As Eras e a moral dos super-heróis

liga da justica vingadores

Um passeio pelas Eras dos quadrinhos de super-heróis americanos a partir da noção de moral.

O presente texto é uma versão reduzida do capítulo homônimo publicado no nosso livro Quadrinhos Através da História – As Eras dos Super-Heróis. 

Como indagou Aristóteles em Ética a Nicômano (séc. II a.C.), “Nosso caminho parte dos primeiros princípios ou se dirige para eles?” Sem respostas, resta a nós, espectadores da arena narrativa, assistir às rotações de uma mesma peça. São acordes diferentes de uma longa sinfonia, uma rixa moral disputada no século XX e que avança no século XXI. Mas qual é a moral dos heróis, personagens dessa história?

A Era de Ouro (1938-1950), primeira referência para tudo que vem depois na história dos quadrinhos, está intimamente ligada a três fatos históricos ruidosos, a Grande Depressão, o New Deal e a 2ª Guerra Mundial. Momento em que a escassez técnica determinou a qualidade criativa, a Era de Ouro fez emergir ícones do ofício, nomes como Joe Shuster e Jerry Siegel, criadores do Superman, Bob Kane e Bill Finger, criadores do Batman, Jack Kirby e Joe Simon, criadores do Capitão América, William Moulton Marston, criador da Mulher-Maravilha.

Acima de tudo, arriscamos indicar como aspecto dominante, os heróis da Era de Ouro foram os defensores do que é justo.  E por quê? Exatamente pela percepção aguda entre o público – quiçá no mundo todo – da ausência da justiça. Ou como ensinaria Aristóteles, muitas vezes uma situação é reconhecida pelo seu contrário, e justamente quando se conhece a boa condição, a má condição também se torna claramente conhecida.

Numa época em que o mal era sinônimo de se furtar ao necessário, roubar, mentir, ou se omitir diante da ambição e opressão, uma determinada moral se constituiu: os heróis da Era de Ouro eram aqueles dotados de tenacidade, de honestidade, de obstinação. Batman e Superman combateram assaltantes de bancos e negociantes corruptos. O Capitão América batalhou contra as forças do Eixo. A Mulher-Maravilha arrancou a verdade dos invasores nazistas.

Na Era de Prata (1956-1970), muitos daqueles mesmos heróis se fizeram vozes de uma sociedade que inalava nacionalismo e expirava anti-americanismo. O advento da Guerra Fria, a divisão do mundo em blocos soviético e capitalista, a promessa da técnica e da ciência como meio e destino de vida, além do caráter missionário da “contenção do mal” não deixavam dúvidas: a moral dos heróis na Era de Prata era baseada numa trindade laica, do bom pai, do bom filho e da defesa dos Estados Unidos.

Na Era de Prata, a comunidade heroica buscou se associar com maior afinco. Vieram os super-grêmios, clubes e escolas, como a Liga da Justiça, os Vingadores ou a Escola para Jovens Dotados do Professor Xavier, local da formação educacional dos X-Men. E expressão praticamente completa da Era de Prata, surgiu pelas mãos de Jack Kirby e Stan Lee o intrépido Quarteto Fantástico, uma família de cientistas de exploradores do espaço com super-poderes.

Enquanto os heróis se lançavam em aventuras e desafios cada vez mais ousados, seja fora do planeta, seja em outras dimensões, restava nas periferias narrativas uma sutil sensação de desamparo ao fim da década de 1960. Na Era de Bronze (1970 – 1985), muitas histórias em quadrinhos deram uma guinada. Com a crítica da opinião pública à guerra no Vietnã, alimentada pela crise institucional provocada pelo caso Watergate, havia sinais que o matiz político americano pendia para esquerda. Ao invés de celebrá-las, a moral dos heróis na Era de Bronze repousava no ceticismo ante às instituições americanas mais tradicionais.

Ora, enquanto singravam as estrelas, o que os heróis faziam pelos pobres, pelos negros, pelos oprimidos diante da desigualdade de oportunidades? Este era o mote das histórias concebidas por autores como Dennis O’Neil, Neal Adams, Archie Goodwin, John Romita Sr. e Frank Miller. O que poderiam, deveriam ou gostariam de fazer os heróis ante a violência, injustiça e  brutalidade que testemunhavam diariamente? Se era impossível manter os olhos fechados, os personagens da Era de Bronze eram expressões de reação a tais chagas.

Numa continuidade quase límpida, a Era de Ferro (1986-1994) sucedeu a era de Bronze praticamente sem grandes nuances. A Guerra Fria estava chegando ao fim, os soviéticos não tinham mais condições de acompanhar a corrida espacial, armamentista e de produção se comparados aos países de economia capitalista. No entanto, como mostraram os personagens de quadrinhos desta Era, as ideologias das décadas passadas há muito já haviam sido adulteradas, abandonadas ou esquecidas.

Os heróis de quadrinhos, cujas virtudes vicejaram nas décadas anteriores quando se fizeram de “soldados” de uma guerra justa, do suporte da família ou como agentes de uma consciência social, na Era de Ferro se perguntaram o porquê de escolherem vestir capas, uniformes, máscaras e bater em criminosos. E duas séries revolucionárias assumiram a responsabilidade de responder.

Como se fosse uma espécie de “parto”, traumático e tempestuoso, o Cavaleiro das Trevas e Watchmen, respectivamente, obras máximas de Frank Miller e Alan Moore examinaram com profundidade terapêutica o âmago dos personagens: a moralidade dos heróis era pura expressão dos seus impulsos mais íntimos.

Se por um lado Cavaleiro das Trevas e Watchmen marcaram o início da Era de Ferro com enorme qualidade de roteiro, mostrando que os “heróis” gostavam de praticar atos violentos, por outro, revistas como Spawn, de Todd McFarlane, WildCATS, de Jim Lee, e Youngblood, de Rob Liefield, deram a entender que, ao final, os personagens brigavam entre si apenas por brigar, sem qualquer razão além da comercialização de sofisticadas “splash pages”.

Superados os estertores da Guerra Fria, não havia sinal claro de uma direção para onde os heróis de quadrinhos deveriam caminhar. Ao contrário, a Era de Ferro tornou bem clara a banalização de violência que as aventuras dos personagens haviam se tornado recipiente. Então veio a Renascença.

Obras visual e textualmente complexas como Marvels, de Kurt Busiek, e Reino do Amanhã, de Mark Waid, ambas desenhadas por Alex Ross, crivaram, com notável clareza, uma posição assumidamente contrária ao que se tornou uma representação convencional do “herói” de quadrinhos, como Cable, da editora Marvel, ou o Major Stricker, da editora Top Cow/Image. Para estes e outros autores, como Grant Morrisson, Geoff Johns, Brian Meltzer, Warren Ellis, havia um vasto manancial de narrativas e possibilidades criativas jamais exploradas no passado, em especial na Era de Prata. Acima de tudo, na Renascença dos quadrinhos, despontava um sentimento de restauração, de nostalgia.

Em Ética a Nicômano disse Aristóteles que “[…] Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se e cresce graças ao ensino – por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome (ἤθη), por uma pequena modificação da palavra ἔθος (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza.

Ensina a longa narrativa mítica, da qual as histórias em quadrinhos e seus heróis fazem parte, a virtude intelectual pode ser ensinada. Se não há virtudes morais que surjam em nós por natureza, não há outra razão para deixar de tentar aprende-las, inclusive, por meio dos quadrinhos e suas valiosas lições.

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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