Obi-Wan Kenobi: 5 questões que não precisam de resposta

Dilemas que ficam entre o oportunismo e a preguiça dos roteiristas.

Há de se concordar, a vida de uma equipe de roteiristas não deve ser fácil. São décadas de histórias, centenas de personagens. O mundo está repleto de fãs ortodoxos, prontos para devassas imediatas ou até simultâneas ao lançamento de filmes e séries. Apresentar novos episódios no universo de Star Wars é tarefa tão árdua quanto equilibrar taça de cristal em bandeja num baile de forró.

O desafio tem precedentes. E os resultados são constrangedores, algo como uma azia mental. Também sob a asa da Disney, a animação da Marvel “E se…?” trouxe ideias nada inspiradas como  “E se T’Challa fosse o Starlord”, ou “E se Killmonger tivesse salvo Tony Stark”. Criado como um epílogo da Saga do Infinito, com pontuais exceções, invés de acrescentar, submergiu a iniciativa a mero painel de possibilidades visuais, uma embalagem sem conteúdo.

Já o Livro de Boba Fett provocou o equivalente a uma ressaca digna de fim de carnaval. O efeito só não foi pior graças aos dois episódios que preparam a 3ª temporada de O Mandaloriano. Nada, pelo que foi mostrado na série, justificou sua criação, tampouco acrescentou ou redimiu o personagem de quem esperava dele algo diferente do que foi visto desde que surgiu no Especial de Natal de Star Wars em 1978.

A ser lançada em 27/04/2022, a esperada série de Obi-Wan Kenobi foi adiada em dois dias – ademais perdendo a chance de uma infalível vitória de marketing caso fosse lançada em 4 de maio (ou “May the Forth”)*.  No entanto, à luz de papagaiadas que precedem a série, é de se perguntar se os roteiristas vão escapar de certas tentações preguiçosas ou das pressões de gente que tem poder de veto na mão.  

Coações assim são o que levam a responder questões que jamais tinham sido feitas simplesmente porque são totalmente irrelevantes no contexto geral das obras. Por exemplo, quem, afinal, queria saber de onde veio a pistola usada por Han Solo? Por que seria relevante saber a razão do sobrenome dele? (Pelo menos temos sorte – até o momento – de ninguém se perguntar o porquê de “Skywalker”).

Faltando algumas semanas para revisitar o mais venerável cavaleiro da Ordem Jedi, é esperado que a série jamais responda as seguintes questões:

Como e o que inspirou Leia a se tornar uma líder rebelde?

Por que é irrelevante: Em primeiro lugar, o império explodiu Alderaan. Mesmo que Leia fosse uma adolescente alienada, tapada e fútil, o Episódio IV – Uma Nova Esperança dá todas as razões pra ela rever seus conceitos e se radicalizar. Em segundo, o assunto já foi tocado no jogo The Force Unleashed e também em alguns episódios de Rebels.

Por que Owen Lars não queria que Luke encontrasse Obi-Wan Kenobi?

Por que é irrelevante: Owen Lars é o verdadeiro pai de Luke Skywalker. Ele alimentou, vestiu, educou e protegeu Luke até a vida adulta. Não há pai que tenha trocado uma fralda de filho que sequer considere a possibilidade de trazer para casa a presença de um ex-general/pastor/eremita ressentido, que fala com fantasmas e abertamente engajado em derrubar o governo vigente numa guerrilha interplanetária. O que leva à próxima questão.

Como Obi-Wan aprendeu a conversar com os fantasmas da Força?

Por que é irrelevante: Yoda foi expressamente claro: “No seu isolamento em Tatooine há um treino para você. Um velho amigo aprendeu um caminho para a imortalidade.   Um que voltou do além-mundo da Força. Seu velho mestre. Como se comunicar com ele, irei ensinar.

Você consegue se lembrar exatamente quando aprendeu a tocar um instrumento? A cozinhar um prato especial? Ou a realizar algum movimento atlético, como correr longas distâncias, levantar um peso enorme? Assim como as habilidades dos Jedi, são talentos adquiridos de forma gradual, ao longo de uma vida, com treino, disciplina e muita paciência. Os resultados finais, para nós que assistimos, tem mais impacto do que acompanhar cada etapa para alcançar esta aptidão.

O que aconteceu com Darth Vader após a batalha de Mustafar?

Por que é irrelevante: Numa leitura mesquinha, não há muito para se explorar sobre Darth Vader depois de ser derrotado por Obi-Wan. Após assassinar a própria esposa e filho, ser mutilado por Obi-Wan e nomeado comandante da maior força militar da galáxia em 1000 gerações, não é uma surpresa ele ter se tornado uma máquina genocida irrefreável. Isso já era bastante óbvio nas primeiras cenas do Episódio IV e Rogue One, mas também foi densamente explorado nos quadrinhos escritos por Charles Soule e nos jogos The Force Unleashed I e II.

Numa leitura mais, digamos, dramática, explorar a vida de Darth Vader depois de Mustafar seria algo como narrar a razão de ser dos Cenobitas, os aterrorizantes vilões de Hellraiser. Investir nessa linha tornaria Star Wars uma história de terror, o que levaria todas as crianças do mundo ao consultório de enriquecidos terapeutas.

Onde esteve Ahsoka Tano enquanto Obi-Wan estava escondido em Tatooine?

Por que é irrelevante: Depois de ser excomungada da Ordem Jedi, Ahsoka escolheu um caminho próprio. Já vista como guerreira, conselheira, traficante, curandeira, assim como o Mandaloriano, Ahsoka tem o campo aberto para ter suas próprias histórias contadas.

Como muitos personagens de Star Wars, Ahsoka Tano foi criada para vender brinquedos na segunda série animada chamada Clone Wars. Em algum momento, porém, o produtor/diretor da série Dave Filloni percebeu (ou foi avisado de) que ela se tornou uma das mais complexas e formidáveis personagens da ficção das últimas décadas.

Amarrar o caminho dela, mais uma vez, como um apêndice da vida das reviravoltas da família Skywalker não é apenas um desserviço à personagem. É preguiçoso e oportunista.

Oremos.

* Apud Bia, colega de firma,

uma marketeira disfarçada de professora.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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