen: um teste de vaidade para Alan Moore

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